No Rio, número de feminicídios quase triplicou desde 2020, e 65% das vítimas de agressão e de ameaça na cidade são mulheres
tecnologia

No Rio, número de feminicídios quase triplicou desde 2020, e 65% das vítimas de agressão e de ameaça na cidade são mulheres

Cerca de dois terços das tentativas de suicídio e automutilação envolveram mulheres, que também representam 65% dos casos de intoxicação exógena

  • Facebook
  • Twitter
  • BlueSky
  • Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você

    GERADO EM: 02/03/2026 - 22:01

    Feminicídios triplicam no RJ: 65% das vítimas são mulheres

    No Rio de Janeiro, o número de feminicídios quase triplicou, com 65% das vítimas de agressão e ameaça sendo mulheres. O Mapa da Mulher Carioca revela que 67.090 notificações de ameaças e 42.107 de lesão corporal foram registradas em 2024. A violência é predominantemente doméstica e afeta especialmente mulheres negras. Iniciativas públicas buscam combater essa realidade, oferecendo apoio e capacitação.

    CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO

    Após mais de 35 anos de casamento, Rosa Almeida, de 56, começou a perceber que sofria abusos dentro de casa. Há cerca de seis anos, ela perdeu a mãe. A partir de então, notou que as violações morais e as proibições que sofria do marido correspondiam a tipos de violência contra a mulher, tema a que ela teve acesso ao estudar cada vez mais o assunto.

  • 'Ela dizia que queria desistir da vida por vergonha': veja relato avó de adolescente vítima de estupro coletivo em Copacabana
  • — Nas brigas, ele colocava o dedo da minha cara e dizia que ele mandava. Até que um dia eu falei para me respeitar e disse que não ia mais calar a boca. Falei: “eu tenho voz e vou falar”. Vi que o que eu passava era abuso. E um dia ele me bateu. Ele me proibiu de fazer bolo, de trabalhar... — conta ela.

    — Eu chamei a polícia e os agentes, ao me verem, chamaram o Samu rápido. Escorriam dos pontos pus, ceroma..

    Depois de reagir aos ataques, de ser ameaçada e agredida, Rosa pediu o divórcio. Mas se deparou com mais uma situação degradante: o marido dividiu a casa com tapumes de madeira que a isolaram dos cômodos com ventilação. A baixa perspectiva financeira imposta — já que ela era proibida de trabalhar fora e de estudar — impossibilitou que ela saísse da casa onde sofreu as violências. O que a protegeu de ser por mais tempo vizinha de quarto de seu agressor e de tirava até o seu ar foi uma medida protetiva obtida na Justiça há menos de seis meses:

    — Ele hoje vive em Bento Ribeiro. Amanhã, pela primeira vez vou limpar a casa. Ass baratas do espaço sujo onde ele estava estão passando para onde estou — conta ela, hoje acompanhada por assistentes sociais da Casa da Mulher Carioca, equipamento da prefeitura em Madureira, e também por psiquiatra, psicóloga e nutricionista do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione, Iede.

    • 'Policiais minimizam o trabalho de apuração das jornalistas': diz Vera Araújo ao lembrar suas reportagens sobre o caso Marielle Franco

  • 'Policiais minimizam o trabalho de apuração das jornalistas': diz Vera Araújo ao lembrar suas reportagens sobre o caso Marielle Franco
  • Violência doméstica e violência patrimonial são dois dos tipos de crime que constam na Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006), principal mecanismo legal no Brasil para garantir a defesa de vítimas do sexo feminino de namorados, maridos, ex-parceiros, colegas de trabalho homens que tentem violações. Rosa, carioca da Zona Norte é uma entre as mais de 100 mil vítimas que, nos últimos anos, foram vítimas de agressões.

    Segundo o Mapa da Mulher Carioca, levantamento lançado nesta terça-feira pela Secretaria municipal de Políticas para Mulheres e Cuidados, apenas em 2024 foram registradas 102.470 notificações de ameaça no município, sendo 67.090 contra mulheres, que são 65,5% das vítimas. Nos casos de lesão corporal, elas também são maioria: 42.107 vítimas, o equivalente a 64,9% dos registros. O número de feminicídios quase triplicou: de 2020 a 2024, foi de 18 a 51 registros anuais.

    O ex-marido de Rosa, que foi denunciado em setembro de 2025, a proibiu de exercer uma profissão em todo o tempo em que foram casados. Ele, marceneiro, tinha liberdade de ir e vir. Dentro de casa, ela era responsabilizada pelo cuidado dos dois filhos, pelas tarefas domésticas e, caso quisesse obter a própria renda, que fizesse bolo, costurasse bonecas ou encontrasse outra atividade que pudesse ser realizada dentro do lar. Sua realidade se reflete em outro novo dado da secretaria: mulheres dedicam 364 horas a mais por ano ao trabalho doméstico que os homens.

