Proteção corporativa
A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, de suspender a quebra de sigilo de empresa ligada ao ministro Dias Toffoli, trouxe mais do que um efeito jurídico: trouxe uma percepção. Quando ministros decidem sobre temas que envolvem integrantes da própria Corte, a transparência precisa ser redobrada. A sociedade não acompanha os autos; acompanha sinais. E sinais de proteção corporativa, ainda que juridicamente defensáveis, corroem confiança. Não se trata de condenar previamente, nem de ignorar garantias. Trata-se de compreender que, quanto maior a autoridade, maior a responsabilidade de explicar. Decisões monocráticas em assuntos sensíveis exigem fundamentação clara e acessível, sob pena de parecerem viradas de chave oportunas. O Supremo é guardião da Constituição. Mas também é guardião da própria credibilidade. E credibilidade, uma vez abalada, não se recompõe por decreto. Instituições fortes não temem investigação. Tampouco temem luz.
Izabel Avallone
São Paulo
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Muito a explicar
Toffoli et caterva têm muito a explicar, mas preferem se esconder. Gilmar também deve explicar essa oportunista “blindagem” ao amigo.
José Cretella Neto
São Paulo
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Supremo FC
É a panelinha do STF Futebol Clube em andamento. Quando a investigação chega perto da verdade, ela para. O País precisa de transparência, não de panelinhas.
Arcangelo Sforcin Filho
São Paulo
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Eleição 2026
Plebiscito permanente
Diante dos números das recentes pesquisas sobre a eleição presidencial de 2026, considero importante ampliar a reflexão para além do placar apresentado. Os dados indicam empate técnico num eventual 2.º turno entre os nomes associados à atual polarização política. O fato é relevante, mas talvez o aspecto mais significativo não esteja na diferença porcentual entre os candidatos, mas no padrão que as pesquisas revelam. Quando quase metade do eleitorado rejeita um candidato e proporção semelhante rejeita o outro, não estamos só diante de uma disputa acirrada. Estamos diante de um cenário clássico de voto por rejeição, também chamado de voto negativo. Escolhe-se não necessariamente por convicção profunda, mas para impedir a vitória do adversário. Esse comportamento é alimentado pela polarização afetiva, fenômeno em que a divergência política deixa de ser apenas programática e se transforma em aversão emocional ao grupo oposto. Nesse ambiente, a lógica eleitoral se reduz a derrotar o outro lado, e não a construir um projeto coletivo. O risco de normalizarmos esse padrão é grande. Passa a parecer aceitável que qualquer nome que represente continuidade de um dos polos, inclusive dentro de uma possível dinastia política, seja legitimado apenas por simbolizar oposição ao adversário. A exigência deixa de ser qualidade de projeto, capacidade de gestão ou convergência mínima. Passa a ser apenas viabilidade contra o inimigo eleitoral. Não podemos nos limitar a celebrar um empate técnico ou lamentar uma liderança momentânea. É urgente perguntar não só quem lidera, mas o que esse padrão revela sobre a nossa qualidade democrática. Democracia não exige unanimidade. Mas também não precisa ser um plebiscito permanente de rejeição. Talvez o verdadeiro empate que as pesquisas revelam não seja só entre candidatos. Talvez seja um empate entre a política que temos e a maturidade que ainda não exigimos. E essa escolha, de aceitar o padrão ou de questioná-lo, não está só nas urnas. Está na consciência coletiva.
Maria Luisa Papaiz Refinetti
São Paulo
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Polarização suicida
Será possível que as nossas elites (política, intelectual, acadêmica, financeira, empresarial) vão repetir, com sinal trocado, a preguiçosa asneira que fizeram em 2022? Então, para vencer o “fascista genocida”, acreditaram na fábula do sapo convertido em estadista pluripartidário e se uniram para dar um terceiro mandato a Luiz Inácio Lula da Silva. Arrependidos, precisam evitar um quarto mandato lulopetista. Parece que estão lubrificando a garganta para engolir o filho do que tiraram, ao invés de se unirem e trabalharem com seriedade para desenvolver um projeto de país e uma equipe competente que rompa de vez com essa polarização suicida. Coragem, pessoal, ainda dá tempo!
