Em ato com forte apelo eleitoral, Flávio ataca presidente Lula, pede impeachment de ministros do STF e anistia para o pai
Discursos em 'clima de campanha' incluíram críticas ao governo federal e ao Supremo, mas alguns dos representantes da direita evitaram ataques diretos a integrantes específicos da Corte
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GERADO EM: 01/03/2026 - 18:07
Flávio Bolsonaro defende impeachment de ministros do STF em SP
Em um ato com tom eleitoral na Avenida Paulista, o senador Flávio Bolsonaro atacou o presidente Lula e defendeu o impeachment de ministros do STF, sem nomear diretamente, mas com críticas ao governo federal. Pedidos de anistia para Jair Bolsonaro e condenados do 8 de janeiro também foram tema. O evento reuniu figuras da direita, como Silas Malafaia e Nikolas Ferreira, com discursos acalorados contra a Suprema Corte.
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Em clima de comício, vários dos principais representantes da direita brasileira, entre eles o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à presidência da República, participaram neste domingo de um ato na Avenida Paulista, em São Paulo. O ato também contou com a participação de outros dois pré-candidatos ao governo federal, os governadores de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e de Goiás, Ronaldo Caiado (União).
Manifestações em oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao Supremo Tribunal Federal (STF), e em defesa da liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ocorreram de forma simultânea em pelo menos 33 cidades do país, entre elas 21 capitais como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre, Recife e Salvador.
Último a falar do alto do caminhão de som instalado nas proximidades do Masp, e principal estrela do evento, Flávio participou de seu primeiro ato de larga escala desde que foi apontado por Jair Bolsonaro como pré-candidato à presidência da República.
O senador utilizava um colete à prova de balas — assim como seu pai fazia em manifestações do tipo — ao pegar o microfone para discursar na Avenida Paulista, que tinha cerca de dois quarteirões ocupados por manifestantes vestidos de verde e amarelo ou com camisetas brancas com a frase "Acorda, Brasil".
Antes do discurso, foi exibido um vídeo com tom de campanha criticando Lula, sobretudo em relação às políticas de segurança pública e aumento de impostos. O vídeo também criticou o programa Vale Gás e outros benefícios sociais, dizendo que “a conta vai chegar”. De início, Flávio fez questão de dizer que esse não era "um ato eleitoral”, porque havia dois pré-candidatos juntos no trio elétrico — Caiado estava ao seu lado neste momento, enquanto Zema, que já havia discursado antes, havia ido embora.
— Não estamos disputando voto, estamos pensando no que é melhor para o nosso país — falou o senador, que em seguida passou a comparar as políticas de Lula às de Bolsonaro.
Logo em seguida, Flávio se dirigiu para os jovens, falando da lei sancionada pelo pai em 2022 que permitiu a renegociação de dívidas do Fies, e fez uma fala dedicada para as mulheres, segmento no qual o bolsonarismo tem mais rejeição. Ele fez referência ao aumento de casos de feminicídios e também às mães de baixa renda, que são beneficiárias de auxílios como o Bolsa Família.
— Eu sou casado e sou pai de duas princesinhas, e eu imagino a dor dessas famílias que têm uma mulher agredida ou assassinada por um covarde. E a gente não vai mais tolerar isso nesse país, porque as mulheres serão abraçadas e protegidas, sem hipocrisia. E para você que recebe o Bolsa Família, na época do Bolsonaro, no meio da pandemia, para que as pessoas tivessem o que comer, ele passou o Bolsa Família para R$ 600, quem era mãe solo ganhava em dobro, o Bolsonaro estendia a mão para as pessoas que mais precisavam — falou.
Depois, ele fez críticas ao STF de maneira genérica, sem nomear ministros, mantendo o tom moderado que vem adotando nas últimas semanas, e se diferenciando dos discursos de seus pares que haviam falado antes, como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Silas Malafaia, que fizeram críticas contudentes aos integrantes da Corte.
