O agravamento das tensões militares no Oriente Médio, envolvendo diretamente os Estados Unidos, Israel e o Irã, gera um estado de alerta imediato para o agronegócio brasileiro. O conflito expõe a vulnerabilidade do Brasil em relação à dependência externa de adubos e fertilizantes, elementos essenciais para a produtividade das safras nacionais. O Irã consolida-se como um dos principais fornecedores de ureia para o mercado brasileiro, insumo nitrogenado fundamental que, ao lado do fósforo e do potássio, sustenta a posição do país como potência agrícola global.
A crise geopolítica afeta não apenas a relação direta com o território iraniano, mas também a produção em países vizinhos. Fornecedores estratégicos como Catar e Omã dependem do gás natural proveniente do Irã para a fabricação de nitrogenados.
Com a escalada das hostilidades, esse fluxo comercial sofre interrupções severas, comprometendo a logística de abastecimento global.
Dependência de importações e entraves na produção nacional
A análise do cenário atual reforça a preocupação com a segurança alimentar e os custos de produção. Fernando Iglesias, analista de mercado de fertilizantes, afirma que o movimento traz uma série de preocupações, dado que o Brasil é extremamente dependente das importações para atender às necessidades do campo. A falta de autonomia no setor é um reflexo direto da baixa exploração das reservas internas de fósforo e potássio.
Embora o subsolo brasileiro abrigue jazidas imensas desses minerais, a exploração comercial esbarra em complexidades regulatórias. Leis ambientais nas esferas federal e estadual acabam por atrasar ou impedir o licenciamento de projetos que poderiam reduzir a necessidade de compras internacionais. Enquanto as reservas permanecem intactas, o produtor nacional fica sujeito à volatilidade dos preços e à disponibilidade de insumos ditada por conflitos externos.
Logística de exportação e novos destinos do milho
No setor de exportações, os impactos são igualmente significativos. O Irã é, atualmente, o maior comprador do milho brasileiro. Dados de 2025 indicam que o país persa adquiriu 9 milhões de toneladas do grão, o que representa cerca de 23% do total exportado pelo Brasil. Além dos grãos, o Oriente Médio lidera o consumo de proteína de frango produzida em território nacional.
O desafio logístico agora consiste em encontrar rotas alternativas para garantir que os produtos cheguem ao destino final sem atravessar zonas de ataques. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), explica que o setor mede alternativas que incluem o acesso pela Turquia ou a circulação pelo Cabo da Boa Esperança para atingir o mercado asiático. O objetivo central é manter o fluxo de alimentos para nações que já enfrentam a tensão diária de um conflito armado entre potências, evitando o desabastecimento em regiões críticas.