Pressão de Netanyahu, cálculo de risco e golpe de inteligência: Como foi o caminho de Trump até a decisão de atacar o Irã
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Pressão de Netanyahu, cálculo de risco e golpe de inteligência: Como foi o caminho de Trump até a decisão de atacar o Irã

Defesa da ação militar no Irã por parte do presidente Trump foi motivada por um líder israelense determinado a encerrar as negociações diplomáticas

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    GERADO EM: 03/03/2026 - 17:40

    Pressões de Netanyahu influenciam ataque dos EUA ao Irã

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    O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, entrou no Salão Oval na manhã de 11 de fevereiro, determinado a manter o presidente americano, Donald Trump, no caminho da guerra. Durante semanas, os Estados Unidos e Israel discutiram secretamente uma ofensiva militar contra o Irã. Mas autoridades do governo Trump haviam começado recentemente a negociar com os iranianos sobre o futuro de seu programa nuclear, e o líder israelense queria garantir que o novo esforço diplomático não prejudicasse os planos. Duas semanas depois, o presidente levou o país à guerra.

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  • Trump autorizou um vasto bombardeio militar em conjunto com Israel, que rapidamente matou o líder supremo do país, Ali Khamenei, devastou prédios civis e instalações nucleares iranianas, mergulhou o país no caos e desencadeou violência em toda a região, resultando, até o momento, na morte de seis soldados americanos e dezenas de civis iranianos.

    A reconstrução da decisão de Trump de lançar um ataque prolongado contra o Irã se apoia em relatos de pessoas com conhecimento direto das deliberações e de diferentes lados do debate. Quase todos falaram sob anonimato.

    Preparativos

    Preparativos

    Durante uma reunião na propriedade de Trump em Mar-a-Lago, na Flórida, em dezembro, Netanyahu pediu a aprovação do presidente para que Israel atacasse os locais de mísseis do Irã nos meses seguintes. Dois meses depois, ele conseguiu algo ainda melhor: um parceiro integral em uma guerra para derrubar a liderança iraniana.

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  • A Casa Branca insistiu que suas negociações diplomáticas com o Irã não eram mera encenação, mas ao longo do último mês ficou evidente que não havia margem para um acordo capaz de satisfazer simultaneamente Trump, Netanyahu e os líderes iranianos — nem de adiar o conflito. Embora não tenham produzido resultados diplomáticos, as conversas serviram a Trump como estratégia para ganhar tempo e reforçar a presença militar dos EUA no Oriente Médio.

    Em meados de janeiro, quando Trump ameaçou pela primeira vez atacar o Irã em apoio aos protestos antigovernamentais que assolavam o país, o Pentágono não estava em condições de travar uma guerra prolongada no Oriente Médio. Não havia porta-aviões na região. Esquadrões de caças estavam estacionados na Europa e nos EUA. E as bases espalhadas pelo Oriente Médio, que abrigam cerca de 40 mil soldados americanos, possuíam defesas aéreas insuficientes para protegê-los de uma esperada retaliação iraniana.

    Israel também não estava preparado. Precisava de mais tempo para reforçar seu arsenal de interceptores de mísseis e para implantar baterias de defesa aérea em todo o país.

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  • No final de janeiro, os protestos no Irã haviam sido brutalmente reprimidos, mas o planejamento continuava a todo vapor. Em fevereiro, o Pentágono havia mobilizado uma força capaz de sustentar uma campanha militar de várias semanas.

    Nessa altura, Steve Witkoff, o principal negociador da Casa Branca com o Irã, e Jared Kushner, genro do presidente, mantinham conversações indiretas com os iranianos, sob ordens de Trump. Mas a administração estava cautelosa.

    Avaliando as opções

    Avaliando as opções

    Em 18 de fevereiro, o vice-presidente JD Vance; o secretário de Estado Marco Rubio; John Ratcliffe, diretor da CIA; e Susie Wiles, chefe de Gabinete da Casa Branca, reuniram-se com Trump na Sala de Situação para discutir o planejamento militar.

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  • Na reunião, o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, discutiu uma série de opções, entre elas a possibilidade de as forças americanas realizarem um ataque menor como forma de pressionar o Irã, ou uma campanha mais ampla com o objetivo de derrubar o governo. A última, disse ele, acarretava alto risco de baixas americanas, de desestabilizar a região e reduzir significativamente os estoques de munição dos EUA.