— Todos nós somos favoráveis ao impeachment de qualquer ministro do STF que descumpra a lei. Isso só não acontece hoje porque ainda não temos a maioria no Senado, mas o povo brasileiro vai ter a oportunidade, nesse ano, de escolher candidatos que se comprometam com o resgate da nossa democracia. O nosso alvo nunca foi o Supremo, nós sempre dissemos que o Supremo é fundamental para a democracia. Mas estão destruindo a democracia, a pretexto de defendê-la, para atingir Jair Bolsonaro – discursou Flávio.
As manifestações deste domingo foram convocadas pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) com o mote “Fora Lula, Moraes e Toffoli”. O objetivo principal era endurecer a oposição ao governo federal e aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, do STF.
Vários parlamentares que subiram no trio fizeram alusão às eleições de outubro, ainda que não tenha havido pedido explícito de votos. Nikolas, em seu discurso, afirmou que “tirar o PT neste ano não é responsabilidade apenas de um homem”, olhando para Flávio, e também acionou para as mulheres.
Entre os manifestantes, havia algumas pessoas usando bonés com a frase "Flávio Bolsonaro 2026", e a chegada do senador foi a mais celebrada pelos apoiadores, que formaram uma multidão para tirar fotos com eles. Ao fim do ato, quando o filho de Bolsonaro acenou para a multidão do trio elétrico, ouviu gritos animados de "mito, mito", o mesmo adjetivo que os bolsonaristas usam para o pai.
Caiado, por sua vez, também acenou ao eleitorado ao prometer "anistia plena e irrestrita" aos condenados pelos atos golpistas, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, caso seja eleito presidente. Ele exaltou os dados de segurança pública de Goiás e disse que "lá é segurança plena" e que tem a melhor polícia "porque ela não usa câmera", e que assim será no Brasil se ele "chegar lá", na presidência da República.
— Flávio Bolsonaro, meu amigo senador e pré-candidato, e governador Zema, nós estamos com o mesmo objetivo. Aquele que chegar lá, o primeiro ato será a anistia plena, geral e irrestrita no primeiro de janeiro de 2027. O recado está dado — falou.
Zema falou que o Brasil “não aguenta mais essa farra dos que estão em Brasília e acham que estão acima das leis”, mas não citou diretamente nenhum ministro do STF ou autoridade da República.
— Vamos estar aqui quantas vezes forem necessárias, deve ser a minha sexta, sétima vez aqui, se for preciso venho 50 para acabar com esses intocáveis. Eles têm medo da verdade, nós não ficaremos passivos, quietos, assistindo. Não vamos permitir, o Brasil está inconformado com tudo o que vem acontecendo. Ninguém no Brasil é intocável, acorda, Brasil! — disse.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), também adotou tom de comício ao citar Flávio e Tarcísio em sua fala, destacando que "o time está escalado". Na sexta, o prefeito almoçou com o senador e já havia anunciado o apoio ao filho do ex-presidente.
— O Flávio está escalado, o time está sendo montado e agora a gente está em jogo para ganhar de lavada e fazer uma grande vitória da verdadeira democracia, da liberdade, com o avanço do Brasil contra a corrupção. Eu e Tarcísio, e muita gente aqui de São Paulo vai estar trabalhando dia e noite para resgatar o orgulho dessa bandeira. Eu vou estar aqui trabalhando duro, o time está instalado, o Flávio está escolhido e vamos com tudo para resgatar o nosso país — disse.
Dos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro participou do ato com uma breve mensagem por videoconferência, na qual falou explicitamente sobre eleger o irmão Flávio Bolsonaro para “conseguir a justiça”.
— Vocês estão fazendo valer a pena todo o sacrifício. Agradecer a todos vocês, com certeza o recado fica cada vez mais forte, e nós preferimos as lágrimas da derrota à vergonha de não ter lutado. A eleição é só a ferramenta, o caminho mais rápido para levar à justiça, se Deus quiser com a eleição de Flávio Bolsonaro presidente e de deputados federais e senadores valentes. Posso contar com vocês aí da Avenida Paulista? — disse.
