Guerra no Oriente Médio cresce com múltiplos fronts e ataques entre Israel e Hezbollah; ações do Irã aumentam tensão com Europa
Conflito se espalha pela região em momento que liderança americana e iraniana discordam sobre abertura de processo de diálogo para normalização
Por O Globo, com agências internacionais — Teerã, Tel Aviv e Washington
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GERADO EM: 02/03/2026 - 08:42
Tensões Explodem no Oriente Médio: Israel e Hezbollah em Conflito Intenso
O conflito no Oriente Médio intensificou-se após ataques de Israel ao Líbano, em resposta à retaliação do Hezbollah pela morte de Ali Khamenei. Enquanto EUA, Israel e Irã se enfrentam, a situação complica-se com a hesitação sobre negociações de paz. Explosões foram relatadas em várias regiões, incluindo Teerã e Beirute, com vítimas civis e militares. O presidente Donald Trump sinalizou abertura para diálogo, mas autoridades iranianas negam.
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A guerra entre EUA, Israel e Irã, iniciada no sábado com o ataque conjunto americano-israelense contra o território da nação persa, cresceu em extensão entre a noite de domingo e a madrugada desta segunda-feira, com as confirmações dos ataques trocados pelas Forças Armadas do Estado judeu e o Hezbollah, grupo libanês aliado de Teerã por meio do "Eixo da Resistência", e do bombardeio de drones iranianos a uma base do Reino Unido no Chipre — país insular na fronteira geográfica e cultural entre Ásia e Europa. A escalada ocorre em um momento sem espaço para o diálogo, com autoridades iranianas rejeitando uma suposta abertura de conversas com Washington, e representantes militares dos dois países afirmando estar prontos para uma guerra prolongada, com o próprio Donald Trump se dizendo disposto a mandar tropas ao solo "se necessário".
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O Hezbollah lançou foguetes contra o território israelense durante a madrugada, rompendo um frágil cessar-fogo mantido desde o último confronto de alta intensidade entre os inimigos históricos, em uma ação que a liderança do movimento afirmou ser uma retaliação pela morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Sirenes de emergência soaram por Israel, sobretudo no norte do país, com os militares realizando uma operação dupla de interceptação e ataque aéreo contra o Líbano.
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Os bombardeios israelenses ao norte atingiram regiões de Beirute e no sul libanês. Ao todo, as Forças Armadas israelenses afirmaram ter atingido mais de 70 alvos ligados ao Hezbollah. Mortes foram relatadas na cidade de Tiro, ao sul, e em outras partes do país. Autoridades militares disseram que os alvos eram o alto comando do grupo, considerado uma organização terrorista por Israel, com o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmando que o secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, "vai terminar como Khamenei". O Exército israelense confirmou a morte do chefe da inteligência do grupo, Hussein Moukalled.
O governo do Líbano, que não entrou em guerra com Israel durante os confrontos recentes entre o Estado judeu e o Hezbollah, condenou de forma oficial os ataques lançadas contra o país vizinho a partir do seu território. O primeiro-ministro Nawaf Salam afirmou que tal tipo de decisão cabe apenas ao Estado, e pediu a proibição das atividades militares do movimento xiita.
A entrada do Líbano na lista dos países diretamente afetado pelos enfrentamentos militares desde os primeiros ataques no sábado aumenta o temor de que o conflito se aprofunde ainda mais. A retaliação maciça do Irã após ser bombardeado alcançou praticamente todos os países da região, com novos incidentes envolvendo interceptações de projéteis e alvos atingidos em uma vasta região, incluindo Arábia Saudita, Bahrein e Jordânia nesta segunda-feira. A Embaixada americana no Kuwait foi alvo de drones, e aviões americanos caíram no país, no que foi descrito pelo comando militar dos EUA como um caso de "fogo amigo". Em Omã, uma pessoa morreu após um navio-petroleiro ser atingido por um drone naval iraniano.
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Lideranças de países do Golfo se reuniram no domingo e anunciaram que se reservam a responder ao que consideram ataques diretos iranianos. Teerã afirma que os ataques se limitam a alvos americanos e retrata a resposta como um movimento legítimo a uma "declaração de guerra aos muçulmanos". Por outro lado, infraestrutura civil tem sido atacada. O Catar afirmou que uma central elétrica foi atingida por drones do Irã, e que abateu dois bombardeiros iranianos SU-24.
A Guarda Revolucionária Iraniana vem operando sob intensa pressão dos ataques conjuntos de EUA e Israel. O comando militar afirmou ter lançado um ataque com mísseis ao Gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Não há confirmação de danos por parte do Estado judeu, que já acusou os iranianos de investirem em uma guerra de propaganda — no sábado, a Guarda Revolucionária disse ter atacado o porta-aviões americano Abraham Lincoln com quatro mísseis, informação que depois foi rejeitada pelo Pentágono, que afirmou que os projéteis sequer estiveram perto da embarcação. Ao todo, Teerã disse ter atacado 500 alvos inimigos desde sábado.