César F. M. Garcia
São Paulo
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Cartas selecionadas para o Fórum dos Leitores do portal estadao.com.br
ATITUDES FIRMES
A cena de agressividade protagonizada na Câmara dos Deputados expõe algo preocupante: quando o debate se transforma em gritaria, a impressão que fica é a de que se tenta esconder o que deveria ser esclarecido. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou certa vez que, se fosse seu filho, teria de pagar por eventuais erros. A frase ecoou como compromisso com a igualdade perante a lei. Justamente por isso causa estranheza a mobilização para impedir a quebra de sigilo de seu filho, quando o assunto vem à tona. Se não há irregularidade, não deveria haver temor. Em uma República madura, investigar não é perseguir. É dever institucional. Blindagens políticas e tropa de choque parlamentar não fortalecem a democracia; ao contrário, alimentam a desconfiança. O Brasil precisa de serenidade, transparência e coerência. Discursos firmes devem ser acompanhados de atitudes igualmente firmes. O que vale para um, deve valer para todos.
Izabel Avallone
São Paulo
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TROÇO
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, é mais escorregadio que enguia bêbada. Ao simular uma aproximação com Lula da Silva, capaz de lhe abrir brecha de oportunidade que, de alguma forma, venha a beneficiá-lo nesta antevéspera das eleições de outubro, sai em defesa do indefensável Dias Toffoli, comprovadamente enrolado nas travessuras mal intencionadas e asquerosamente fraudulentas enredadas pelo gestor do Banco Master, Daniel Vorcaro, que estão levando no aluvião da tragédia várias outras instituições, causando enormes prejuízos ao sistema financeiro nacional que, no frigir dos ovos, serão cobertos pelo contribuinte. Assim, por exemplo, acaba o nada nobre deputado de afirmar que considera exagerados os argumentos contra Toffoli e, pasmem, responsabiliza a mídia por divulgá-los. Diante de tal ópera bufa, só resta lembrar um verso da antiga marchinha de carnaval interpretada pelo saudoso Jackson do Pandeiro: “Me segura que vou ter um troço”.
Paulo Roberto Gotaç
Rio de Janeiro
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PENDURICALHOS
Ex-juíza defensora de penduricalhos recebeu R$ 113,8 mil em dezembro. A juíza do trabalho aposentada Cláudia Márcia de Carvalho Soares é quem defendeu no Supremo Tribunal Federal (STF) o pagamento dos penduricalhos. Eu me lembro do Zeca pagodinho que canta: “na vida a coisa mais feia é gente que vive chorando de barriga cheia”. Pura verdade.
Roberto Solano
Rio de Janeiro
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GRAMÁTICA
Gilmar Mendes diz que Sérgio Moro não sabia se “tigela” se escrevia com G ou com J (Estadão, 26/2). Gilmar Mendes, que outrora afirmou que não tinha dúvidas de que havia sido implantada no País uma grande cleptocracia, agora cobra, incoerentemente, um “mea culpa” dos veículos que noticiaram os escândalos de corrupção, como se eles não tivessem acontecido. O grosseiro Gilmar deveria dizer também que Luiz Inácio, presidente da República, que tem seríssimas dificuldades com a língua portuguesa, provavelmente não sabe também se “tigela” se escreve com G ou com J.
Maurílio Polizello Junior
Ribeirão Preto
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SISTEMA
No primeiro ano o governo não pode ser cobrado pois acabou de assumir e está lidando com a herança maldita do antecessor. Nos próximos dois anos o governo tenta apresentar algumas propostas, no quarto ano o governo fica paralisado, completamente focado na eleição que se aproxima. O sistema político partidário brasileiro é um lixo que inviabiliza qualquer governo, o País segue atolado na lama do subdesenvolvimento de terceiro mundo, liderando a lista de países mais corruptos do planeta, a reeleição é uma maldição, nada funciona com eleições a cada quatro anos, não há qualquer perspectiva de mudar essa porcaria de sistema político no futuro próximo.
