Turistas pagam para gravar imagens nas lajes da favela, enquanto críticos acusam tendência de transformar desigualdade em espetáculo
Por AFP — Rio de Janeiro
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GERADO EM: 10/03/2026 - 09:15
Vídeos de drones na Rocinha: debate sobre romantização da pobreza
Vídeos virais de drones na Rocinha geram debate sobre a romantização da pobreza. Turistas pagam para filmar na maior favela do Rio, enquanto críticos alertam para a transformação da desigualdade em espetáculo. Renan Monteiro, da Na Favela Turismo, defende a iniciativa como uma forma de mostrar o lado positivo das favelas. O turismo no Rio atinge recordes, mas há divergências sobre seu impacto nas comunidades.
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O sucesso da atração é tão grande que alguns visitantes esperam até duas horas para gravar seus vídeos, pagando pelo menos 150 reais (cerca de 30 dólares). Recentemente, o local chegou até a ser cenário de um pedido de casamento.
Mas a tendência também gerou desconforto, com dezenas de comentários acusando os visitantes de romantizar a pobreza e o crime em uma comunidade de baixa renda onde atuam traficantes.
— Não estamos romantizando a pobreza. Queremos mudar o preconceito que existe na mente das pessoas — afirmou à AFP Renan Monteiro, fundador da empresa Na Favela Turismo.
Segundo ele, os vídeos fazem parte de um esforço para mostrar aos turistas “o lado positivo da favela”.
Monteiro explica que os visitantes só podem chegar à laje para filmar por meio de um tour guiado, no qual percorrem um labirinto de vielas, visitam artistas locais ou assistem a apresentações de capoeira, enquanto os moradores seguem com suas rotinas.
A Rocinha “tem essa imagem de algo ruim, perigoso... mas achei realmente encantador ver o ambiente”, disse o turista costa-riquenho Gabriel Pai, de 38 anos, após gravar seu vídeo com drone.
A influenciadora brasileira Ingrid Ohara, que soma 12 milhões de seguidores no Instagram e 20 milhões no TikTok, também participou da tendência.
Em seu vídeo, ela atravessa a laje usando touca e roupão, tira a roupa e revela um vestido curto enquanto gira para a câmera do drone que se afasta.
— Os vídeos que faço têm muitas visualizações, e por isso quis gravar um na Rocinha, porque está viralizando no mundo todo — disse.
Segundo ela, as imagens “mostram nosso país, nosso Rio de Janeiro — isso faz parte da nossa cultura”.
De ‘turismo safari’ a roteiros guiados
De ‘turismo safari’ a roteiros guiados
Monteiro, que cresceu na Rocinha, lembra dos primeiros tempos do chamado “turismo tipo safari”, quando estrangeiros visitavam a favela em jipe aberto.
Em 2017, uma turista espanhola morreu após ser atingida por um tiro durante um confronto entre polícia e traficantes, e o turismo foi interrompido.
Em parceria com líderes locais, ele traçou rotas turísticas e desenvolveu um aplicativo para monitorar a localização dos guias.
A empresa já formou 300 guias locais e 10 pilotos de drone.
Um deles, Pedro Lucas, de 19 anos, disse que tinha poucas perspectivas antes de esse trabalho “mudar” sua vida.
— Ganho um bom dinheiro e seria bom que mais pessoas da favela tivessem a mesma oportunidade — afirma.
Debate sobre impacto do turismo
Debate sobre impacto do turismo
O turismo no Rio de Janeiro — famoso por suas praias, o Carnaval e o Cristo Redentor — cresceu fortemente nos últimos meses.
A agência de promoção turística Embratur informou que quase 290 mil turistas internacionais visitaram a cidade apenas em janeiro, um recorde.
Em fevereiro, a Na Favela Turismo registrou 41 mil visitantes na Rocinha e no Vidigal.
A empregada doméstica Claudiane Pereira dos Santos, de 50 anos, celebra o boom turístico.
— As pessoas associam imediatamente a Rocinha ao crime. E não é assim. Tem muita gente trabalhadora, gente maravilhosa — diz.
Já Cecilia Olliveira, diretora do Instituto Fogo Cruzado, que monitora a violência armada em comunidades de baixa renda, faz uma ressalva.