Opinião | Os cenários do futuro próximo no Irã
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Opinião | Os cenários do futuro próximo no Irã

Líder supremo do país foi morto em ataques feitos pelos Estados Unidos e Israel. Crédito: IRINN (Rede de Notícias da República Islâmica do Irã)

Gerando resumo

Ali Khamenei, Supremo Líder do Irã, foi morto pelos ataques aéreos realizados por Israel e EUA. As autoridades israelenses reivindicam a morte de dezenas de líderes e comandantes militares iranianos, em um ataque de decapitação com poucos precedentes na História. Trata-se da primeira vez em que um líder de um Estado foi morto pelo ataque aéreo de outro país. Diante desse cenário, resta analisar as possíveis consequências e desdobramentos dos ataques iniciados na manhã desse sábado.

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Duas variáveis principais precisam ser analisadas. Diga-se “principais” pois, por razões de espaço, não é possível analisar-se tudo em um só texto. Uma variável é sobre a duração do conflito e a outra sobre o futuro do regime da República Islâmica do Irã, e ambas se correlacionam. Primeiro, uma análise sobre a possível duração do conflito. Dado o escopo do ataque de decapitação, a hipótese de uma escaramuça quase teatral, como ocorrida em 2024, com ataques telegrafados em que cada ator envolvido simplesmente buscou salvaguardar a reputação, pode ser descartada. Agora, mesmo em caso de conflito curto, as consequências serão duradouras.

O conflito pode ter curta duração, como o do ano passado, que durou doze dias, e intenso. Um dos possíveis indicadores nesse sentido poderá ser sentido na segunda-feira, com a abertura dos mercados globais. Não é uma coincidência que as ações do governo Trump sejam realizadas após o fechamento das bolsas nas sextas-feiras. Trump e seus associados são diretamente interessados nisso. Caso os mercados abram em profunda queda na segunda-feira, Trump pode querer pisar no freio.

Isso explica parte da retaliação iraniana aos ataques. Além de disparar mísseis contra Israel e contra bases dos EUA pela região, os iranianos também dispararam mísseis e drones contra o território de monarquias árabes do Golfo. Isso potencialmente terá efeitos econômicos grandes, prejudicando grandes hubs da aviação e do turismo global e alguns dos principais produtores de petróleo do mundo. Também busca repetir o raciocínio de Saddam Hussein durante a Guerra do Golfo, em 1991.

Naquela ocasião, o ditador iraquiano disparou mísseis contra Israel, acreditando que, caso os israelenses retaliassem, os países árabes abandonariam o apoio aos EUA. Ao atacar os países do Golfo, o Irã busca colocar essas monarquias do mesmo lado que os israelenses, o que teria um prejuízo político. Não foi o que aconteceu para Saddam naquela ocasião e dificilmente acontecerá agora para os iranianos. Mesmo causando prejuízos econômicos que alterem o curso do conflito, a ação iraniana já alienou as monarquias árabes, jogando no lixo os anos recentes de aproximação entre o Irã e, especialmente, sauditas. A Turquia, que tentou mediar conversas amplas entre os países da região e os EUA, protestou não apenas contra os ataques israelenses mas também contra a reação iraniana.

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Outro motivo para Trump ficar de olho nos mercados na segunda-feira é o fato de que ocorrerão eleições legislativas nos EUA neste ano. Sua popularidade já está em queda e seu eleitorado era crítico das “guerras eternas” no Oriente Médio. A última coisa que Trump precisa para as eleições é inflação e aumento do preço dos combustíveis. Parte dos MAGA, seu próprio eleitorado, eram alguns dos maiores críticos a uma guerra com o Irã. O próprio Trump acusava Obama de querer uma guerra com o Irã por razões eleitorais.

O que explica a mudança de posição de Trump, então? Diversionismo interno, pensando no escândalo Epstein, que já faz cabeças rolarem pela Europa, e a aliança com Israel, que também possui um grande impacto em setores do eleitorado de Trump que enxergam as relações com Israel não sob uma ótica de relações entre Estados, mas sob vieses proféticos bíblicos fanáticos. Tal como alguns atores no Brasil, diga-se. O governo Netanyahu, e o premiê israelense individualmente, são alguns dos maiores beneficiados pelos ataques, reivindicando para seu público, em ano de eleição, não apenas vingança pelo sete de outubro, mas que teriam, então, neutralizado o maior rival israelense na região.

