Opinião | Desastres econômicos
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Opinião | Desastres econômicos

A conscientização da sociedade brasileira sobre o alcance e abrangência do cataclismo climático ainda não corresponde à crescente gravidade do quadro. Alertas científicos não sensibilizam as mentes afeiçoadas ao capitalismo selvagem, que só enxergam o lucro imediato e não querem tomar conhecimento de suas responsabilidades quanto a um amanhã que já chegou.

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A única linguagem que essa elite cega talvez entenda seja a do cifrão. Portanto, vale enfatizar que as temperaturas cada vez mais elevadas, as chuvas cada vez mais escassas, vão se refletir no bolso dos abonados.

Os dois componentes da crise produzem o fenômeno da seca. Não é novo para o Brasil, que teve seguidos episódios no Nordeste, devastado por uma colonização extrativista e cruel para com a natureza.

Mas agora, é bom que se saiba que em 2025, os desastres climáticos causaram prejuízos de US$ 5,4 bilhões, ou cerca de R$ 28,4 bilhões. É o que consta de um relatório elaborado pela Aon, corretora e consultora de riscos do Reino Unido. Entidade séria, portanto, que trabalha com evidências.

O ano de 2024 foi pior ainda, pois as perdas chegaram a US$ 12 bilhões e R$ 62,8 bilhões e a maior causa foi as secas. Prejuízos enormes com as inundações. E tudo ainda patina em dificuldades para obtenção de dados precisos sobre essas ocorrências. Há limitações das redes de medição e a subnotificação em áreas menos urbanizadas é a regra.

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Apesar disso, os dados colhidos junto ao governo, seguradoras, resseguradoras, órgãos de defesa civil e modelagens de risco catastrófico serviram para evidenciar que a situação é grave. Nada indica perspectiva mais favorável em relação ao clima. Ao contrário, continua o desmatamento, a emissão de gases venenosos produtores do efeito-estufa.

Quarenta e nove grandes eventos extremos causaram prejuízos de bilhões de dólares. As seguradoras também registraram sensível aumento dos desastres cujos danos são cobertos por seguros. Daí a preocupação do setor para a adoção de uma estrutura mais consistente.

Os prejuízos globais chegaram a US$ 260 bilhões, ou R$ 1,3 trilhão em 2025. Será que isso não serve de aviso para governos, empresas, Academia e Terceiro Setor, no sentido de providências mais drásticas e permanentes para reduzir os prejuízos?

A resposta para as altas temperaturas e para o desequilíbrio do regime pluviométrico está na melhor tecnologia de correção do clima: o plantio de árvores. Mas a escala precisa ser estimulada, para que essa amiga da vida, responsável por serviços ecossistêmicos gratuitos, seja a preocupação de toda a sociedade, não apenas de escassos setores e de parcela da Administração Pública.

Tudo resta afetado pelo que chamávamos “mudanças climáticas”, passamos a denominar “emergências climáticas” e hoje só conseguimos rotular como “cataclismo climático”, tamanha a dimensão e intensidade com que se apresentam em todo o planeta.

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Aqueles que estão acostumados com os esportes de inverno precisam prestar atenção no fato de que as mudanças climáticas inviabilizarão mais da metade das sedes de Jogos de Inverno. Na virada do século, havia pelo menos 93 locações e, destas, apenas 52 restam, algumas correndo o risco de idêntica impossibilidade de uso.

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É o que ocorre com Cortina D’Ampezzo, que em 1956 registrava 24 graus negativos e, este ano, teve só 4 graus negativos e neve somente nos últimos dias.

O COI – Comitê Olímpico Internacional publicou um estudo para advertir que serão menos de vinte países os capazes de receber os jogos a partir de agora. Os esportes praticados sobre neve e gelo dependem muito mais do clima do que os esportes de verão. Boa parte dos esportes de inverno só pode ocorrer em montanhas. E é notório que há cada vez menos lugares propícios. É impensável dotar todos os espaços antigamente próprios, pela própria natureza, de equipamentos sofisticados e dispendiosos para produzir neve.

A preservação dos jogos de inverno depende de algo que já se mostrou impossível: o cumprimento do Acordo de Paris. Quando a maior democracia do ocidente se retira do compromisso, assim como deixa outras sessenta entidades multilaterais, o prenúncio de catástrofe é muito tangível.

Essa indústria esportiva que fatura milhões deve se preocupar em conscientizar os gigantes dos conglomerados empresariais, que hoje detêm a verdadeira soberania – que é a econômica – e que podem compelir governos a cumprirem as obrigações assumidas. Afinal, o esporte, o entretenimento, os grandes eventos, sustentam gigantesca máquina financeira e a sua inviabilidade causará prejuízos ainda maiores do que aqueles causados pelas intempéries resultantes da insensatez humana ao longo dos séculos.

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Se a humanidade tivesse juízo, talvez houvesse esperança para o clima. Porém, está comprovado que ela não tem.