    • Violência sexual: imagens analisadas pela polícia mostram menor 'comemorando' com amigos após estupro coletivo em Copacabana

  • Violência sexual: imagens analisadas pela polícia mostram menor 'comemorando' com amigos após estupro coletivo em Copacabana
  • O levantamento da prefeitura de 12 capítulos teve integração com as pastas de educação, saúde, segurança pública, assistência social, emprego e renda e mobilidade urbana. Joyce Trindade, secretária da pasta de Mulheres e Cuidados, que encabeça a pesquisa, crê que, ano a ano, levantamentos cada vez mais abrangentes, ano a ano, possibilitarão mais políticas públicas de prevenção e assistência:

    — Hoje entendemos, por exemplo, que 6 em cada 10 feminicídios são cometidos por parceiros íntimos atuais ou anteriores e 75% acontecem em casa. Sete em cada dez vítimas são mulheres negras. Isso revela padrão, estrutura e desigualdade. Só com monitoramento contínuo é possível agir com responsabilidade e precisão diz a secretária.

    As agressões e a ameaça de morte foram violências que motivaram outra vítima, Laura Ramos, de 71 anos, a denunciar o homem com quem viveu por 48 anos e de quem sofreu agressões, entre elas uma tentativa de estrangulamento. Faz só seis meses que ela vive com a filha na Pavuna, na zona Norte, e se disponibiliza ainda a ajuda a outras mulheres que precisam de mais proteção.

    — Na época que procurei a delegacia para denunciar, tive que responder a perguntas constrangedoras de um homem: ele queria saber que xingamentos eu ouvia, perguntou se minhas filhas eram deste casamento. Ainda existe um despreparo muito grande. Estes homens precisam aprender. Não existe acolhimento às mulheres nas Deams.

    Na véspera do Dia da Mulher, dia 7 de março, uma aula inaugural dos cursos do Programa Mulheres do Rio, da prefeitura, na Barra Olímpica. São das ZonasNorte, Oeste e Sudoeste as maiores taxas de vulnerabilidade feminina. O programa oferece capacitação e instruções sobre recolocação profissional.

    — Hoje sabemos que 78,4% dos casos de violência que chegam à saúde são contra mulheres, e 43,2% são causados por parceiros ou ex-parceiros. O feminicídio não começa no último ato. Ele inicia nos sinais que muitas vezes são ignorados. O Mapa da Mulher Carioca traz informações que salvam vidas. Sem evidência nós não conseguimos avançar e garantir políticas públicas para as mulheres. Por isso ele é permanente. Vamos continuar atualizando, aprofundando e ampliando esses dados. É necessário saber onde a violência está, quem ela atinge e como ela acontece.

    Confira mais dados do Mapa da Mulher Carioca:

    Confira mais dados do Mapa da Mulher Carioca:

  • 8.332 tentativas de suicídio e automutilações: cerca de dois terços das tentativas de suicídio e automutilações envolveram mulheres, que também representam 65% dos casos de intoxicação exógena (exposição a agentes externos, como remédios ou outras substâncias químicas).
  • Violência contra menores: em 2024, houve 5.700 notificações de violência contra adolescentes, com 89,99% das vítimas de violência sexual sendo meninas. A maioria das ocorrências ocorreu dentro da residência, 65,4%, e foi cometida por familiares, 61,2%.
  • Mulheres cuidam mais: as cariocas dedicam cerca de 19 horas e 30 minutos semanais ao cuidado e aos afazeres domésticos, enquanto os homens cuidam 12 horas e 25 minutos, diferença que representa 364 horas a mais por ano de trabalho não remunerado para elas.
  • Notícias do Rio:

  • Polícia detalha em relatório como vítima de estupro coletivo em Copacabana foi atraída e violentada por uma hora
  • 'É uma vivência de morte', explica psiquiatra sobre estupro coletivo no Rio
  • No Rio, número de feminicídios quase triplicou, e 65% das vítimas de agressão e de ameaça na cidade são mulheres
  • Segredos do crime: Conheça os métodos usados por Rodrigo Bacellar e aliados para apagar evidências, segundo a Polícia Federal
  • Saiba por que o inquérito da PF que investiga ligação de Rodrigo Bacellar com vazamento de operações foi encaminhado ao STF
  • No lugar de terminal de ônibus planejado pela prefeitura, moradores da Rocinha querem moradia popular; saiba mais
  • Mapa do crime: veja os bairros do Rio com mais roubos e furtos de celular durante o carnaval