Supersalários: juízes chegam ao topo como altos executivos de empresas privadas, mas por vias diferentes
Em vez de isonomias, gratificações por tempo de serviço, férias especiais e jornadas reduzidas com folgas convertidas em dinheiro, nas empresas pesam na remuneração metas e resultados ligados aos planos de expansão e sustentabilidade dos negócios em meio a desafios conjunturais e concorrência
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GERADO EM: 28/02/2026 - 20:36
Supersalários no Brasil: Juízes vs Executivos e Seus Caminhos Distintos
No Brasil, juízes e altos executivos recebem supersalários, mas por caminhos distintos. Juízes são agraciados com isonomias e penduricalhos, enquanto executivos são remunerados por metas e resultados. Apesar de ambos estarem no topo da pirâmide salarial, os salários de executivos dependem do desempenho financeiro das empresas, enquanto no setor público, a qualidade do serviço nem sempre reflete nos salários.
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Se não é difícil encontrar no Judiciário um contracheque de R$ 165 mil, mais de três vezes o teto do serviço público, uma remuneração equivalente a essa também é frequente nos pacotes de remuneração de altos executivos de empresas privadas no Brasil, segundo Mario Custódio, diretor de Recrutamento Executivo da consultoria Robert Half. Mas é algo para poucos numa mesma organização e com origem distinta.
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— Nas maiores, as companhias de capital aberto, listadas em Bolsa, com faturamento de bilhões de reais, essa faixa de remuneração seria a de alguma posição na diretoria executiva, numa função estratégica e relevante dentro da organização — explica o headhunter. — Já em uma empresa média, beirando seu R$ 1 bilhão de faturamento, poderia ser a remuneração de um CEO.
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Em vez de isonomias, gratificações por tempo de serviço, férias especiais, jornadas reduzidas com folgas convertidas em dinheiro e ajudas de custo de caráter indenizatório, formam o valor financeiro de um executivo as metas e resultados ligados aos planos de expansão e sustentabilidade dos negócios em meio a desafios conjunturais e concorrência. O salário está atrelado às condições financeiras da organização.
Na ótica empresarial, o foco está nos lucros. No setor público, a principal expressão dos resultados seria a qualidade dos serviços à população, mas não tem sido este o principal vetor dos supersalários na elite dos Três Poderes.
Especialistas em governança corporativa ouvidos pelo GLOBO destacam que o que ganham os gestores das maiores empresas está em grande parte condicionado ao cumprimento e à superação de metas individuais e corporativas. Cerca de metade da remuneração total vem de um salário fixo. O restante é composto por bonificações variáveis.
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— Além do salário-base, há variáveis de curto prazo, incentivos atrelados a performance, por metas individuais ou da empresa, que podem ser percentuais ou múltiplos de salários. Há aceleradores. Se o resultado vier acima da meta, a variável é maior — enumera Custódio, da Robert Half, citando por exemplo opções de ações da empresa que o executivo pode conquistar. — E há os incentivos de longo prazo, que funcionam também como mecanismos de retenção.
Riscos calculados
Riscos calculados
Praticamente tudo no contracheque de um executivo está sujeito ao Imposto de Renda (IR). Não há verbas indenizatórias substanciais, embora dividendos de ações sejam isentos. Ficam fora benefícios corporativos, como veículo corporativo, plano de saúde de alto nível e eventuais auxílios, como moradia para profissionais que trocam de cidade para assumir uma empresa. A negociação da remuneração considera porte do negócio, salários dos concorrentes e riscos da operação, entre outros fatores. Em companhias de capital aberto, esse pacote anual depende ainda da chancela dos acionistas, destaca Daniella Fragoso, sócia de Direito Societário e Mercado de Capitais do BMA Advogados.
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— Toda remuneração do administrador depende de aprovação em assembleia geral de acionistas. Se negociam algo fora de padrão, os minoritários ou mesmo a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) questionam — ela conta, ressaltando que esses altos executivos costumam trabalhar em regime de “100% de dedicação”.
Se o gestor de uma empresa não entrega os resultados esperados, não há estabilidade no cargo. Perde-se a posição. Se o problema não for só de competência, mas envolver crimes, não há julgamento pelos pares ou aposentadoria compulsória com vencimentos, como se viu muitas vezes no Judiciário.
Daniella explica que riscos de tropeços na governança são levados em conta no pacote de remuneração de executivos com a contratação de seguros específicos para proteger os interesses da empresa. Cobrem custos do gestor com assistência jurídica e indenizações, desde que não tenha agido de forma intencional, mas não o livra da Justiça. Casos recentes de fraudes já levaram empresas a se opor a seus ex- líderes nos tribunais.
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— O seguro não cobre o executivo caso tenha agido com dolo ou culpa — diz a advogada, ressaltando a rigidez da Lei das SAs no país. — Para o executivo, há uma série de riscos quando se trabalha na iniciativa privada. Ele pode ser dispensado a qualquer momento. E há casos em que tem de responder com seu próprio patrimônio. No setor público, é mais difícil.
Na ponta da pirâmide
Na ponta da pirâmide
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CEOs de grandes companhias de capital aberto podem ganhar milhões por ano, a exemplo dos líderes de Itaú Unibanco (R$ 81,7 milhões) e JBS (R$ 63 milhões) em 2024. A remuneração média de CEOs das empresas do Ibovespa, principal índice da Bolsa, ficou perto de R$ 18 milhões em 2024, de acordo com levantamento feito por Renato Chaves, especialista em governança corporativa, em informações enviadas pelas companhias à CVM. Isso equivaleria a R$ 1,5 milhão mensais, não muito distante da realidade de alguns magistrados no país, calcula Sergio Gobetti, economista e pesquisador do Ipea:
— Quem ganhava acima de R$ 500 mil (por ano) em 2023 no Brasil estava entre o 0,75% mais rico da população adulta. Mas, na prática, a maioria dos servidores que ganham igual ou mais que o teto tem outras rendas, derivadas do seu patrimônio ou capital. Juízes, por exemplo, têm média superior a R$ 950 mil, com “penduricalhos” e rendas do capital, o que os coloca no 0,25% mais rico.
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Pedro Parente transitou no mais alto patamar da administração pública e privada. Foi ministro da Casa Civil e do Planejamento no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), presidiu a BRF e a Petrobras (de capital misto) e passou pelo conselho de muitos grupos. Ele vê risco de enfraquecimento das instituições em função de falhas e privilégios que, tolerados, reproduzem comportamentos indevidos em todo o sistema.
Desconexão
Desconexão
Parente aponta a desconexão entre a remuneração de altos servidores e a situação financeira de quem os paga, o Estado. Nas empresas, há um limite de quanto da receita pode ser usada para pagar a folha:
— No setor privado, há duas limitações práticas: a necessidade de dar lucros e a competitividade com valores pagos em cargos similares no mercado. O valor do salário, em geral, é sinal de mérito. São raras situações como a do (líder da Tesla, nos EUA) Elon Musk, com seu bônus de 1 trilhão de dólares, ainda assim sujeita a resultados compatíveis. Quando acontece, é acompanhada de outros descasos e, em geral, a empresa quebra.