Principal alvo dos ataques, Lula foi criticado sobretudo em relação às políticas de segurança pública, com a citação frequente da pesquisa que mostrou que cerca de 31 milhões de brasileiros vivem em regiões sob domínio do crime organizado, e com os dados sobre roubos de celular no país — mais de 850 mil casos em 2024.
Os representantes da direita que discursaram também atacaram Lula pelas fraudes no INSS, que ganhou novos contornos nesta semana, com a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho do presidente Lula, no âmbito da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS e também por decisão do ministro André Mendonça, do STF. O ato do ministro, que atendeu a pedido da Polícia Federal, é de janeiro, mas só veio a público após parlamentares também aprovarem acesso aos dados.
— Eu aprendi honestidade em casa, porque sou filho do Bolsonaro e não do Lula. O filho do Lula agora é acusado de estar na Europa gastando o dinheiro dos nossos aposentados. O seu dinheiro pode estar na conta do filho do Lula lá na Suíça. E nós, o povo, vamos tirar essa corja de Brasília — bradou Flávio.
Malafaia e Nikolas sobem o tom
Malafaia e Nikolas sobem o tom
Fugindo um pouco do roteiro eleitoral, o pastor Silas Malafaia protagonizou um dos discursos mais fortes contra o Supremo. Ele criticou o inquérito das fake news e chamou Moraes de “ditador”.
— A partir deste inquérito, o Alexandre de Moraes institui o crime de opinião no Estado democrático de direito. Alexandre de Moraes e Dias Toffoli têm que ser afastados do STF, não têm moral para julgar ninguém — disse o pastor.
Malafaia falou que Moraes usou “o inquérito ilegal e imoral das fake news para intimidar os auditores da Receita Federal, querendo saber quem vazou a informação do contrato”, fazendo referência ao contrato firmado pela esposa de Moraes, que é advogada, com o Banco Master.
— Senhor presidente do STF, ministro Fachin, se o senhor não tomar frente disso, o senhor está desmoralizado. É melhor você sair do STF e deixar Alexandre de Moraes cometer seus crimes e seus absurdos — acrescentou.
Na multidão, havia a presença de “pixulecos” de Moraes, Toffoli e Lula, e cartazes com expressões como “Fora Moraes”, “Bolsonaro livre” e “Delata Vorcaro - Toffoli na cadeia”, em relação ao banqueiro dono do Banco Master que é investigado em inquérito no STF.
Principal idealizador do ato, Nikolas fez críticas às políticas federais e também atacou a Corte Suprema.
— Nós estamos aqui por “fora, Lula”. Primeiro, este cara já está no poder há três mandatos, continua prometendo segurança para o país e hoje entrega milhões de brasileiros que estão sob comando do crime organizado. Um cara que gasta bilhões de reais para colocar no bolso de artistas da Lei Rouanet, para bancar jantares do STF. Falta caráter, falta homem de verdade para comandar este país — falou.
Ele ainda lembrou a CPI sobre os presos de 8 de janeiro e o projeto da dosimetria de pena, vetado por Lula e conclamou pela derrubada do veto. E, assim como Malafaia, nomeou Alexandre de Moraes em seus ataques, pedindo impeachment do ministro do STF.
— E nós estamos aqui pelo "fora Moraes". Alguém aqui um dia quer vir para a Paulista para comemorar o impeachment do Moraes? O destino do Alexandre de Moraes é a cadeia. Não é por birra política não — declarou Nikolas.
Outros parlamentares também fizeram discursos acalorados contra o ministro do Supremo. O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), por exemplo, falou por três vezes “fora, Alexandre de Moraes”. Já a deputada estadual de São Paulo Valéria Bolsonaro (PL) citou indiretamente os ataques dos Estados Unidos ao Irã, ao dizer:
— Trump já ajudou muito acabando com dois, agora falta mais um — falou.