Lipedema: quais tratamentos realmente funcionam e quais não têm evidências?
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Lipedema: quais tratamentos realmente funcionam e quais não têm evidências?

Crédito: TV Estadão

Um dos temas “quentes” na área da saúde é o lipedema—pelo menos nas redes sociais, onde é comum encontrarmos vídeos de mulheres mostrando as pernas, geralmente com foco no tamanho ou na presença de celulite. O quadro é caracterizado pelo acúmulo simétrico (em ambos os lados) de tecido adiposo na parte inferior do corpo, principalmente nádegas, quadris e pernas, mas também pode afetar os membros superiores, poupando tronco, mãos e pés.

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Acontece que, apesar de o lipedema ter sido descrito pela primeira vez em 1940, ainda são poucos os estudos que conseguem definir formas precisas de identificá-lo e tratá-lo. Por isso, há muitas mulheres sendo diagnosticadas sem ter a condição, muitas vezes por profissionais de saúde que também vendem protocolos sem base científica.

A cirurgiã vascular Inez Ohashi Torres Ayres, vice-secretária da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), afirma que não há um protocolo consolidado para tratamento do lipedema. “Por enquanto, existem poucos trabalhos randomizados, e há vieses (nesses estudos), como número pequeno de participantes. Então não é possível concluir qual o melhor tratamento”, explica. “Provavelmente, teremos evidências melhores nos próximos anos.”

Como uma doença que não tem cura, todas as intervenções terapêuticas visam aliviar os sintomas e prevenir ou retardar sua progressão. No momento, não há nenhum medicamento aprovado para o tratamento do quadro.

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Os médicos consultados pelo Estadão criticam protocolos que envolvem, por exemplo, o uso de radiofrequência, ultrassom, laserterapia, ledterapia,ozonioterapiae plataformas vibratórias. Esses são alguns exemplos de métodos que ainda não têm comprovação científica de que sejam capazes de melhorar os sintomas do lipedema.

Os tratamentos que, de fato, possuem respaldo não são tão “atraentes”. Afinal, não tem nada de milagroso na abordagem “conservadora” contra a doença, que consiste em alimentaçãobalanceada aliada à prática regular de exercício físico, além de fisioterapia específica para o quadro. Essas são as intervenções que realmente trazem melhoras relacionadas ao aspecto do lipedema, aos sintomas (como as dores) e à qualidade de vida dos pacientes, dizem os médicos.

Para quem apresenta um grau mais grave da condição, aintervenção cirúrgicatambém pode ser indicada. “Mas vemos casos leves indo para procedimentos que podem ser perigosos“, alerta o endocrinologista Bruno Halpern, vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).

A ideia de que o lipedema é uma gordura que não responde ao emagrecimento é um mito bastante difundido. “Não é que não responde, mas tem uma resposta um pouco pior em relação ao tecido adiposo não-lipedema”, explica o endocrinologista Roberto Zagury, membro do Departamento de Lipedema da Abeso.

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Mesmo o lipedema não sendo sinônimo de obesidade, são condições que frequentemente coexistem e, em pessoas obesas, o lipedema tende a apresentar sintomas mais graves, já que há um aumento da concentração de gordura nos membros. Além disso, a prevalência de obesidade entre mulheres com lipedema também é significativamente maior: estimativas indicam que entre 60% e 80% das pacientes têm obesidade, contra cerca de 30% na população em geral.

Por isso, na maioria dos casos, o foco principal do tratamento é manejar o sobrepeso ou a obesidade, dizem os médicos.

“É importante ressaltar que ainda não foi estabelecido um regime terapêutico universalmente aplicável para o lipedema. Diversas intervenções demonstram potencial para alívio dos sintomas, mas a qualidade das evidências é variável. A heterogeneidade dos desenhos dos estudos, das populações de pacientes e dos critérios diagnósticos dificulta a comparação direta entre as diferentes modalidades de tratamento”, afirma o Consenso da Aliança Mundial de Lipedema, ratificado por 71 especialistas de 19 países e publicado em janeiro na revista Nature Communications.

A escolha do tratamento geralmente depende das características do paciente, incluindo a gravidade da doença, comorbidades associadas e preferências pessoais.

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Dieta para lipedema?

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Parte importante do tratamento do lipedema consiste em uma alimentação saudável, mas não há estudos suficientes comprovando se determinadas dietas são mais eficazes para o lipedema, dizem os médicos. “Qualquer dieta saudável que o paciente consiga seguir no médio e longo prazo vai ser muito bem-vinda”, afirma Zagury.

