O câncer de mama deve continuar avançando nas próximas décadas e pode atingir mais de 3,5 milhões de novos diagnósticos anuais até 2050, segundo análise epidemiológica publicada na revista The Lancet Oncology. O levantamento reuniu dados de 204 países e territórios ao longo de mais de 30 anos para mapear tendências de incidência e mortalidade em escala global.
Em 2023, aproximadamente 2,3 milhões de mulheres foram diagnosticadas globalmente, com registro de cerca de 764 mil mortes no mesmo ano. De acordo com os pesquisadores, quase 1 em cada 4 diagnósticos de tumores em mulheres naquele período foi de mama.
A análise mostra que, entre 1990 e 2023, a taxa de mortalidade padronizada por idade apresentou redução próxima de 30% em países de alta renda. No mesmo intervalo, houve aumento aproximado de 99% nas taxas de mortalidade em países de baixa renda. A incidência nesses países também registrou crescimento expressivo, estimado em 147% no período avaliado.
A análise ressalta ainda que o tratamento do câncer de mama demanda integração entre cirurgia, radioterapia e terapias sistêmicas, o que nem sempre está disponível de forma ampla. Em diversos países, há restrições na oferta de radioterapia e no acesso a medicamentos direcionados, considerados padrão para determinados subtipos da doença
Mamografia: um exame que salva vidas
O diagnóstico precoce é um divisor de águas no enfrentamento do câncer de mama. A mamografia é considerada o exame mais eficaz de rastreamento, capaz de identificar tumores ainda em estágio inicial e imperceptíveis ao toque.
A mamografia deve ser realizada anualmente a partir dos 40 anos, ou antes dessa idade quando recomendada para pessoas com maior risco, identificado por histórico familiar, testagem genética positiva para síndromes hereditárias ou por calculadoras de risco que avaliam múltiplos fatores. Nesses contextos, a ressonância magnética das mamas também pode ser indicada como exame de rastreamento complementar à mamografia, ampliando a segurança do acompanhamento.
“A mamografia continua sendo o exame mais importante no rastreamento do câncer de mama. Ela permite identificar alterações ainda silenciosas e oferece a possibilidade de intervenções menos agressivas e mais efetivas”, explica Luciana Landeiro, oncologista da Oncoclínicas.
No entanto, o Brasil ainda enfrenta um grande desafio: a desigualdade no acesso. De acordo com o estudo AMAZONA, mais de 70% dos diagnósticos de câncer de mama no país são feitos em estágios avançados, o que reduz as chances de cura e aumenta os custos do tratamento. Muitas pessoas, especialmente fora dos grandes centros urbanos, ainda encontram dificuldades para realizar exames regulares.
“O acesso ao rastreamento é uma questão central. Precisamos ampliar a oferta de mamógrafos e garantir que todas as pessoas em risco tenham condições de realizar o exame. Essa é uma das chaves para mudar a realidade atual e reduzir a mortalidade pela doença”, ressalta Guilherme Novita, mastologista da Oncoclínicas.
Cuidado que vai além do tumor
Embora a detecção precoce seja essencial, o caminho após o diagnóstico exige muito mais do que tecnologia e ciência. O tratamento do câncer de mama deve ser integral, oferecendo segurança clínica e acolhimento emocional. “O tratamento não deve focar apenas no tumor, mas na pessoa como um todo. Um cuidado humanizado promove melhor adesão às terapias e garante mais qualidade de vida durante toda a jornada”, afirma Landeiro.
Acolher significa também dar suporte em momentos de fragilidade, oferecer espaço para a escuta ativa e envolver familiares no processo. Esse cuidado ampliado tem se mostrado fundamental para que a pessoa se sinta fortalecida e capaz de atravessar os desafios do tratamento.
Além disso, os avanços nos tratamentos, que incluem terapias-alvo e imunoterapia em alguns casos, vêm possibilitando abordagens mais eficazes e com menos efeitos colaterais. O acesso a essas inovações, associado a um cuidado humanizado, transforma a experiência da pessoa em tratamento e ajuda a construir um novo olhar sobre si mesma e sua jornada.
O futuro do tratamento do câncer de mama
O cenário do câncer de mama está em transformação. Na ASCO 2025, maior congresso de oncologia do mundo, estudos de impacto trouxeram novidades importantes, como terapias mais direcionadas, monitoramento precoce de resistência aos medicamentos e combinações capazes de substituir a quimioterapia convencional em alguns casos. A mensagem é clara: a oncologia caminha para uma era mais personalizada, com foco não apenas em prolongar a vida, mas também em garantir qualidade de vida.
Outro destaque foi o DESTINY-Breast 09, que avaliou novas combinações para o câncer de mama HER2-positivo avançado. Os resultados apontam para a possibilidade de abrir mão da quimioterapia tradicional em alguns cenários, substituindo-a por terapias-alvo mais inteligentes e menos tóxicas. Já no câncer de mama triplo-negativo, considerado um dos mais agressivos, a combinação de anticorpos conjugados a droga com imunoterapia mostrou ganho importante em tempo de controle da doença, representando um novo horizonte para pessoas que antes tinham opções limitadas.
“Estamos diante de uma mudança de paradigma. Quanto mais conseguimos individualizar os tratamentos, maior a chance de oferecer não apenas eficácia, mas também qualidade de vida. O futuro do cuidado às pessoas com câncer de mama é guiado pela ciência, mas também pelo olhar humano, que considera o impacto do tratamento no dia a dia de cada pessoa”, finaliza Luciana Landeiro.