Misoginia digital cresce com ‘trend’ que simula ataque a mulheres e avanço de canais machistas
tecnologia

Misoginia digital cresce com ‘trend’ que simula ataque a mulheres e avanço de canais machistas

Caso mobiliza autoridades de variadas instâncias, com investigações abertas pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF)

  • Facebook
  • Twitter
  • BlueSky
  • Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você

    GERADO EM: 10/03/2026 - 22:41

    Cresce misoginia digital: PF e MPF investigam violência online contra mulheres

    CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO

    • 'Quando ela diz não': MPF vai investigar trend de vídeos misóginos nas redes sociais
    • Com plenário esvaziado: Câmara aprova pacote da pauta feminina que prevê tornozeleira para agressores e campanha permanente contra violência

  • 'Quando ela diz não': MPF vai investigar trend de vídeos misóginos nas redes sociais
  • Com plenário esvaziado: Câmara aprova pacote da pauta feminina que prevê tornozeleira para agressores e campanha permanente contra violência
  • Esses influenciadores pregam o controle sobre mulheres, deslegitimam o feminismo e reforçam estereótipos de gênero, enquanto ganham dinheiro com transmissões ao vivo, venda de cursos, livros, assinaturas e publicidades. No universo acompanhado pelo laboratório, 20 canais mudaram de nome desde então, alguns deles abandonando referências diretas à “machosfera”, mas nem por isso alterando o teor das publicações.

    Professora da Escola de Comunicação da UFRJ e diretora do NetLab, Marie Santini afirma ser “preciso proibir que a misoginia se torne um negócio” nas redes sociais:

    — Embora a misoginia não seja ainda considerada um crime de ódio no Brasil, ela frequentemente estimula outros tipos de crime, como violência doméstica e feminicídio. Porém, as plataformas têm sido completamente negligentes em relação aos discursos de ódio e de desinformação. Não só continuam permitindo que circulem, como seguem monetizando em cima desse tipo de conteúdo tóxico.

    Cerca de 80% das contas analisadas adotam pelo menos uma forma de monetização, e as lives tendem a ser mais rentáveis. O estudo indica que, em 257 transmissões ao vivo de oito canais, foram arrecadados mais de R$ 68 mil — um valor médio de R$ 267 por live. No caso da venda de e-books anunciados, os preços ofertados variam entre R$ 17,90 e R$ 397. Além disso, há cursos comercializados por até R$ 2 mil, e consultorias individuais com os influenciadores por valores que chegam a R$ 1 mil.

    ‘Caso ela diga não’

    ‘Caso ela diga não’

    Nas últimas semanas, em um movimento que se iniciou no exterior, ganhou força nas redes sociais, sobretudo no TikTok, uma “trend” — espécie de conteúdo temático viralizado — em que homens revelam o que fariam se as mulheres com quem se relacionam recusassem um pedido de namoro ou casamento. Unidos sob o termo “treinando caso ela diga não”, os perfis exibem chutes, socos, facas e até armas de fogo, alguns diante de manequins, em alusões claras à violência de gênero.

    No domingo, Dia Internacional da Mulher, a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu à PF a abertura de um inquérito para investigar os responsáveis pelos vídeos que simulam as agressões físicas. Segundo o órgão, parte das publicações já havia sido removida àquela altura. O documento enviado à PF é assinado pelo procurador nacional de Defesa da Democracia, Raphael Ramos, e identifica ao menos quatro perfis responsáveis pelas postagens.

    — A vítima, nesse contexto, é a coletividade feminina, atingida em sua condição de sujeito de direitos fundamentais, sobretudo quando o conteúdo divulgado assume a forma de incitação à prática de crimes ou de apologia de fatos criminosos, enquadráveis, em tese, como crimes contra a paz pública — argumenta o procurador, frisando que a circulação sistemática de conteúdos misóginos nas redes representa uma ameaça concreta aos direitos das mulheres.

    Professora da FGV Direito Rio, Yasmin Curzi concorda que essas publicações podem ser enquadradas como incitação pública a crime. A advogada ressalta que a circulação sistemática nas redes de conteúdo misógino pode ser entendida juridicamente como uma forma de violência psicológica a mulheres que entram em contato com esse material.

    — Não estamos falando de entretenimento, mas sim da normalização do assassinato como resposta à autonomia feminina — defende Curzi. — É imprescindível o avanço da discussão sobre tipificação de discurso de ódio de gênero.

    Investigação da PF

    Investigação da PF

    Ao GLOBO, a PF informou que instaurou procedimento investigativo para apurar a divulgação de conteúdos que incitavam violência contra mulheres em perfis de redes sociais. De acordo com a corporação, a apuração teve início após o recebimento de denúncia sobre publicações associadas a uma tendência que incentivaria esse tipo de prática.

    “No curso das diligências, a Polícia Federal solicitou à plataforma a preservação dos dados e a retirada do material. Durante a análise, também foram identificados outros vídeos vinculados à mesma tendência, que foram igualmente reportados e removidos. As informações reunidas serão analisadas para a adoção das medidas cabíveis”, destacou a PF.

    Na terça-feira, o MPF informou que também abriu uma apuração própria. Além disso, como mostrou o blog de Andréia Sadi, no portal g1, o Ministério da Justiça notificou o TikTok acerca do tema. Na avaliação da pasta, a obrigação da plataforma não se limita à remoção de conteúdos específicos solicitada pela PF, mas promover a exclusão imediata, independentemente de pedido.

    Ao blog, o TikTok sustentou que iniciou a remoção dos vídeos ainda no fim de semana. Segundo a empresa, quando a PF apresentou a lista de conteúdos investigados, grande parte do material já havia sido retirada do ar por descumprir diretrizes da comunidade. Os links restantes foram derrubados no mesmo dia. “Nosso time de moderação segue atento e trabalhando para identificar possíveis conteúdos violativos”, pontuou a plataforma.