O governo israelense buscou dar um verniz de legitimidade às suas ações, classificando de “ataque preemptivo”, conceito inexistente no Direito Internacional e utilizado por toda a História para justificar ideologicamente um conflito. Os próprios EUA já fizeram isso mais de uma vez, contra os britânicos em 1812 e contra o Iraque em 2003. A ideia de que uma agressão iminente precisa ser contida de forma justa e legítima, vide a narrativa das “armas de destruição em massa”, no citado ano de 2003.

E se, em nome de seus interesses políticos, Trump decidir que o impacto nas bolsas não é significativo e que as ações militares devem continuar? O que é perfeitamente plausível, já que a concentração de meios militares pelos EUA na região é a maior desde a invasão do Iraque. Isso requer um profundo planejamento. Nesse caso, o objetivo de Israel e dos EUA seria a queda da República Islâmica, a partir do vácuo do ataque de decapitação.

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    Nesse caso, o regime basicamente se manteria, talvez ganhando contornos ainda mais repressivos, com Khamenei elevado a mártir nacional, tal como Soleimani. O vácuo também pode ser preenchido pelos reformistas. Na semana passada, Javad Zarif, ex-ministro de Relações Internacionais e importante líder reformista, publicou um poema em homenagem aos mortos pela repressão. Essa solução possivelmente é a que mais agradaria países vizinhos, evitando um total colapso iraniano e triunfo completo israelense. Essas hipóteses também poderiam evitar um conflito mais longo.

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    Para isso ser possível, a GRI teria que “perder os anéis para manter os dedos”, e poderia haver questionamento interno, tanto da linha-dura, acusando os reformistas de serem fantoches de estrangeiros, quanto de parte dos manifestantes, que defende uma queda total do regime. O que seria a terceira opção, com a diáspora iraniana favorecendo Reza Pahlavi, herdeiro da dinastia que governou o Irã. A questão é que o retorno da monarquia passa longe de ser uma unanimidade dentro do Irã.

    Um dos motivos da diáspora iraniana apoiar tanto Pahlavi é o fato da maioria da diáspora ter origem justamente em simpatizantes e integrantes da monarquia que deixaram o Irã após a Revolução de 1979. Finalmente, a quarta opção, a mais delicada. O Irã possui um aparato de Estado consolidado, que permitiria sucessões e substituição até mesmo do Supremo Líder. Ao mesmo tempo, há um enorme descontentamento popular com a crise econômica, com a repressão, com as milhares de mortes, com a repressão de gênero. Junte-se ao fato de que o Irã é um país geograficamente grande, com população grande e diversa.

    Tudo isso pode se chocar em um cenário de guerra civil e esfacelamento do tecido social, com conflitos entre defensores do atual regime e monarquistas, ou com movimentos separatistas, sejam eles curdos, árabes, túrquicos-azeris ou baluchis, apoiados por outros países, como Azerbaijão ou Paquistão. Isso transformaria o Irã em uma versão ainda maior do atual Iraque. E todos esses quatro cenários estão ligados à possível duração do conflito.

    Um novo governo reformista poderia levar ao fim rápido do conflito, enquanto uma guerra interna iraniana poderia até encerrar a participação dos EUA no conflito, mas poderia se arrastar por meses, até anos. O Irã não é um país simples e monolítico como algumas pessoas ideologicamente pensam. São cem milhões de pessoas, de diversas etnias e grupos de interesses. A realidade é mais complicada, e apresentar essa miríade de possibilidades é apenas honestidade com o leitor.

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    Isso sem entrar em pontos como a opacidade sobre o atual estado da capacidade militar do Irã, já que não se sabe a extensão dos danos causados pelos ataques israelenses ou se a China forneceu novos armamentos no último ano. Ou, ainda, a diminuta capacidade iraniana em contar com seus proxies pela região, já que o Hezbollah libanês está enfraquecido e as milícias iraquianas estão mais preocupadas em extorquir comerciantes locais do que em operar como uma unidade de combate.

    Também é necessário destacar que, apenas horas antes do ataque, o ministro de relações exteriores do Omã, Sayyid Badr Albusaidi, que mediava as conversas em Genebra, apareceu na televisão dos EUA e falou com o vice-presidente JD Vance, em uma última cartada diplomática. Quem falar que não existiria uma saída diplomática está mentindo. O que houve foi uma opção pelo conflito, uma escolha consciente e conveniente para Netanyahu, para Trump e para a linha-dura iraniana. A guerra é, sempre, uma escolha humana.