Clarice Alves aposta no cinema para ampliar o debate sobre futebol feminino: 'É hora de virar o jogo no apoio às mulheres'
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Clarice Alves aposta no cinema para ampliar o debate sobre futebol feminino: 'É hora de virar o jogo no apoio às mulheres'

Novo longa abre debate social para iluminar desigualdades históricas no esporte, com estreia prevista para 2027

Por O Globo — Rio de Janeiro

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    GERADO EM: 10/03/2026 - 18:58

    Clarice Alves lança filme sobre desigualdades no futebol feminino

    Clarice Alves aposta no cinema para promover o futebol feminino com o filme "Virando o Jogo", previsto para 2027. Em parceria com Marcelo Vieira e Tatiana Fragoso, o longa visa destacar desigualdades no esporte e incentivar equidade. A trama acompanha uma jovem que luta para que seu time feminino participe de um campeonato masculino, abordando desafios enfrentados por atletas. Clarice também participa de projetos internacionais, destacando-se na série brasileira "Impuros".

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    A atriz Clarice Alves mira um novo território cinematográfico ao apostar no futebol feminino como eixo narrativo de seu próximo longa de ficção, "Virando o Jogo". O projeto nasce de uma parceria com o ex-jogador e empresário Marcelo Vieira e com a diretora Tatiana Fragoso, formando um trio criativo que pretende levar às telas uma história de persistência, identidade e disputa por espaço. A produção desperta curiosidade ao combinar esporte e debate social em uma mesma engrenagem narrativa.

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  • Produzido pela Camisa Listrada, em coprodução com a Group Doze e a Aura Films, o longa propõe deslocar o olhar tradicionalmente associado ao futebol. Em vez dos estádios lotados e dos heróis consagrados, a câmera acompanha meninas que transformam campos improvisados em trincheiras simbólicas. A escolha temática reflete um movimento crescente no audiovisual brasileiro, que passa a enxergar o esporte não apenas como espetáculo, mas como arena de tensões culturais e sociais.

    Paralelamente, Clarice também atravessa uma fase internacional robusta, integrando produções como "Todo Lo Que Nunca Fuimos", adaptação da obra de Alice Kellen pela Warner Bros, além de "Sigma", de Daniel Benmayor, e "Tras los Pasos de la Rubia Platino". No Brasil, tem participação confirmada na sexta temporada de "Impuros", consolidando uma trajetória que transita entre gêneros, idiomas e mercados.

    Em entrevista à Ela, Clarice fala sobre o projeto, reflete sobre os desafios do futebol feminino e o impacto que espera provocar com a história. Confira:

    Você está desenvolvendo "Virando o Jogo", que coloca o futebol feminino no centro da narrativa. Quando você pensa em "virar o jogo", qual é o jogo mesmo: o do esporte, o da cultura, ou o da forma como a gente aprende a olhar para mulheres competindo?

    Eu acho que hoje é hora de a gente virar o jogo em relação ao apoio às mulheres, sabe? Lutar cada vez mais para que elas tenham mais oportunidade e mais visibilidade. Existem talentos incríveis que eu acompanho e que tenho visto crescer cada vez mais. Elas estão abrindo muitas portas, tanto no exterior quanto aqui. A gente vê o esporte feminino ganhando mais espaço agora, mas eu sinto que isso é só o início.

    Virar o jogo, para mim, é justamente isso: criar caminhos para que cada vez mais mulheres avancem, escancarem portas mesmo. Que tenham mais oportunidades, mais visibilidade, mais poder. Poder ser, poder ocupar, poder decidir. Não é só sobre ter os mesmos direitos, mas ter as mesmas possibilidades, os mesmos patrocínios, a mesma estrutura. É sobre equidade de verdade.

    Acho que é acompanhar o nosso tempo e seguir avançando. E eu quero poder aportar o meu grãozinho de areia nesse tema que me motiva tanto. Vejo como uma mistura de tudo: esporte, cultura, comportamento. É sobre a forma como a gente enxerga as mulheres competindo, sobre aceitar, apoiar, motivar, dar suporte.

    A cultura vai abrindo espaço, o esporte vai ficando cada vez mais potente, os eventos vão se tornando maiores, mais televisionados, mais globais, e a gente vai vendo as mulheres ocupando esse lugar como protagonistas. Para mim, virar o jogo é isso: continuar fortalecendo esse movimento para que ele seja cada vez maior, mais justo e mais impossível de ignorar.

    O que dizer para quem afirma que o menor investimento no futebol feminino se deve a menor interesse do público?

    Quando alguém afirma que o menor investimento no futebol feminino se deve a um menor interesse do público, eu costumo lembrar que uma coisa alimenta a outra. Interesse também se desenvolve. Investimento traz estrutura, que permite formar times mais fortes, campeonatos mais técnicos e jogos mais competitivos. Isso gera audiência, engajamento e visibilidade. Não dá para tratar o 'menor interesse' como se fosse um dado permanente, é preciso criar um ponto de partida. Caso contrário, entramos num ciclo vicioso em que a falta de investimento limita o crescimento e acaba perpetuando a desigualdade.

