Há tempos venho pensando em escrever sobre clima e turismo. A princípio minha ideia se atinha ao aspecto atmosférico. Afinal, toda vez em que estamos preparando a lista de lugares indicados para o mês seguinte comento com a minha equipe no Viagem que está cada vez mais difícil prever se faz sol ou chove em qualquer canto. Quando comecei a trabalhar nesta área, em 2001, qual é a melhor época para ir a um destino era uma pergunta razoavelmente simples de ser respondida. Um quarto de século depois, as mudanças climáticas transformaram isso numa loteria com algum grau de previsibilidade. Diante da escalada de conflitos geopolíticos, no entanto, clima deixou de ser apenas uma questão de meteorologia.
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A geopolítica sempre importou, é fato, mas o empurrãozão deste governo de Donald Trump, tornou a equação ainda mais complicada. Os Estados Unidos vêm sofrendo decréscimo no número de turistas – já são menos 11 milhões, com o sumiço dos turistas do Canadá e do Reino Unido. Em 2025, o país foi o único grande destino do mundo a ver uma queda no total de visitantes estrangeiros; de acordo com o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), foram 6% de redução.
Depois das ações do ICE (o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos), de uma possível taxa de integridade de visto de US$ 250 para turismo e negócios (aprovada, mas suspensa, não cancelada, desde o fim de 2025) e do anúncio da verificação de perfis nas redes sociais, muita gente vem desistindo da ideia de visitar destinos americanos.
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Lugares em guerra sempre foram evitados por viajantes, obviamente. Mas quem poderia prever que estaria em Dubai e veria um míssil caindo como a família do vídeo abaixo? A gravação mostra o desespero do momento, de se dar conta que está no meio da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã. Tudo isso ocorrendo numa espécie de terra da fantasia para adultos, quase uma Las Vegas do Oriente Médio, pelo tanto de hotelaria e atrativos, muitos deles superlativos, caso do Burj Kalifa, o maior prédio do mundo. Outro casal, em lua de mel, relatou ver explosões e sentir pânico no quarto do hotel.
Explosões foram ouvidas em Beirute nesta segunda, 2. Crédito: Rodrigo Menozzi / Arquivo pessoal
Eu mesma, em dezembro, estive na cidade e me programava para publicar neste mês de março sobre a linda viagem que fiz: voei de Emirates, uma das companhias que teve avião retornando para o Aeroporto de Guarulhos no fim de semana, e embarquei num navio da MSC Cruzeiros para uma navegação pelos Emirados Árabes Unidos (Dubai e Abu Dhabi), com paradas no Catar (Doha) e no Bahrein, onde fica a maior base dos Estados Unidos no Oriente Médio, segundo a guia contou orgulhosa na ocasião. Agora é preciso esperar para ver como fica o turismo na região. E torcer pela paz, não por querer ir até lá, mas pelos que vivem lá.
ONU Turismo: ‘desafios geopolíticos’
O Barômetro do Turismo Global da ONU Turismo (World Tourism Barometer by UN Tourism) já apontava em maio de 2025 que “a demanda de viagens se mantinha sólida a despeito do aumento nos preços dos serviços turísticos e dos desafios geopolíticos”. O relatório, publicado quatro vezes ao ano, leva em consideração os dados mais recentes de turismo receptivo (chegada de visitantes estrangeiros) e emissivo (pessoas que saem de seus países para conhecer lugares no exterior).
Para 2026, a ONU Turismo previa um crescimento entre 3% e 4% das viagens no mundo, em comparação com 2025. Mas enumerava condições para isso ocorrer: desde que a Ásia e o Pacífico continuassem a se recuperar, as condições econômicas globais se mantivessem favoráveis, a inflação dos serviços seguisse diminuindo e os conflitos geopolíticos não se intensificassem. A reportagem especial do New York Times sobre tendências para este ano apontou também o encarecimento das viagens e a importância crescente da geopolítica.
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Sempre defendi que não dá para ir a um destino só para contar mais um na lista de visitados. Dá até dá, você pode argumentar; mas, na minha opinião, é uma viagem mais sem graça. Visitar cartões-postais sem se inteirar sobre a gente e a história local termina por não mostrar nada direito. Por isso, busco incluir na cobertura no Viagem a influência da geopolítica sobre o turismo, as tendências do setor e a cultura dos lugares abordados, para você não passar por lugar nenhum lugar de modo indiferente.
Em 2020, a pandemia de covid já havia mostrado outra face da história, que igualmente nenhum planejamento de viagem poderia prever. Até países considerados seguros foram tomados pela doença – quem não se lembra das cenas na Itália logo no começo da crise, antes do surgimento dos imunizantes? Ok, vacinas para viagem internacional resolvem a parte do problema quando o assunto é saúde. São Paulo e Rio de Janeiro, de onde saem a maior parte dos viajantes internacionais, contam com ambulatórios públicos para você checar se a carteirinha está em dia com o indicado conforme o destino escolhido.
Atualmente se informar é preponderante – antes de viajante, qualquer um é cidadão. Com a cobertura de Internacional, você se mantém em cima do lance e tomar decisões de viagem mais esclarecido sobre os acontecimentos mundiais. Sobre a meteorologia, Sustentabilidade mostra todo dia como teremos de lidar com imprevistos mais frequentemente. Minas Gerais, por exemplo, estava na nossa lista de lugares para viajar em março. Infelizmente, digo isso pela tragédia por que passa o Estado, teve de ficar para o futuro.