Uma grande empresa é abalada por rumores sobre uma suposta conduta errada de um de seus melhores funcionários. O que deveria ser confidencial tornou-se público graças a uma outra servidora, que espalhou a notícia. A pressão pela demissão do homem obriga seu chefe a chamá-lo em sua sala a fim de encerrar o assunto.
Eis o ponto de partida da peça Nós, os Justos, que estreia no Teatro Itália na sexta-feira, 6. Com um clima de tribunal, o problema que poderia ter fácil resolução torna-se uma acalorada guerra de narrativas, o que deixa o espectador em constante estado de alerta.
“A busca pela verdade produz efeitos negativos, como cancelamentos e julgamentos precipitados”, comenta Kiko Rieser, autor e diretor da montagem encenada pela Companhia Colateral. “Os quatro principais componentes de um tribunal (juiz, acusação, defesa e testemunha) estão representados simbolicamente pelos quatro personagens, transformando o palco em um espaço de julgamento.”
Rieser escreveu a primeira versão da peça em 2018, quando a cultura do cancelamento nas redes sociais começava a se desenhar. Para a montagem atual, poucas modificações foram feitas - como a inclusão do conceito de compliance, hoje central no mundo corporativo e, à época, função do departamento de Recursos Humanos. “A dúvida sobre a honestidade de cada personagem é constantemente colocada em jogo, embaralhando a confiança depositada pelos espectadores em cada um.”
Como acontece em uma trama policial na qual a condução surpreende o espectador, a peça promove uma sucessão de cenas cujos detalhes convém não revelar, a fim de evitar spoilers. “Meu personagem funciona como um juiz e ainda um guia para a plateia, pois ele também desconhece os segredos que os outros três vão revelando”, comenta o ator Marco Antônio Pâmio, que vive o chefe do departamento, encarregado de solucionar o caso de forma rápida e discreta.
“Em sua busca pela verdade, ele se perde no labirinto criado pela situação e passa a agir tendenciosamente”, lembra o ator, cujo personagem chega a perder o controle em diversos momentos. “Como essas pessoas não são perfeitas, elas acabam se entregando à medida que a investigação avança”, observa Camila dos Anjos, que vive a funcionária que é pivô do caso, por ser supostamente a vítima.
A apuração deveria seguir em sigilo, mas ela comenta a história com uma colega, que espalha para toda a empresa. “Há um motivo amoroso que, para ela, justifica essa divulgação”, acredita Thamiris Mandú, que vive a propagandista do caso secreto. A atriz não entra em detalhes para não estragar surpresa, mas faz questão de ressaltar um momento delicado: quando sua amiga, surpreendida por uma informação negativa, solta um ditado racista, “quando não faz na entrada, faz na saída”. “Não incluímos a palavra ‘preto’ que normalmente aparece no início dessa frase infeliz para não deixar a cena ainda mais discriminatória.”
Luciano Gatti interpreta o rapaz acusado da conduta errada que estimula a sindicância. Como cada depoimento carrega ambiguidades, silêncios e interesses ocultos, ele reforça sua crença na inocência do suspeito. “Se ele realmente tivesse cometido um erro, aceitaria pacificamente a demissão imposta pela empresa, disfarçada de corte de pessoal”, afirma. “A resistência alimenta sua credibilidade.”
“A gravidade de temas como perseguição e abuso de poder exige equilíbrio e menos paixão”, pontua Rieser. “Quando a identificação imediata com uma história passa a importar mais do que o compromisso com a realidade, o risco de injustiça se torna enorme.”
Um ponto importante da peça é a presença invisível de um quinto personagem: uma espécie de coro formado pelos demais funcionários da empresa. Apelidados ironicamente de “a manada”, eles representam a força coletiva que pressiona, vigia, comenta, julga e exige punições. Mesmo que não apareçam em cena, são eles que alimentam rumores, vazam informações e mudam de lado conforme a conveniência, atuando como um tribunal informal que se forma nos corredores e salas para moldar decisões e destinos.
Para que a tensão se torne crescente, Kiko Rieser combinou texto e direção para manter os quatro atores em cena, mesmo que não estejam na ação dramatúrgica da cena. A esperteza está na forma dinâmica da atuação. Por exemplo, o chefe da seção faz uma pergunta ao rapaz investigado, que responde. Na frase seguinte, o chefe agora se dirige para a funcionária envolvida no caso, mudando o foco da conversa. “É como a edição de um filme, em que as cenas são alternadas rapidamente”, comenta Rieser, que conta com o desenho de luz criado por Rodrigo Palmieri para alternar o foco das cenas.
Para o encenador, a peça, além de divertir, pode servir como um alerta. “Espero que as pessoas da plateia ponderem muito antes de tomar qualquer posição e não reproduzam o comportamento de bando que vemos diariamente nas redes sociais, em campanhas de cancelamento que prejudicam todos os envolvidos.”
Serviço
Nos, os Justos
Teatro Itália. Av. Ipiranga, 344
Sextas e sábados, 20h, domingos, 19h. R$ 90
Até 26 de abril (estreia em 6 de março)