Quem sonha em cursar Medicina costuma chegar à faculdade carregando expectativas, muitas vezes construídas por séries, redes sociais e discursos romantizados sobre a profissão. A realidade, porém, tende a ser bem mais complexa. É o que relata Kamila Corrêa dos Santos, 23, estudante do sétimo período de Medicina da Universidade Anhembi Morumbi, em São José dos Campos, ao refletir sobre tudo o que gostaria de ter ouvido antes de iniciar a graduação.
“Eu achava que seria bem mais tranquilo. Aquela impressão estilo Grey’s Anatomy que todo mundo tem antes de entrar. Mas definitivamente não é isso”, conta. Segundo Kamila, mesmo em um curso baseado no PBL (Problem-Based Learning), metodologia ativa em que o aluno tem papel central no aprendizado, a rotina é intensa e se torna mais exigente a cada ano. “Eu não imaginava que poderia ser tão pesada.”
Um dos pontos que mais surpreenderam a estudante foi a autocobrança constante. “O próprio curso exige muito da gente, o que é justo, já que vamos lidar com vidas. Mas a pressão emocional é grande, principalmente para quem está longe da família.” Kamila veio de uma cidade pequena e precisou se adaptar à vida em um contexto urbano diferente, realidade comum entre estudantes de Medicina no Brasil.
Na prática, isso se traduz em uma rotina que muitas vezes ignora os limites pessoais. “A gente vai seguindo no automático e acaba negligenciando a saúde mental. Uma hora, a conta chega”, afirma. Para ela, o que faltou ouvir no início foi a importância de descansar, manter vínculos e construir redes de apoio dentro da faculdade. “Até hoje, não conheci um estudante de Medicina que não tenha tido algum problema relacionado à saúde mental.”
Pesquisas científicas confirmam o impacto do estresse na formação médica. Em um estudo com estudantes de Medicina de uma universidade particular de São Paulo, publicado na Revista Extensão, pesquisadores identificaram que a maioria dos participantes relatou qualidade de vida moderada e insatisfação com o sono, além de evidências de associação entre depressão e sofrimento emocional.
Como é, de verdade, a rotina na Medicina
Longe da ficção, a rotina envolve aulas em diferentes períodos do dia, estudo contínuo e atividades extracurriculares que pesam no currículo. “Não dá para passar um dia sem estudar, principalmente no PBL. Existe preparo antes da aula, discussão em grupo e, depois, mais estudo para corrigir as falhas.”
Além disso, Kamila participa de ligas acadêmicas, faz iniciação científica, escreve artigos e já foi autora de livro médico, atividades valorizadas em processos seletivos de residência, conforme orientações de instituições como a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM).
Ainda assim, ela defende a importância de reservar pequenos espaços para si mesma. “Nem que seja uma hora de academia ou ver um filme. Se não tiver isso, você surta. ”
No início do curso, um erro comum foi subestimar a necessidade de organização. “Demorei para entender o PBL e encontrar minha forma de estudar. A gente não tem alguém dizendo exatamente o que fazer, como no cursinho.” Essa transição do vestibular para a graduação costuma ser um choque para muitos calouros.
Outro aprendizado veio com o tempo: evitar comparações. “Quando você está cercado de pessoas muito competitivas, isso mina a autoestima. Hoje, escolhi me cercar de quem apoia.”
Vale a pena?
Kamila admite que já pensou em desistir, mas encontrou força na própria história e no apoio da família. “Lembro da Kamila criança, sonhando em ser médica, e dos sacrifícios dos meus pais. Isso me faz continuar.”
A visão romantizada da profissão também ficou para trás. “Não é verdade que o médico trabalha pouco e ganha muito. O retorno vem proporcional à dedicação. É abrir mão de fins de semana, datas especiais e descanso.” Para ela, Medicina só faz sentido quando exercida “com o coração”.
Para quem está começando, Kamila aconselha: “Não se compare. Teste formas de estudar até encontrar a sua. Vai errar, e tudo bem.” A estudante reforça que a faculdade não define toda a identidade do aluno. “Existem outras versões de você além do estudante de Medicina. Não as deixe de lado. ”
Para vestibulandos e famílias, a mensagem é confiar no processo e oferecer apoio. “O caminho de cada um é diferente, mas o importante é não desistir. E, para a família, paciência e presença fazem toda a diferença.”