Mychael Lourenço estuda pessoas resistentes ao Alzheimer para descobrir caminhos de prevenção e tratamento da doença
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GERADO EM: 10/03/2026 - 13:11
Neurocientista Brasileiro Estuda Resistência ao Alzheimer em Idosos
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Em 2023, a Nature Medicine, uma das publicações científicas internacionais mais prestigiosas, escolheu o neurocientista carioca Mychael Lourenço como um dos 11 jovens cientistas mais promissores do mundo. Acertou em cheio, aos 36 anos, Lourenço acaba de ganhar mais um reconhecimento: o ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research 2026, anunciado nesta quarta-feira e que homenageia estudos que transformam a compreensão sobre a doença de Alzheimer.
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A carta de premiação destaca que Lourenço criou um programa de pesquisa “distinto e internacionalmente reconhecido”, que ajuda a entender por que a memória e o raciocínio pioram na doença de Alzheimer e como problemas no metabolismo e inflamações afetam as conexões entre neurônios e o equilíbrio das proteínas no cérebro. O prêmio ressalta ainda o fato de o cientista ter realizado pesquisas de alto nível de originalidade e impacto, mesmo no cenário de “financiamento desafiador do Brasil”.
A seguir, Lourenço, à frente do Laboratório de Neurociência Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica por que compreender por que alguns nonagenários, a exemplo de Fernanda Montenegro e Toni Tornado, se mantêm com mente brilhante e a memória afiada enquanto gente três décadas mais jovem vê a cognição declinar pode levar a um caminho para prevenir e tratar a doença de Alzheimer.
O pesquisador, que tem o apoio da iniciativa IDOR Ciência Pioneira, também traça um cenário sobre os avanços em medicamentos e testes esperados para este ano.
Qual sua atual linha de pesquisa?
Qual a diferença entre eles?
Existem pessoas resistentes. Mesmo em idade avançada, o cérebro delas não apresenta as placas de beta-amiloide e tau (nomes de proteínas formadoras de placas) características do Alzheimer. E há as pessoas resilientes, o cérebro delas desenvolvem placas, mas elas não apresentam sintomas de demência. Acreditamos que a resposta para combater o Alzheimer pode estar nas pessoas saudáveis.
E qual a sua hipótese para o cérebro jovem de gente idosa?
Eu e meu grupo trabalhamos com a hipótese de que o processo que controla a produção de novas proteínas e neurônios no cérebro está por trás disso. O cérebro de algumas pessoas continua a produzir o que precisa para funcionar corretamente, mesmo em idade avançada. Mesmo que as placas se formem, elas não chegam a afetar significativamente a memória, a cognição. Se conseguirmos compreender o que desregula esse processo, poderemos encontrar alvos para combater a doença. Por que atualmente o que se faz é usar drogas para tentar bloquear a beta-amiloide, formadora das placas, mas isso está longe de ter resultados realmente satisfatórios.
Qual o papel das placas?
O consenso hoje no mundo é que quem tem acúmulo de beta-amiloide (proteína produzida naturalmente pelo cérebro que, em pessoas com Alzheimer, se acumula e forma placas entre os neurônios. As placas atrapalham a comunicação entre as células nervosas e estão ligadas à perda de memória e dificuldades cognitivas) tem Alzheimer. Mas, sabemos que existem pessoas com placas e um quadro quase imperceptível de Alzheimer e outras que estão com demência avançada. O que faz essas pessoas sem sintomas tão resilientes a despeito das placas? O que faz as demais adoecerem? Acreditamos que responder a essas perguntas nos ajudará a intervir nesse processo e, esperamos, deter o avanço da doença.
E o que mais estão investigando nesse momento?
E o que existe hoje no mundo aprovado ou em vias de aprovação para combater a doença de Alzheimer?
Se tem avançado, ainda que lentamente. Não é por falta de esforços, mas porque se trata de uma doença altamente complexa. O primeiro medicamento só surgiu nos anos 1990, em 2003 tivemos a memantina. Em 2018, o aducanumabe, um anticorpo monoclonal, que até reduzia as placas, mas não melhorava a cognição. Não funcionava como se esperava, mas abriu portas.
Quais?
Para essa linha de pesquisa com anticorpos monoclonais. Em 2023 e 2024 surgiram o lecanemabe e o donanemabe. Eles não curam, mas atenuam a doença. Representam um avanço na redução das placas e trazem alguns benefícios para a memória. Porém, são muito caros, exigem aplicação intravenosa em clínica e não são adequados a todos os pacientes. Também parecem ser mais eficientes para pacientes diagnosticados mais cedo.
E o que podemos esperar em 2026?
Se espera a aprovação do trontinemabe. Também é um anticorpo monoclonal e parece mais promissor. Ele tem um perfil de segurança melhor, com menos efeitos colaterais, e os testes também mostraram maior efetividade, na remoção das placas e na redução dos sintomas.
E que outras linhas de pesquisa têm caminhado no mundo?
Há grupos investigando as drogas agonistas de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, contra Alzheimer. Embora uma primeira leva de estudos tenha indicado que não existem benefícios, essa possibilidade continua a ser investigada. Também há estudos sobre terapias combinadas.