Excluídos do planejamento da ofensiva, aliados dos EUA se adaptam a um cenário em que exercem papel secundário, reagindo com cautela e fazendo apelos por diplomacia
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GERADO EM: 02/03/2026 - 14:55
Exclusão Europeia em Estratégia dos EUA para Ataques ao Irã Gera Preocupação
O artigo analisa a exclusão dos aliados europeus pela administração Trump no planejamento de ataques ao Irã, destacando a posição de espectadores dos europeus e suas respostas cautelosas. Líderes europeus, como o chanceler alemão Friedrich Merz e o presidente francês Emmanuel Macron, expressam preocupação com a falta de consulta e o impacto na segurança europeia. A situação reflete tensões entre a abordagem unilateral dos EUA e a defesa europeia da diplomacia.
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Enquanto aviões de guerra dos Estados Unidos e de Israel continuam a bombardear cidades iranianas, os aliados europeus voltaram a ocupar um lugar familiar: o de espectadores. O presidente americano, Donald Trump, os excluiu do planejamento de um conflito com implicações diretas para a segurança do continente. O mosaico desconfortável de respostas dos líderes europeus, uma combinação de aprovação cautelosa e apelos insistentes por um retorno à diplomacia, evidencia as dificuldades de lidar com um governo americano cada vez mais desvinculado das regras e normas estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial.
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O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, sugeriu no domingo que Trump estava fazendo um trabalho que a Europa não poderia realizar por conta própria. Já o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, rejeitou categoricamente os ataques, classificando-os como desestabilizadores. O presidente da França, Emmanuel Macron, tentou manter o foco na campanha europeia de apoio à Ucrânia.
— Para os europeus, o dilema é que eles sempre foram defensores da ordem liberal internacional. Mas a resposta deles à guerra em Gaza e agora ao bombardeio do Irã evidencia a incoerência de sua posição — afirma Vali R. Nasr, professor de relações internacionais da Universidade Johns Hopkins.
A dificuldade da Europa em controlar sua própria narrativa não surpreende totalmente. De tarifas imprevisíveis a campanhas militares sem prazo definido, os aliados dos EUA vêm descobrindo, para sua frustração, que este é o mundo de Trump, e eles apenas vivem nele.
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Seja no assassinato direcionado do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, no sábado, seja na captura noturna do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, Trump agiu sem buscar apoio internacional formal, aval das Nações Unidas ou legitimidade jurídica.
— Duvido que tenha sequer passado pela cabeça dele consultar os europeus — diz Kim Darroch, que foi embaixador do Reino Unido em Washington durante o primeiro mandato de Trump. — Isso mostra que ‘America First’ significa, sobretudo, América sozinha.
Nem sempre foi assim. Darroch comparou o ataque mais recente ao bombardeio de mísseis contra a Síria, em abril de 2018, quando os Estados Unidos atuaram ao lado do Reino Unido e da França após o uso de armas químicas pelo governo sírio contra civis.
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Segundo ele, esse tipo de coordenação é difícil de imaginar no segundo mandato de Trump, dado o perfil de sua equipe de segurança nacional e o tom inflexível adotado, especialmente em relação à União Europeia.
De certo modo, acrescentou Darroch, o desdém explícito de Trump pelos europeus acabou facilitando a posição dos líderes do continente. Caso ele tivesse solicitado apoio para os ataques contra o Irã, provavelmente teriam se sentido obrigados a recusar, ampliando ainda mais a divisão entre Europa e EUA.
Embora tenham ressaltado não ter participado das ofensivas, líderes europeus endossaram dois dos objetivos declarados por Trump: impedir que o Irã obtenha uma arma nuclear e enfraquecer seu arsenal de mísseis, alguns dos quais poderiam teoricamente atingir a Europa. Alguns também saudaram a eliminação do líder supremo iraniano.
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Uma porta-voz do governo francês, Maud Bregeon, afirmou que Khamenei era “um ditador sanguinário que oprimia seu povo” e declarou que sua morte só poderia ser vista com satisfação.
A Alemanha informou ter sido avisada previamente pela Casa Branca sobre os ataques. No domingo, Merz demonstrou surpreendente tolerância com Trump, apesar da falta de consulta.
— Não é o momento de dar lições a aliados e parceiros — afirmou antes de viajar a Washington para se reunir com o presidente americano.
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Para Arancha González Laya, ex-ministra das Relações Exteriores da Espanha, a resposta cautelosa da Europa reflete tanto o ceticismo quanto aos objetivos da guerra quanto o fato de que a Ucrânia continua sendo a prioridade central do continente.
No domingo, os líderes de Reino Unido, França e Alemanha divulgaram uma declaração conjunta afirmando estar “consternados com os ataques indiscriminados e desproporcionais com mísseis lançados pelo Irã contra países da região”.
Ainda que haja ambivalência em relação à operação americana, os riscos de envolvimento direto são reais. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou que permitiria o uso de bases britânicas para ações “defensivas”, poucas horas antes de um drone atingir uma base da Força Aérea Real na ilha de Chipre.
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Enquanto isso, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, conseguiu, pela segunda vez, obter apoio dos Estados Unidos para uma campanha militar contra o Irã.
Analistas avaliam que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, pode usar o novo entusiasmo de Trump por mudanças de regime para justificar sua agressão na Ucrânia. O mesmo raciocínio poderia ser aplicado ao presidente da China, Xi Jinping, que busca assumir o controle de Taiwan.
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Para críticos europeus, a complacência com o intervencionismo militar de Trump no Oriente Médio pode agravar tensões mais próximas de casa.
— Eles têm dificuldade de navegar neste novo mundo porque estão presos entre duas posições. Se você defende o princípio de que os EUA e Israel podem bombardear quem quiserem, não pode depois afirmar que isso não se aplica à Ucrânia — diz Nasr.