Muitos iranianos se sentem impotentes diante de seu sistema arraigado, e alguns estão se tornando cada vez mais amargurados pelos intensos bombardeios americanos e israelenses
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GERADO EM: 10/03/2026 - 18:45
Crise no Irã: Repressão Interna e Ameaças Externas Intensificam Desespero
Sob a repressão do regime iraniano, a esperança de mudança se desfaz em meio aos bombardeios dos EUA e Israel. Enquanto líderes estrangeiros incentivam a revolta, o governo iraniano responde com ameaças. A população se vê entre a repressão interna e a destruição externa, com infraestrutura devastada e uma crise econômica agravada. A desconfiança na mídia e o isolamento digital aumentam a incerteza, enquanto cidadãos temem pela segurança e futuro do país.
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Quando Israel e os Estados Unidos lançaram as primeiras bombas sobre Teerã, sua cidade natal, Aryan ficou eufórico. Ele estava convencido de que estava testemunhando o fim de quase cinco décadas de uma teocracia brutal. Uma semana após o início do ataque, ele viu o céu da meia-noite iluminar-se sob um bombardeio feroz e presenciou o amanhecer escurecer enquanto uma fumaça negra e tóxica sufocava a capital iraniana e queimava sua pele.
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O choque daquelas cenas o deixou em dúvida se suas esperanças para a campanha EUA-Israel eram "apenas uma ilusão minha".
— Eles atingiram todos os lugares. A noite virou manhã, e a manhã virou noite — disse Aryan, de 33 anos, que, como todos os entrevistados pelo The New York Times, pediu para não ser identificado pelo nome completo, temendo represálias. — As pessoas estão ficando cada vez mais desanimadas, como eu.
Em todo o Irã, mais de 90 milhões de pessoas estão presas entre duas realidades terríveis. Os líderes dos EUA e de Israel, cujas bombas estão destruindo cada vez mais partes de sua infraestrutura, convocaram os iranianos a usar isso como uma oportunidade para a libertação. E seus governantes, determinados a se manter no poder, ameaçaram com mais derramamento de sangue quem ousar atender a esse chamado.
"Uma sociedade desgastada pelo autoritarismo de repente se vê no meio de um incêndio que surgiu de fora", escreveu Mohammad Maljoo, um economista renomado no Irã, nas redes sociais, acrescentando: "A guerra não abre portas para a reforma nem um horizonte de libertação".
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Para os iranianos, as cenas apocalípticas de bombardeio — locais em chamas em Teerã, mães se amontoando com crianças em banheiros que tremiam e uma escola destruída nas primeiras horas da guerra — são os episódios mais aterrorizantes em uma série de devastações que assolaram o país nos últimos nove meses.
Uma crise econômica crescente já estava exaurindo a população iraniana, que ainda se recuperava da guerra de 12 dias travada em junho passado contra Israel, à qual se juntaram brevemente aviões de guerra americanos.
Em janeiro, as forças de segurança esmagaram um movimento de protesto em todo o país com força letal, deixando milhares de mortos e um país inteiro polarizado e traumatizado pela repressão.
Quando as forças americanas e israelenses começaram a bombardear a capital em 28 de fevereiro, o presidente Donald Trump pediu aos iranianos que derrubassem seu governo, prometendo que "a liberdade está próxima".
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Uma semana após os ataques conjuntos EUA-Israel que mataram o então líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, Trump expressou seu desejo de desempenhar um papel na escolha do novo líder do país — talvez do próprio sistema autoritário contra o qual ele incitou os iranianos a se rebelarem. As autoridades responderam nomeando o filho do líder falecido, Mojtaba Khamenei, um clérigo linha-dura, como seu sucessor.
Ao mesmo tempo, autoridades de segurança iranianas foram à mídia para alertar seus oponentes. Na quinta-feira, na televisão estatal, um oficial da Guarda Revolucionária usou uma linguagem contundente, raramente empregada pelas autoridades em público, ameaçando que os manifestantes seriam vistos como agentes de Israel.
— A ordem para atirar para matar foi emitida — disse ele. — Ninguém falou diretamente com vocês sobre isso.
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Durante dias, bombardeios americanos e israelenses pulverizaram instalações militares, de inteligência e policiais iranianas em todo o país. Mesmo assim, não há indícios claros de um colapso nas forças de segurança do governo, profundamente entrincheiradas e ideologicamente motivadas.
