Opinião | Medo de se movimentar tem nome: conheça a cinesiofobia e como evitar que vire barreira ao exercício
Veja 5 razões para incluir o treino de força na sua rotina. Crédito: Amanda Botelho/Estadão
Para o leitor mais novo que passou a frequentar academias após os anos 2010, talvez seja normal encontrar pessoas fazendo agachamento, levantamento terra e exercícios semelhantes sem suscitar pavor entre os professores, mesmo com o uso de cargas altas e, eventualmente, execução técnica questionável. Mas saibam que não foi sempre assim.
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Há não muito tempo, fazer agachamento na maioria das academias era quase uma garantia de ouvir bronca do instrutor: “Cuidado, isso vai acabar com o seu joelho!”. Já os menos “vocais” (e não por isso mais informados) não contraindicavam o exercício, mas aconselhavam: “Para não se machucar, nunca deixe a ponta do joelho ultrapassar a linha da ponta dos pés”. Os mais estudados, por sua vez, pediam para o aluno “não agachar muito fundo se quisesse preservar o joelho."
Os exemplos não param por aí, e parece que pioram conforme voltamos no tempo. Nos anos 90, por exemplo, cansei de ouvir pessoas formadas dizendo que eu (com 14 anos na época) não poderia fazer barra, pois esse tipo de exercício me faria parar de crescer.
Esse medo injustificado do exercício físico ou, mais especificamente, de certos tipos de movimento, tem nome: cinesiofobia. Os tempos mudaram, aprendemos muito sobre o exercício nas últimas décadas, e alguns desses mitos estão caindo por terra. Mas a cinesiofobia parece persistir.
A cinesiofobia na prática
Esse termo foi cunhado no contexto médico da reabilitação e da fisioterapia, e descreve o temor de se movimentar por receio de sentir dor ou de agravar uma lesão. Segundo esse conceito, a dor inibe o movimento, tanto por razões fisiológicas como pelo próprio medo, levando à sua evitação. Paradoxalmente, o sinal de dor ou o medo de se disparar um sinal doloroso pode criar padrões de movimento (ou até ausência dele) capazes de perpetuar a incapacidade ou a perda de função geradas por uma lesão. Embora o contexto da reabilitação não seja exatamente o foco desta coluna, é importante ressaltar que, na fisioterapia, parte importante do trabalho de reabilitação do aparelho locomotor passa por vencer a cinesiofobia e reganhar função.
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Já no campo da ciência do exercício, o termo cinesiofobia tem um significado um pouco mais amplo, e se refere ao medo infundado que algumas pessoas têm de se exercitar, mas sobretudo de realizar alguns exercícios específicos, como se fossem perigosos e carregassem um rótulo de “lesivos”. O agachamento “acaba com o joelho”. O stiff “destrói a coluna”. Fazer levantamento terra “é pedir para herniar um disco”. Ou, então, “correr acaba com os joelhos”. Essas frases são repetidas com convicção, mas muitas vezes sem contexto – e numa frequência maior do que eu gostaria de ouvir.
Vejamos, por exemplo, o caso do exercício stiff (uma flexão do tronco à frente, mantendo os joelhos estendidos), que certamente resulta em sobrecarga na coluna espinhal em uma direção transversal ao alinhamento das vértebras. Existe um potencial lesivo ao realizar esse tipo de movimento? Claro que sim! Faz sentido, portanto, excluir esse exercício de forma universal da rotina de toda e qualquer pessoa? Certamente não! Permita-me explicar.
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Primeiramente, é preciso entender que nenhum movimento é inerentemente lesivo, ao mesmo tempo que qualquer movimento pode resultar em uma lesão. O fator-chave aqui é a relação entre carga mecânica recebida pelos tecidos (ossos, tendões, ligamentos e músculos) e a capacidade desses tecidos de suportá-la.
A carga mecânica pode ser aumentada não apenas ao se levantar mais peso, mas também ao repetir mais aquele movimento, ou ao executá-lo com a técnica incorreta. Assim, sempre que esses fatores atuarem para elevar a sobrecarga a tal ponto que exceda os limites dos tecidos que a recebem, temos todos os elementos para que uma lesão ocorra. Perceba que isso independe de qual movimento estamos falando. Também é importante destacar que até os exercícios considerados “seguros” podem resultar em lesões se a capacidade dos tecidos for excedida.
Ainda no exemplo do stiff e similares, é curioso observar que o medo de ficar com dor nas costas pode fazer com que exercícios importantes para o fortalecimento dos glúteos e dos músculos posteriores da coxa fiquem de fora da rotina de treinamento. Um possível resultado disso é oenfraquecimentodesses grupos que, somado ao comportamento sedentário excessivo que adotamos atualmente (muito tempo sentado ao longo do dia) e o consequenteencurtamentodesses músculos, aumenta o risco de dores lombares.
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Além disso, os músculos, tendões, ligamentos e ossos respondem ao treinamento, tornando-se mais fortes e resistentes – o que melhora a capacidade de suportar cargas mecânicas.
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O fato de recusarmos a ideia da existência de movimentos inerentemente lesivos não deve, por outro lado, nos levar a acreditar, ingenuamente, que todo movimento é adequado para qualquer pessoa. Mais uma vez, insisto na relação entre sobrecarga e capacidade dos tecidos, e reforço a noção de que alguns movimentos sobrecarregam mais algumas áreas do corpo, e que gestos mal realizados são capazes, sim, de resultar em lesão.
O corpo humano foi feito para se movimentar – e para suportar cargas. Precisamos apenas garantir que elas sejam compatíveis com a capacidade individual de quem se exercita. Quando deixamos o pânico transformar movimentos em vilões universais, corremos o risco de afastar as pessoas de exercícios potencialmente benéficos, e reforçamos a crença de que somos frágeis, retroalimentando a própria cinesiofobia. Passou da hora de entender que exercício bem dosado é parte da solução, e não do problema.