    Muita história do futebol feminino foi apagada, minimizada ou tratada como nota de rodapé. Que recorte do projeto te interessa mais: resgatar memória, denunciar barreiras atuais, ou criar um imaginário novo (onde a atleta não precise ser 'exceção' para ser protagonista)?

    Eu acho que o filme é um combo de tudo isso, sabe? A gente tentou reunir aquilo que considera mais importante. É um filme pensado para um público muito diverso. Nossa intenção é que a família sente no sofá para assistir junto e que a gente consiga alcançar todas as gerações.

    A gente montou um time muito bacana de personalidades, atores e equipe técnica. Toda a equipe criativa tem pensado muito nisso. Queremos que crianças e jovens de hoje tenham referências como Sissi e Kátia Cilene, por exemplo, que foram figuras incríveis, precursoras na luta pelo futebol feminino e nas conquistas dessas mulheres, numa época em que não existiam redes sociais, nem a visibilidade que existe hoje.

    Acho que a gente tem o dever de honrar essas mulheres que abriram portas lá atrás. Por isso, a Ceci está no projeto com a gente, fazemos questão de misturar gerações. É importante que o público jovem que assistir ao filme conheça essas mulheres que foram fundamentais para que, hoje, as meninas tenham mais espaço e para que o futebol feminino tenha avançado.

    A Milene Domingues, que é uma grande amiga, também está no projeto, assim como personagens atuais como a Cristiane e outras personalidades mais conhecidas do grande público. A gente acha essencial resgatar essa memória e dar o reconhecimento que essas atletas merecem por tudo o que lutaram para que o futebol feminino seguisse firme e forte até aqui.

    Ao mesmo tempo, o filme também denuncia as barreiras que ainda existem. Ainda há um mar de diferença entre o feminino e o masculino, e a gente continua nessa luta. Acreditamos que este é um momento decisivo para romper ainda mais barreiras, com a união e com a visibilidade que teremos na Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027, além do crescimento que já estamos vendo no futebol feminino.

    Queremos romper barreiras atuais e inspirar essa nova geração que está chegando. Que essas meninas vejam o nosso filme, vejam essa união de mulheres de diferentes idades, se reconheçam, se inspirem e continuem lutando por igualdade, dando o máximo, acreditando.

    No fim, é isso: um combo para unir passado e presente e lutar por um futuro melhor, com mais igualdade.

    No futebol, a vitória quase sempre aparece no placar. Mas, na vida real, "ganhar" pode significar sobreviver, permanecer e abrir caminho. Em "Virando o Jogo", qual transformação você quer que o público sinta no corpo: indignação, admiração, esperança, vontade de agir…?

    Eu acho que 'Virando o Jogo' é realmente um filme de esperança, de inspiração e de motivação para os jovens, para as mulheres, para as meninas que estão chegando agora. Mas também é um filme para a juventude como um todo. É importante que os meninos também vejam essa luta, entendam esse processo e percebam as possibilidades que precisam estar disponíveis para todos.

    Eu espero que a nova geração quando assistir ao nosso filme, saia com vontade de lutar, com vontade de correr atrás e alcançar os seus sonhos. Eu diria que ele é uma história universal sobre acreditar no seu sonho e lutar para conquistá-lo.

    Essa é a grande mensagem do filme: mesmo reconhecendo que existem obstáculos, contextos de privilégio e de desvantagem que impactam cada trajetória, não perder de vista que, independentemente de sexo, gênero, idade ou das dificuldades impostas, ainda é possível sonhar e transformar esse sonho em movimento.

    Para o público, a proposta é provocar, inspirar, reacender a confiança na própria potência.

    E há também um chamado ao mercado. A visibilidade, o engajamento e o interesse costumam vir com a vitória, mas eles começam muito antes dela. Existe um percurso que precisa de investimento, suporte e confiança. Participar desse processo desde o início é muito mais significativo do que apenas se associar ao sucesso quando ele já está garantido.

    Você transita entre projetos com tons bem diferentes, como a série "Impuros", mergulhada em um submundo áspero, e agora um filme com pulsação social e esportiva. O que mais te desafia nessas mudanças de atmosfera e o que permanece constante no seu processo criativo?

    Acho que o mais desafiador e também o mais bonito da profissão é justamente poder transitar entre universos tão diferentes. Cada projeto tem uma atmosfera, um ritmo e uma energia próprios, e o meu trabalho é acreditar e entrar naquela realidade que está sendo proposta, criada.

    Em 'Virando o Jogo', por exemplo, existe uma energia mais leve e inspiradora, ligada ao universo do esporte e do futebol, que é algo que eu conheço bem. Já em Impuros estamos em um ambiente muito mais denso, no Rio dos anos 90, um contexto que também reconheço.

    O que permanece constante no meu processo é essa disponibilidade: curiosidade, presença e entrega. Eu busco observar, absorver a atmosfera daquele universo e deixar que aquilo me afete, me atravesse. Levo a minha bagagem comigo e, de alguma forma, sempre encontro alguma similaridade, algo que reconheço e que me ajuda a mergulhar de verdade naquele mundo. Mas também me abro para o que cada projeto traz.

    No fundo, é essa abertura para se adaptar e transitar por realidades diferentes que mais me encanta na profissão.