Cartazes denunciavam machismo e misoginia durante protesto em Campinas — Foto: Arquivo pessoal
O sofrimento masculino é um dos fatores que dão tração à “machosfera”, mas não pode servir de justificativa para a misoginia. É o que defende Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil.
“O problema é que [a rede] promete uma cura, mas entrega isolamento, rigidez e hostilidade”, diz.
A “machosfera” é uma rede de grupos e páginas que tratam de assuntos ligados à masculinidade e, frequentemente, têm viés misógino e violento. Nesta semana, a trend “caso ela diga não”, que incita violência contra mulheres, gerou grande mobilização e virou alvo de investigação da Polícia Federal.
Polícia Federal investiga vídeos em redes sociais que incitam violência contra mulheres
Em entrevista à Júlia Zaremba, Camila Bomfim e Malu Gaspar, Palayret defendeu que sejam criados espaços para que meninos possam compartilhar inseguranças sem virar alvo de discursos de ódio.
“Quando a gente melhora a vida dos meninos e dos homens, também melhora a segurança e a liberdade das mulheres, é um ganho coletivo.”
Palayret é advogada e francesa e assumiu o comando da ONU Mulheres, entidade das Nações Unidas para a igualdade de gênero e o empoderamento de mulheres, no Brasil em janeiro deste ano.
Para ela, é preciso existir uma cooperação entre governo, empresas e sociedade civil para conter o avanço de conteúdos violentos contra mulheres nas redes.
No entanto, Palayret afirma que é difícil conseguir regular perfis e comunidades que promovem vídeos do tipo, citando como desafios a facilidade de criação de novas páginas quando alguma é derrubada e os interesses financeiros das big techs.
“Este tipo de conteúdo mais violento, extremo, elas sabem que atrai muitas pessoas, e muitos jovens, desafortunadamente”, diz.
O fortalecimento de marcos contra a violência digital, a cobrança por transparência das plataformas e a educação digital de jovens, para que reconheçam discursos de ódio e manipulação, estão entre outras medidas que a advogada aponta para reduzir a misoginia em ambiente digital.
O instrumento jurídico internacional foi lançado em dezembro de 2025 pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e orienta países das Américas a criarem leis específicas contra crimes virtuais.
O Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025. Ao todo, 1.470 mulheres foram mortas por esse tipo de crime no país ao longo do ano, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.