Paula Azevedo: o museu de todos os brasileiros
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Paula Azevedo: o museu de todos os brasileiros

Para a gente foi uma validação de um trabalho de quase 20 anos, mas também de quatro anos de maturidade institucional”, afirma em entrevista à Coluna.

E completa, apontando para o que considera o eixo central dessa nova fase: “O Inhotim deixa de ser personalista para ser o museu de todos. Não é mais o museu do Bernardo (Paz, seu fundador). O Bernardo é essa grande figura que deixou um legado para o mundo. Inhotim vai sobrepassar todos nós.

A mudança não foi circunstancial. Segundo Paula, o próprio fundador abriu o debate sobre sucessão no pós-pandemia. “Partiu dele esse desejo de institucionalização. A partir da doação das obras, da formação de um novo conselho deliberativo trazendo a sociedade civil para perto e da sustentabilidade financeira, estruturamos um pilar de transformação.”

O conselho hoje reúne representantes de sete estados brasileiros. “Não é um museu mineiro ocupado por uma presidente paulista.”

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Essa reorganização estrutural veio acompanhada de método. “A gente fez um programa que chamou de três P’s: ‘pessoas’, ‘programação’ e ‘planejamento’. ‘Pessoas’ porque são elas que fazem aquele lugar todos os dias, visitante e colaborador. ‘Programação’ porque não é só ver os pavilhões, é ativar uma agenda relevante. E ‘planejamento’ porque quem não mede e não gere, não sobrevive.” E os resultados aparecem. “Inhotim bateu recorde histórico em 2025, com mais de 360 mil visitantes. É um número super relevante, lembrando que é museu de destino, não é museu de passagem.” Mais da metade do público entrou gratuitamente, com políticas de acesso ampliado. Ao mesmo tempo, a sustentabilidade financeira avançou. “A gente passa de cerca de 45 milhões para mais de 90 milhões em orçamento.

Hoje é um museu com autonomia financeira.” Autonomia que não é simples, considerando a escala. “São 140 hectares, praticamente o tamanho do Ibirapuera. São mais de 60 km de tubulação, 11 subestações de energia, tratamos 100% do esgoto e da água. Não é só uma operação de exposições. É um microcosmo.

Aos 50 anos, diz viver um momento de síntese. “Chegar aos 50 foi uma coisa de mulher autônoma, segura do projeto que escolheu. Escolhi esse projeto. Quero fazer esse museu ser de todos e para todos e uma referência global.” E volta ao ponto da governança: “O que a gente criou em termos de gestão pode ser replicado. É uma fórmula que funciona.”

Essa liderança, segundo ela, tem características que associa ao feminino — menos hierárquica, mais voltada à mediação e à capacidade de lidar com frentes simultâneas. “A gente equilibra muitas bolas ao mesmo tempo. É entender qual é a bola da vez e seguir tocando com todas as outras no ar, sem deixar cair.” A metáfora resume um cotidiano de decisões estratégicas, gestão de equipe, captação de recursos e articulação institucional. Ao mesmo tempo, ela reconhece o custo desse arranjo permanente: “Como manter a saúde mental nesse multitasking a longo prazo é uma dificuldade.

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Para ela, esse alcance externo só faz sentido porque está ancorado no território. O impacto não se limita ao circuito artístico nem ao prestígio internacional. “A influência social e econômica do Inhotim no território é fundamental.” O efeito é visível no turismo, na expansão da rede hoteleira e na melhoria dos acessos; a consolidação institucional trouxe previsibilidade e segurança para investimentos na região. Hoje, cerca de metade do público é mineiro — um dado que ela destaca como sintoma de pertencimento. “O mineiro tem muito orgulho do Inhotim e traz a pessoa de fora.”

O ano comemorativo do aniversário de 20 anos reforça essa dimensão pública. “Em abril abrimos Dalton Paula, David Nascimento e Lais Myrrha. Em outubro, inauguramos a galeria do Cildo Meireles e retomamos ‘The Murder of Crows’, da Janet Cardiff.” Com um ano restante de mandato, Paula já projeta o futuro.