Mário Barilá Filho
São Paulo
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AFETO
No Brasil contemporâneo, pagar imposto virou prova de solidariedade. Quanto mais o governo arrecada, mais se fala em justiça social. É curioso: o bolso do contribuinte emagrece, mas o discurso oficial engorda. A cada novo tributo ou aumento disfarçado, surge a justificativa nobre. É para equilibrar as contas. É para proteger os mais vulneráveis. É para garantir crescimento sustentável. O problema é que, enquanto as explicações se sofisticam, o cidadão continua pagando. Taxaram as “blusinhas”, ajustaram o IOF, ampliaram a arrecadação onde foi possível. Sempre há uma nova fonte, uma nova cobrança, um novo “ajuste”. O que raramente aparece é a redução consistente do gasto público. Descobriu-se no Brasil uma fórmula curiosa: se falta dinheiro, aumenta-se imposto. Cortar despesas é sempre assunto para depois. E o depois nunca chega. Enquanto isso, famílias recorrem ao crédito caro, empresas repensam investimentos e a inadimplência cresce. Mas a narrativa permanece intacta: tudo é feito em nome do povo. Talvez alguém precise avisar que amor não se mede pelo quanto se arrecada, mas pelo quanto se administra com responsabilidade. Se imposto é prova de afeto governamental, o contribuinte brasileiro já pode se considerar sufocado de tanto carinho.
Luciana Lins
Campinas
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PROIBIDO
Privatização é uma palavra proibida para a esquerda. Quando essa esquerda é um “comunista, graças a Deus”, como gosta de se autodeclarar o ministro do Supremo Flávio Dino, aí é que não tem acordo mesmo. Dino suspendeu a privatização da Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar), uma decisão na contramão da Advogacia-Geral da União (AGU). O real motivo, dizem as más e as boas línguas, seria um embate político beneficiando o PT e o PSOL contra a gestão Ratinho Júnior, um dos governadores mais bem avaliados pelos eleitores. É no que dá colocar um comunista na Corte Suprema de um país (ainda) democrático.
Luiz Gonzaga Tressoldi Saraiva
Salvador
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AUXÍLIO SOCIAL
O auxílio social é importante, mas de forma temporária, com vigência máxima de dois anos. Tempo suficiente para o favorecido se restabelecer, sobreviver com o fruto do próprio trabalho. Hoje, mais de 90 milhões de brasileiros têm o auxílio social e muitos deles, para não perder a ajuda, se recusam a trabalhar. Daí a falta de recursos para investir ou melhorar as obrigações governamentais básicas. Para evitar o voto de cabresto, como faz o presidente de plantão, compete ao Legislativo proibir de votar todos os assistidos por programa social.
Humberto Schuwartz Soares
Espírito Santo
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ENSURDECEDOR
O silêncio da direita sobre os direitos dos trabalhadores de uma maneira geral e dos povos indígenas é ensurdecedor. Sacrifica-se o bem-estar social em nome do lucro acima de tudo, enquanto se articula ataques à democracia. O perigo real está na vontade de controle absoluto que cresce nas brechas do sistema. A tática da extrema-direita é clara: desumanizar o próximo e desacreditar as instituições para derrubar as proteções sociais e abrir caminho para o autoritarismo. Sem direitos humanos não há democracia.
Gilberto Pereira Tiriba
Santos
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PARAÍSO FISCAL
Uma série de países adotam políticas voltadas a condições tributárias extremamente favoráveis, com impostos muito baixos ou até inexistentes. Mas o “investidor”, o que realmente busca nesses lugares, é, efetivamente, o sigilo, o segredo, a invisibilidade. Ouve-se falar muito da Suíça, das Ilhas Cayman e até de um Estado americano, como Delaware. Confesso que nunca havia ouvido falar de Andorra, principado europeu, como sendo um paraíso fiscal. Foi preciso que o Ministério Público de Andorra investigasse a origem do dinheiro depositado pelo vice-governador do Estado de São Paulo para que eu descobrisse que a linda Andorra é, de fato, um paraíso fiscal. Vivendo e aprendendo.
Marcus Aurelio de Carvalho
Santos
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FEMINICÍDIO
Gregório José
São Paulo
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TRAGÉDIAS
Minha solidariedade às populações de Minas Gerais e o Estado do Rio de Janeiro, especialmente àquelas famílias que perderam vidas e suas casas, oremos.
José Ribamar Pinheiro Filho
Brasília
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SANÇÕES
A respeito de novas sanções impostas pelo governo Trump ao Irã como parte de uma necessária e prudente campanha de pressão máxima antes das próximas rodadas de negociações entre os dois países, tendo em vista o desenvolvimento de bombas atômicas pelo regime xiita, cabe dizer que acreditar no que diz o governo autoritário teocrata iraniano de que seu programa nuclear tem somente fins pacíficos é o mesmo que acreditar que a terra é plana, quadrada e que o sol gira ao seu redor. Francamente!
J. S. Vogel Decol
São Paulo