    Caine sublinhou que todas as opções seriam muito mais difíceis do que a captura bem-sucedida de Nicolás Maduro, na Venezuela. Vance, que parecia se opor pessoalmente a ataques militares, argumentou que um ataque limitado seria um erro. Se os EUA fossem atacar o Irã, disse ele, deveriam "atacar com força e rapidez".

    Antes da reunião, Trump parecia estar inclinado a uma estratégia de um ataque inicial menor, mas os argumentos de Vance pareceram encontrar eco. E, nos dias seguintes, mais autoridades se mostraram receptivas à ideia.

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  • A CIA traçou uma série de cenários para o caso de Khamenei ser morto em uma ofensiva. Um previa sua substituição por um clérigo linha-dura — talvez ainda mais disposto a buscar uma arma nuclear. Outro considerava a hipótese de uma revolta contra o regime, embora integrantes da inteligência avaliassem essa possibilidade como remota, diante da fragilidade da oposição.

    Havia um terceiro cenário: o de que uma ala mais pragmática da Guarda Revolucionária do Irã assumiria o controle após uma eventual mudança no comando. Ainda que um clérigo permanecesse formalmente como líder, na prática o poder ficaria concentrado nesse grupo da Guarda, que governaria o país de fato.

    A análise da CIA indicou que, se os EUA não atingissem os interesses econômicos dessa facção — como sua influência no setor petrolífero —, parte dos oficiais poderia adotar postura conciliadora, inclusive abandonar o programa nuclear ou conter ataques de forças aliadas contra os EUA.

    Última rodada de diplomacia

    Última rodada de diplomacia

    A Casa Branca ignorou as exigências de alguns legisladores para que Trump obtivesse o consentimento do Congresso para lançar uma campanha contra o Irã. Em 24 de fevereiro, antes do discurso anual de Trump sobre o Estado da União, os líderes do Congresso reuniram-se para conversar por videoconferência com Rubio e Ratcliffe.

    Rubio e Ratcliffe detalharam as informações de inteligência que embasavam os ataques, o possível momento da ofensiva e uma eventual "saída", caso o Irã aceitasse as exigências dos EUA. Rubio, porém, não mencionou plano de mudança de regime. Na reunião, argumentou que, independentemente de quem atacasse primeiro, o Irã retaliaria com uma forte ofensiva. Assim, sustentou que os EUA deveriam agir ao lado de Israel, já que seriam envolvidos no conflito de qualquer forma.

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  • A lógica não agradou a alguns democratas, que achavam que o governo Trump estava deixando Netanyahu ditar a política dos EUA.

    Dois dias depois, Witkoff e Kushner viajaram para Genebra para negociar mais uma vez com Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã. Os iranianos apresentaram aos americanos um plano com níveis propostos de enriquecimento nuclear futuro, que alarmaram Witkoff e Kushner.

    Os EUA insistiam que o Irã aceitasse enriquecimento zero e ofereceram fornecer combustível nuclear gratuito para um programa civil, proposta rejeitada por Teerã. Aoo fim das negociações, Witkoff e Kushner disseram a Trump que não viam mais possibilidade de acordo.

    Golpe de inteligência

    Golpe de inteligência

    Na prática, EUA e Israel já discutiam um possível ataque na quarta-feira passada, um dia antes das negociações em Genebra. O plano foi então postergado para sexta-feira, para atingir Teerã sob a cobertura da noite. O momento final acabou sendo definido por uma operação de inteligência considerada decisiva.

    A CIA, que monitorava de perto os movimentos de Khamenei, descobriu que ele planejava estar em seu complexo residencial no centro de Teerã na manhã de sábado. Altos líderes civis e militares iranianos também estariam lá. As informações foram repassadas aos israelenses, e os líderes de ambos os países decidiram iniciar a guerra com um ousado ataque de "decapitação" à luz do dia.

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  • Apesar dos sinais, autoridades iranianas consideravam improvável um ataque durante o dia. Era sábado de manhã, início da semana de trabalho no Irã, com crianças na escola e pessoas a caminho do trabalho. Integrantes do Conselho Supremo de Segurança Nacional não viram necessidade de se reunir em bunkers ou locais secretos.

    Segundo as autoridades, Khamenei confidenciou a um círculo próximo que, em caso de guerra, preferia permanecer no local e tornar-se um mártir a ser julgado pela História como um líder que se escondeu. Ele estava em seu escritório em outra parte do complexo enquanto os líderes sêniores se reuniam para a reunião. Ele pediu para receber um relatório assim que ela terminasse.

    Os mísseis atingiram o alvo logo após o início do ataque.

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