Além de evitar ultraprocessados e priorizar alimentos in natura — uma recomendação feita para a população em geral —, frequentemente é necessário montar uma dieta com o objetivo de alcançar um déficit calórico. Isso significa que a pessoa deve consumir menos calorias do que ela gasta, com a finalidade de emagrecer.

Exercício físico: precisa ser de baixo impacto?

O mesmo princípio da dieta vale para os exercícios físicos: qualquer atividade é benéfica, já que se exercitar reduz a inflamação do corpo. Independentemente de ter ou não lipedema, o ideal é associar treinos de força e resistência (como musculação, crossfit, funcional e pilates) com os aeróbicos (a exemplo de caminhada, corrida, natação, ciclismo e dança).

Para pacientes com dores e que se incomodam com hematomas frequentes, pode fazer sentido evitar exercícios de alto impacto, como a corrida, mas eles não são proibidos para quem tem lipedema.

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“Não vejo os exercícios de alto impactocomo uma contraindicação absoluta. É um tipo de exercício que pode produzir dor e, por isso, num primeiro momento, a tendência é ir para outros tipos de atividades. Mas se tenho um paciente que adora correr (e não tem grande desconforto), não vou falar ‘você está proibido de fazer corrida porque você tem lipedema’“, diz Zagury.

Já no caso de pacientes com nível reduzido de mobilidade ou sedentários, as atividades de baixo impacto são mais recomendadas para evitar lesões, mesmo quando não há lipedema.

Exercícios na água, como natação e hidroginástica, podem ter algum efeito positivo na redução da dor e melhora do edema e da qualidade de vida, devido à pressão hidrostática e à flutuabilidade, o que reduz o impacto e o estresse nas articulações, de acordo com o consenso de especialistas da Aliança Mundial de Lipedema.

Além das modalidades aquáticas, pilates, ioga, caminhada, musculação (com carga moderada), ciclismo e elíptico são boas opções de atividades de baixo impacto.

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    Não é qualquer fisioterapia

    A terapia descongestiva complexa também é citada pelos especialistas como importante para melhorar a circulação sanguínea e aliviar o volume, inchaço e peso das pernas, além de reduzir dores e hipersensibilidade.

    Esse é um tipo específico de fisioterapia que engloba métodos compressores (que podem ser feitos com bandagens ou meias compressoras), drenagem linfática e exercícios conhecidos como miolinfocinéticos.

    “A fisioterapia tem várias funções: amenizar a inflamação local, o controle de dor e do edema. Melhora os sintomas do paciente”, afirma o médico do departamento de Lipedema da Abeso.

    Canetas para obesidade podem ajudar?

    Não há comprovação de que algum medicamento ajude no controle do lipedema. Isso vale inclusive para a semaglutida (princípio ativo do Wegovy e do Ozempic) e a tirzepatida (Mounjaro).

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    Porém, as canetas são altamente eficazes no manejo da obesidade, que deve ser controlada para amenizar os efeitos do lipedema. Por isso, podem ser aliadas no tratamento de alguns pacientes, quando há indicação (como nos casos de obesidade, diabetes ou sobrepeso com alguma comorbidade).

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    Quando é hora de partir para a cirurgia?

    A cirurgia usada em casos graves de lipedema é a lipoaspiração, queremove o tecido adiposo subcutâneo doente e melhora os sintomas, a mobilidade e a qualidade de vida de pacientes com a condição, além de amenizar a queixa estética.

    Mas, antes de recorrer à cirurgia, o cirurgião vascular Henrique Guedes, professor e chefe do Ambulatório de Linfedemas e Anomalias Vasculares Periféricas da Unifesp, indica a fisioterapia, a mudança dos hábitos de vida (dieta e exercícios físicos) e o tratamento da obesidade, já que, como qualquer cirurgia, o procedimento envolve riscos.

    “É crucial que as opções cirúrgicas sejam consideradas cuidadosamente, com uma compreensão abrangente dos riscos e benefícios potenciais, e em conjunto com o tratamento conservador contínuo para manter os resultados e cuidar da saúde geral”, reforça o documento da Aliança Mundial de Lipedema.

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    As diretrizes brasileiras sugerem que os volumes aspirados na lipoaspiração não devem exceder 7% do peso corporal. Para alguns casos de lipedema, pode haver a necessidade de mais de uma cirurgia. O tratamento de varizes antes da cirurgia e a incorporação de fisioterapia no pós-operatório podem otimizar a segurança e a recuperação.