Muitos moradores relatam ter visto grandes grupos de membros da Basij, a milícia à paisana ligada à Guarda Revolucionária, circulando pelas ruas em motocicletas e gritando slogans religiosos enquanto passavam.
Os serviços de inteligência e segurança ainda parecem estar monitorando sinais de dissidência.
Trinta pessoas foram presas no país por suposta espionagem, incluindo um cidadão estrangeiro, anunciou o Ministério da Inteligência iraniano nesta terça-feira. O estrangeiro, cuja nacionalidade não foi divulgada, "espionava para dois países do Golfo em nome do inimigo americano-sionista" e foi preso no nordeste do país.
Farzad, morador de um prédio de luxo em Teerã, disse que, nas horas seguintes ao anúncio da morte de Ali Khamenei, seus vizinhos comemoraram ruidosamente em suas varandas, gritando alegremente pelas ruas.
Dias depois, ele disse, a administração do prédio os informou que havia sido avisada pelos serviços de segurança de que seus apartamentos seriam invadidos caso ocorressem novos distúrbios.
Postos de controle proliferaram pela cidade, e os telefones de muitos iranianos foram inundados com mensagens do governo incitando-os a participar de manifestações pró-governo e a denunciar qualquer pessoa que tire fotografias.
Outras mensagens de texto contêm ameaças implícitas de violência. "Qualquer movimento que perturbe a segurança será considerado cooperação direta com o inimigo e receberá uma resposta firme de seus filhos na Organização de Inteligência da Guarda Revolucionária Islâmica", dizia uma mensagem de texto compartilhada com o NYT, referindo-se ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica.
Em meio a esses perigos, a maioria dos iranianos comuns está isolada da internet, e vários moradores entrevistados disseram ser enlouquecedor não ter praticamente nenhuma maneira de entender o que estava acontecendo em seu próprio país.
Amir Hossein Bagheri, um engenheiro iraniano, escreveu em sua página no Facebook que desconfiava tanto da mídia estatal quanto dos veículos de imprensa estrangeiros, afirmando que estes raramente abordavam o quão mortal e aterrorizante a guerra tem sido para os civis iranianos. "Nenhum deles é confiável", escreveu ele.
Os ataques recentes — e as respostas oferecidas por autoridades militares americanas — parecem ter apenas aprofundado a desconfiança.
Nos últimos dois dias, ataques explodiram instalações de armazenamento de combustível, lançando fumaça oleosa e chuva negra sobre Teerã. Os ataques também destruíram uma usina de dessalinização, enquanto o Irã enfrenta uma iminente crise hídrica.
Um comunicado do Comando Central dos EUA divulgado no domingo instou os moradores a permanecerem em casa para sua segurança, ao mesmo tempo em que acusou as forças iranianas de usarem áreas civis para proteger operações militares e indicou que atacaria essas áreas.
Alguns iranianos ainda expressam a esperança de que a guerra possa eventualmente levar ao fim da República Islâmica — particularmente em áreas como a região marginalizada do Curdistão iraniano, onde os curdos étnicos sofrem há muito tempo forte discriminação e onde alguns grupos militantes expressaram ambições de iniciar uma insurgência.
Omid, de 28 anos, artista na região curda, disse que ele e seus vizinhos ainda ficavam "discretamente contentes" quando alvos do governo eram atingidos, contanto que civis não fossem feridos.
— A liberdade tem um preço — disse ele. — E é um preço que precisa ser pago.
Mas Peyman, um empreendedor digital em Teerã, teme que o preço tenha subido demais.
Assim como muitos iranianos entrevistados, ele disse que passava os dias em casa, sem poder trabalhar, observando a destruição com crescente medo e inquietação.
Ele se perguntava como os moradores locais poderiam prevenir até mesmo pequenos delitos com delegacias de polícia bombardeadas — quanto mais como qualquer governo poderia retomar a administração do país depois de tanta destruição.
— Precisamos de polícia. Precisamos de serviços de inteligência. Precisamos de universidades militares — disse ele. — Se quisermos viver no Irã no futuro, independentemente do governo que tivermos, ainda precisaremos de instituições.
Quando a guerra começou, Peyman imaginou uma colaboração indireta entre os militares dos EUA e de Israel e os manifestantes iranianos no terreno, prevendo uma parceria instável semelhante à da luta entre Moscou e Washington contra a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial.
— A situação hoje não é essa — disse ele. — Os Estados Unidos e Israel não estão, de fato, cooperando conosco. O Irã está gradualmente se transformando em ruínas.