Europa reforça segurança e acelera repatriação de cidadãos após tensões
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Europa reforça segurança e acelera repatriação de cidadãos após tensões

A tensão bélica envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, somada às ações de revide de Teerã por todo o Oriente Médio, está empurrando a Europa para o centro do embate. O continente se vê obrigado a reforçar sua guarda, protegendo instalações militares e coordenando a saída de seus cidadãos das áreas de risco.

O Oriente Médio é sede de parceiros comerciais vitais para os europeus e rota de caminhos globais decisivos. Grandes contingentes de europeus residem em metrópoles como Dubai, Beirute ou Jerusalém, ao mesmo tempo que comunidades do Egito, Turquia e do Golfo fincaram raízes em solo europeu. Embora as nações da Europa não tenham sido consultadas sobre a incursão de EUA e Israel, elas agora arcam com o ônus dessa realidade.

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Mesmo evitando o engajamento direto nas frentes de batalha, potências como Alemanha, França e Reino Unido garantiram apoio aos americanos para conter a ofensiva iraniana. O governo britânico, por exemplo, autorizou que os Estados Unidos utilizem suas bases para interceptar mísseis e bombardear pontos de lançamento no Irã.

Contudo, o território europeu já sente os reflexos. O Chipre, que ocupa a presidência rotativa da União Europeia (UE), precisou negar qualquer participação ativa no conflito após um drone Shahed avariar uma base aérea do Reino Unido em seu litoral sul no último fim de semana. Apesar de criados pelo Irã, esses drones já são conhecidos na Europa por meio da utilização russa na guerra contra a Ucrânia.

Pelo receio de novos incidentes internamente, diversos países do bloco elevaram o nível de vigilância em hubs de transporte, como aeroportos e ferrovias. Ainda assim, é notável a ausência de críticas dos líderes europeus à operação liderada por Washington e Tel Aviv.

Muitos desses governantes veem com bons olhos o enfraquecimento do governo em Teerã, que há anos é acusado de deter europeus injustamente e de prejudicar os planos econômicos do continente.

A Espanha tem se posicionado como uma exceção nesse coro. O presidente Pedro Sánchez declarou no domingo, 1º, que é possível se opor a um "regime detestável" e, simultaneamente, condenar uma "intervenção militar sem justificativa, arriscada e que desrespeita o direito internacional".

Ao mesmo tempo, manter a ordem na volátil região do Oriente Médio é um pilar estratégico para a Europa. O temor de uma alta desenfreada nos combustíveis e o risco de novos fluxos migratórios desordenados obrigam o continente a permanecer vigilante e atuante.

Foco no resgate de cidadãos

No curto prazo, a urgência europeia é garantir o retorno seguro de milhares de seus nacionais espalhados pela zona de guerra.

Em uma cúpula emergencial de chanceleres da UE no final de semana, o tema da repatriação dominou as discussões. Embora uma ação conjunta do bloco ainda não tenha sido deflagrada, ela é vista como iminente.

A Alemanha relatou que cerca de 30 mil turistas alemães estão "ilhados" em cruzeiros, hotéis ou terminais aéreos paralisados. A maioria se encontra no epicentro do conflito, mas muitos estão presos em conexões em cidades como Catar ou Abu Dhabi. Com o fechamento dos céus, o resgate por meios militares tornou-se inviável no momento.

Já a República Tcheca mobilizou duas aeronaves para o Egito e a Jordânia para buscar seus cidadãos, muitos vindos de Israel via terrestre. Outras quatro missões aéreas estão previstas para Omã, visando resgatar parte dos quase 6.700 tchecos que se encontram na região.

Interesses financeiros da Europa

O Irã mantém ameaças sobre o Estreito de Ormuz, ponto nevrálgico por onde escoa 20% do petróleo do mundo. Com ataques já registrados a embarcações nessa rota, cresce a pressão para que a UE intervenha na proteção do comércio marítimo.

Como resposta, o governo francês deve enviar mais duas embarcações de guerra para dar suporte à Operação Aspides, a força naval do bloco. Entretanto, o deslocamento foca no Mar Vermelho e no Golfo de Aden — acessos vitais ao Canal de Suez —, unindo-se aos três navios que já patrulham a área.

A Operação Aspides foi estabelecida há dois anos para blindar a navegação contra os rebeldes Houthi do Iêmen. Embora os Houthis apoiem o Irã, até o momento não oficializaram uma entrada direta no conflito em favor de Teerã.

Há debates internos para endurecer as regras de engajamento da operação, mas mudanças práticas no mandato não devem ocorrer de imediato.

A preservação da paz no Oriente Médio como um todo é um objetivo central para os europeus, que condenaram duramente as represálias iranianas.

Kaja Kallas, chefe da diplomacia da UE, deve se reunir com ministros do Conselho de Cooperação do Golfo ainda esta semana, buscando tranquilizar as nações vizinhas ao Irã.

"As ofensivas iranianas são injustificáveis. Esses episódios não podem desencadear uma espiral de violência que coloque em xeque a segurança da região e da própria Europa", afirmou Kallas após as reuniões de domingo.

O bloco insiste na via diplomática para conter as tensões e segue tentando evitar que o Irã alcance o status de potência nuclear, mesmo após o colapso do acordo anterior causado pela saída dos EUA durante a era Trump.

A posição da Otan

Mark Rutte, secretário-geral da Otan, defendeu em entrevista que o confronto liderado por EUA e Israel contra o Irã é vital para a integridade europeia. Ele sugeriu que os países membros podem colaborar com logística e acesso, mesmo sem enviar tropas para o combate.

Rutte, que já governou a Holanda, expressou apoio total à decisão de Trump de atingir o Irã e eliminar seu líder máximo, argumentando que a ameaça nuclear iraniana sufocaria Israel. "Isso representaria um risco existencial para o Estado de Israel", disse ele à emissora alemã ARD.

Sobre uma possível entrada da Otan na guerra, Rutte descartou a hipótese, afirmando que o conflito no Golfo ocorre fora das fronteiras de atuação da aliança.

Vale lembrar que as forças da Otan atuaram por quase duas décadas no Afeganistão e foram decisivas na queda de Muammar Gaddafi na Líbia, em 2011.

*Com informações do Estadão Conteúdo.