Oinegue: A história não segue os comentaristas
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Oinegue: A história não segue os comentaristas

Esse é o momento mais perigoso da história do Oriente Médio? Tem risco de atentado terrorista na Europa ou então de uma capital europeia ser bombardeada? E uso de arma nuclear? Pode virar a Terceira Guerra Mundial?

É muito compreensível que você faça essas perguntas, nada mais natural. Afinal, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, mataram o Aiatolá Ali Khamenei. Ninguém menos do que o Líder Supremo da Revolução, topo do topo do sistema de comando religioso, político, legal, moral, tudo. Natural que as perguntas desse tipo apareçam.

Mas cuidado. Redobrado. Porque existe um vício quase irresistível que atinge muito analista, que é tentar prever o que vai acontecer, sendo que o conflito mal começou, ninguém sabe onde vai dar. Ah, mas dá para explicar o que pode acontecer. Dá. Mas isso abre um leque tão absurdo, porque muitas das perguntas acabam aceitando respostas opostas. Você pode ter um analista que enxergue risco de atentado terrorista na Europa, outro não. Quem é que tem bola de cristal para bancar essa ou aquela posição?

No passado, a pressão por respostas era menor, mas daí veio a cobertura de guerra em tempo real, começou na Guerra do Golfo. E isso acaba criando uma pressão permanente por conclusão e essa pressão pode levar a análises capengas.

Imagina um analista de guerra em 1941 tentando tirar conclusões precipitadas, vai, sobre a guerra. Ele observa a Alemanha nazista guerreando há dois anos, desde 1939. E aí ele vê assim: a Polônia caiu em três semanas, a França caiu em seis, os tanques de Hitler estão nos arredores de Moscou. A Alemanha vai vencer a guerra, né? Só que a história não segue os comentaristas. E a Alemanha perdeu a guerra.

Pega a Guerra do Yom Kippur, 1973. Durou só 18 dias. A gente está no dia 2 de março? 18 dias é como se a guerra acabasse no próximo dia 17. Rápido. Só que os efeitos da Guerra do Yom Kippur desenharam a economia mundial por mais de 15 anos. Porque os países produtores árabes usaram o petróleo como arma geopolítica pela primeira vez. O preço do barril quadruplicou.

Pode acontecer também o contrário. Você pega uma guerra longa, guerra Irã-Iraque, 8 anos. Um dos conflitos mais longos, mais letais do século XX. Guerra de trincheira, centenas de milhares de mortos, durou muito e no final, você pega as fronteiras, elas voltaram mais ou menos ao ponto de partida. Então você tem guerra curta com efeito duradouro, guerra longa com efeito menor do que o esperado ou previsto. Vai tentar arriscar.

O Oriente Médio, ele cria inclusive uma camada de complexidade adicional, porque é o cruzamento de impérios desaparecidos, fronteiras artificiais, rivalidades religiosas milenares, interesses geopolíticos... é complicado.

O especialista em Oriente Médio, Fred Halliday, já falecido, ele advertiu numa frase sensacional. Precisão cirúrgica. Ele disse: 'O Oriente Médio é uma região que desafia previsões não porque seja incompreensível, mas porque as variáveis relevantes raramente são as que os analistas identificam enquanto os eventos estão acontecendo'. Por isso, atenção aos fatos, sim. Calma com as conclusões.