Plano descentraliza tomada de decisões e cria camadas de defesa contra ofensiva de EUA e Israel, e foi criado com base em lições passadas de conflitos na região
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GERADO EM: 10/03/2026 - 15:37
"Irã Adota 'Estratégia do Mosaico' para Defesa Descentralizada"
A "Estratégia do Mosaico" do Irã, uma doutrina militar descentralizada, visa enfrentar invasores, espalhando decisões e criando camadas de defesa contra EUA e Israel. Embora prolongue a sobrevivência do regime, pode levar a erros graves. Com ataques contínuos e resistência multifacetada, a estratégia desafia expectativas americanas e israelenses, enquanto o Irã busca prolongar o conflito para negociar.
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No momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, afirma que a guerra contra o Irã está perto do fim, a intensidade dos bombardeios contra o país e a ainda resiliente capacidade de retaliação de Teerã sugerem um rumo diferente para o conflito. Décadas atrás, os iranianos começaram a adotar uma doutrina militar, conhecida como "Defesa Descentralizada do Mosaico”, ou "Estratégia do Mosaico", focada no enfrentamento de uma força invasora e em espalhar os processos de tomada de decisão. Mas ao mesmo tempo em que parece garantir a sobrevivência do regime a curto prazo, para espanto dos comandantes americanos, ela também abre espaço para perigosos erros de cálculo.
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Como lideranças de todos os envolvidos — EUA, Irã e Israel — destacaram numerosas vezes desde o dia 28 de fevereiro, a nova guerra no Golfo foi planejada em paralelo às décadas de animosidade entre Washington e Teerã. Pelo lado americano (e israelense), alvos foram estabelecidos, cenários traçados e figuras centrais do regime identificadas.
No ano passado, a Operação Martelo da Meia Noite, que encerrou um conflito de doze dias entre Irã e Israel com ataques a centrais nucleares iranianas, serviu de prelúdio, com o assassinato de comandantes, políticos e cientistas nucleares. A morte do líder supremo, Ali Khamenei, nos primeiros atos da Operação Fúria Épica, confirmou que era uma ação de eliminação das cadeias de comando e controle, e de destruição de instalações políticas, econômicas e militares. Em mais de uma ocasião, o presidente americano, Donald Trump, citaou a intervenção na Venezuela, em janeiro, que terminou com a captura de Nicolás Maduro e a adesão do chavismo à cartilha dos EUA.
Estrategistas do Pentágono e de Israel passaram anos debruçados sobre planos contra um inimigo comum. O mesmo ocorreu no Irã, com uma abordagem distinta e lições do passado.
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Os “bombardeios de precisão” no Afeganistão demonstraram a necessidade de não concentrar suas principais capacidades — humanas e militares — em poucos lugares. A Guerra Irã-Iraque, entre 1980 e 1988, tornou claro o papel dos mísseis balísticos como elemento de retaliação. O colapso relâmpago do regime de Saddam Hussein após a invasão dos EUA do Iraque, em 2003, confirmou a vulnerabilidade da concentração de poder em tempos de guerra.
“A eficácia das forças militares americanas contra as tropas de Saddam Hussein surpreendeu os governantes do Irã, que temiam um possível ataque dos EUA, possivelmente começando com uma campanha aérea para decapitar a liderança principal e interromper o comando e controle”, escreveu Nicholas Carl, especialista em questões de segurança interna do Irã, em relatório para o American Enterprise Institute, em 2023.
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Ao lado de medidas políticas, incluindo a sinalização de que o país havia abandonado seus planos de construir uma bomba atômica, a Guarda Revolucionária começou a implementar uma estratégia para descentralizar processos de decisão em combate, uma doutrina de defesa anunciada em 2005, a “Estratégia do Mosaico”. Seu cerne é a divisão do país em 31 centros separados de comando.
— Cada província é um mosaico, e os comandantes têm a capacidade e o poder de tomar decisões — disse Farzin Nadimi, especialista em defesa do Instituto de Washington, à Rádio Europa Livre, ligada ao governo dos EUA. — Portanto, mesmo isolados de seu comando em Teerã, eles ainda podem funcionar como uma força militar coesa.