Enquanto isso, novos ataques são registrados em Teerã. Fortes explosões foram ouvidas em vários bairros da capital. Testemunhas no solo afirmaram que as explosões sacudiram apartamentos nas zonas central e leste da capital.
Até o momento, os EUA confirmam a morte de seis militares, quatro deles em uma base no Kuwait. Israel anunciou que nove pessoas morreram em um ataque iraniano no centro de Israel. No Irã, 555 pessoas morreram até o domingo, segundo balanço do Crescente Vermelho.
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Tensões chegam à Europa
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Cerca de 70 veículos deixaram a área da base de Akrotiri, na costa sul do país, segundo fontes locais, após o ataque de um drone iraniano. O governo cipriota comunicou posteriormente ter interceptado outros dois drones que seguiam em direção à base.
O ataque iraniano foi lançado após o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciar ter autorizado os EUA a usarem as bases do Reino Unido na região para "ações defensivas" — citando bombardeios ao programa de mísseis iraniano. O premier trabalhista afirmou que o país não se somaria a nenhuma ofensiva, e disse em discurso na Câmara dos Comuns que o país não está em guerra. Em entrevista ao The Daily Telegraph, Trump disse estar "decepcionado" com Starmer, afirmando que o líder trabalhista demorou muito para conceder ao pedido americano. Starmer rebateu as críticas de Trump ao falar com os deputados britânicos, alegando que as ações do país precisariam ter "base legal".
A resposta europeia ao ataque americano-israelense ao Irã foi mista. Autoridades espalhadas pelo continente pediram contenção de todas as partes envolvidas, mas uma série de lideranças, incluindo o presidente da França, Emmanuel Macron, e a chanceler da União Europeia, Kaja Kallas, classificaram a morte de Khamenei como um marco. Houve manifestações de preocupação com a desestabilização trazida pelo conflito, mas a maioria rejeitou discutir a legalidade dos ataques americanos, condenando apenas a retaliação massiva do Irã.
Outros se propuseram a se somar a ações defensivas à retaliação iraniana. O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noel Barrot, anunciou nesta segunda-feira que o país está preparado para defender os países do Golfo e a Jordânia dos mísseis e drones iranianos, se necessário. A Grécia enviou duas fragatas e dois caças F-16 para o Chipre após o ataque à base do Reino Unido, e prometeu defender o país em caso de agressões externas.
A movimentação europeia é acompanhada de perto por Israel. O embaixador israelense em Berlim, Ron Prosor, que apontou para os ataques desta segunda-feira à estrutura britânica como um sinal de que Teerã está tentando implicar os europeus neste conflito.
— Espero que a Europa veja isso e responda de acordo. A forma como responderá é uma decisão que será tomada na Europa — disse o embaixador, criticando os países europeus pela tolerância com o regime iraniano e o espaço para negociações. — Durante 47 anos, este regime de aiatolás negociou com a Europa, contando histórias das Mil e Uma Noites, essencialmente manipulando a Europa.
Guerra prolongada
Guerra prolongada
Em um pronunciamento à imprensa em Washington, Trump afirmou que a operação contra o Irã foi projetada para durar entre quatro e cinco semanas, mas que poderia ser ampliada se fosse preciso — corroborando declarações anteriores de alguns de seus comandantes militares, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, que afirmaram que o cumprimento dos objetivos poderia se prolongar.
Um dia antes, Trump havia dito que a nova liderança do Irã teria comunicado que desejava dialogar, e disse estar disposto a fazê-lo. A narrativa foi contestada por Teerã na manhã desta segunda, com o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, Ali Larijani, afastando a possibilidade de uma tratativa diplomática, e acrescentando que o "pensamento ilusório" de Trump teria arrastado a região para uma guerra desnecessária.
Larijani também afirmou que o país está preparado para "uma guerra longa" — em um comentário que coincide com a declaração americana sobre a continuidade do conflito. Analistas apontam que os dois países teriam desafios para manter as estratégias à medida que o confronto se estende, sobretudo no que diz respeito ao estoque de mísseis (Irã) e munição para baterias antiaéreas (EUA/Israel), consumidas em um ritmo superior à capacidade de reposição.
No Pentágono, Hegseth afirmou que os EUA não estão lançando no Irã uma nova guerra no estilo da invasão do Iraque, que prendeu o país em um conflito de 20 anos, duramente criticado por Trump ao longo dos anos. As sugestões de Trump e Hegseth de que tropas poderiam pisar em solo iraniano, porém, é um cenário que certamente enfrentaria resistência dentro do país, uma geração após o início das guerras ao terror. (Com NYT e AFP)