Milícias no Iraque, Iêmen e Líbano atuam como forças auxiliares e garantem que o conflito não fique restrito ao território iraniano. Elas respondem à Força Quds, um dos braços da Guarda Revolucionária, e que teve a base em Teerã e 16 aeronaves de transporte atingidas por bombas israelenses.
A resistência se torna um conjunto de forças regulares e guerrilha irregular, para causar o maior estrago possível e estender o conflito até extrair uma trégua. A sobrevivência da República Islâmica se sobrepõe à defesa da capital ou seus líderes.
“Tivemos duas décadas para estudar as derrotas das Forças Armadas dos EUA a leste e a oeste de nossas fronteiras. Incorporamos essas lições”, escreveu Abbas Araghchi, chanceler iraniano, na rede social X, no domingo. “Bombardeios em nossa capital não afetam nossa capacidade de conduzir uma guerra. A Defesa Descentralizada do Mosaico nos permite decidir quando — e como — a guerra terminará.”
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Apesar de Trump afirmar que as capacidades militares iranianas foram dizimadas, e do Pentágono afirmar que o volume de projéteis cruzando o Golfo caiu quase 90% em relação ao início da guerra, os mísseis, foguetes e drones ainda causam estragos — refinarias na Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos suspenderam operações, e a malha aérea ainda tenta se reerguer. Pela lógica iraniana, esses ataques compartilham o custo da guerra com nações que não estão diretamente envolvidas.
Países como Catar e Omã, atingidos nos últimos dias, discutem nos bastidores caminhos para o cessar-fogo, enquanto outros analisam reduzir investimentos no exterior. O bloqueio do Estreito de Ormuz fez com que a cotação do barril disparasse, e pode servir para que grandes importadores, como a China, busquem protagonismo para acelerar negociações.
— Teerã conta com o tempo para manter seu poder — disse Nico Lange, ex-chefe do Estado-Maior do Ministério da Defesa alemão, ao Wall Street Journal. — Os EUA, por outro lado, ficarão sob pressão imediata para encontrar maneiras de sair ou, pelo menos, limitar a operação, caso a Guarda Revolucionária continue a manter sua capacidade de agir.
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A Estratégia do Mosaico surpreendeu comandantes militares dos EUA. Em entrevista coletiva, Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, reconheceu que “eles estão se adaptando”, e que “estamos observando o que eles estão fazendo e nos adaptando mais rapidamente”.
— Eles estão lutando, e eu respeito isso. Não acho que sejam mais formidáveis do que pensávamos — completou Caine.
Pete Hegseth, secretário de Defesa, disse que as retaliações são um “grande erro” e demonstram “o desespero do regime”. Mas ele reconheceu nas entrelinhas que a escala da resposta iraniana contra as monarquias do Golfo o surpreendeu.
— Não posso dizer que previmos necessariamente que essa seria exatamente a reação deles, mas sabíamos que era uma possibilidade — disse Hegseth. — Eles ainda acreditam que a saída é alienar ainda mais seus parceiros árabes, que, por sua vez, decidiram vir até nós e se mostraram dispostos a partir para a ofensiva.
Mas a saída iraniana para a guerra tem seus riscos. A descentralização abre espaço para decisões sem respaldo estratégico e para erros de cálculo. Nos últimos dias, dois mísseis foram interceptados no espaço aéreo da Turquia, um país membro da Otan. Drones também atingiram um aeroporto no enclave de Nakhchivan, controlado pelo Azerbaijão. Nos dois casos, Teerã disse não ser responsável, e acusou Israel de tentar arrastar os países para o conflito. Já o ataque contra um porto em Omã, que vinha atuando como mediador das conversas entre Irã e EUA, foi criticado até dentro do governo.
— O que aconteceu em Omã não foi uma escolha nossa. Já dissemos às nossas Forças Armadas para terem cuidado com os alvos que escolhem — disse Araghchi à rede al-Jazeera, no dia 1º de março. — Esta é uma guerra que nos foi imposta pelos Estados Unidos e por Israel. Espero que eles (países árabes) entendam que o que está acontecendo na região não é culpa nossa, não foi escolha nossa.