Putin num beco sem saída
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Putin num beco sem saída

Quatro anos depois da invasão em larga escala, a guerra na Ucrânia tornou-se um retrato dos limites do poder bruto. Vladimir Putin apostou numa campanha relâmpago, e paga com um conflito prolongado, o mais sangrento na Europa desde 1945, já mais longo para a Rússia do que foi a 2.ª Guerra. O Kremlin não conquistou o que queria. A Ucrânia não foi derrotada. Mas Putin tenta travestir o impasse estratégico de vitória progressiva.

Moscou controla cerca de um quinto do território ucraniano, incluindo a Crimeia. Mas os avanços têm sido lentos e custosos. Em 2025, o ganho territorial foi inferior a 1%. As baixas russas, entre mortos e feridos, passam de 1 milhão, cifra que rivaliza com o efetivo ativo pré-guerra. A guerra de manobra deu lugar a uma guerra de atrito, na qual drones baratos e produção descentralizada transformaram o campo de batalha numa zona de negação permanente. A tecnologia achatou a vantagem inicial russa, mas não conseguiu quebrar o impasse.

A Rússia paga um preço estrutural. A demografia é adversa: país vasto, população envelhecida, dificuldade de reposição de tropas. A economia foi mobilizada para a guerra e, por um tempo, cresceu a golpes de gasto público. Hoje exibe sinais de tensão: juros altos, investimento externo rarefeito, distorções alocativas típicas de economias dirigidas. Não que se vislumbre um colapso, mas o desgaste é cumulativo. Num horizonte previsível, a vitória total é operacionalmente improvável. Ainda assim, o Kremlin insiste.

Eis o dilema de Putin. Ele apostou seu capital político num projeto imperial que se tornou existencial para o regime. Recuar significaria admitir um erro estratégico de proporções históricas. Vencer rapidamente não está ao seu alcance. Restou-lhe apostar no cansaço alheio. Se não pode decidir no campo, tenta decidir na percepção. Exagera ganhos, anuncia inevitabilidades, trabalha para induzir fadiga nas capitais ocidentais, e, de tempos em tempos, agita seu sabre nuclear. A única vitória plausível de Moscou pode não passar por Kiev, mas por Washington, Berlim ou Paris.

Ao mesmo tempo, o conflito comprimiu a margem de manobra internacional do Kremlin. Moscou tornou-se mais dependente de Pequim, vende energia com desconto, importa componentes estratégicos por vias indiretas e consolida uma economia cada vez mais subordinada ao complexo militar. Nada disso sinaliza a restauração de um império. É a adaptação de uma potência média a um horizonte mais estreito. A militarização permanente pode sustentar a guerra por algum tempo, mas cobra um preço crescente em produtividade, inovação e bem-estar.

Putin subestimou a sociedade ucraniana. A agressão russa é militar. A defesa ucraniana também. Mas ela é ademais e sobretudo cívica. Voluntários limpam escombros ao amanhecer, fabricam peças de drones em oficinas improvisadas, treinam socorristas, arrecadam recursos por plataformas digitais. Sob lei marcial, a democracia foi comprimida, mas não abolida. Quando o governo tentou enfraquecer agências anticorrupção, o povo nas ruas forçou seu recuo. Moscou invadiu um território; encontrou uma nação.

A guerra também reconfigura a Europa. A Otan expandiu-se com Finlândia e Suécia. Gastos de defesa sobem. A ilusão da “segurança barata” garantida pelos EUA dissipou-se. A eleição de Donald Trump, com sua disposição de pressionar Kiev por concessões e relativizar compromissos transatlânticos, introduziu uma variável decisiva. Se prevalecer a lógica de que a agressão compensa quando se prolonga o suficiente, o precedente será observado muito além da Ucrânia.

Quatro anos depois, o que se vê é que o poderio material continua a importar, mas não basta. A coerção tem limites quando confrontada por coesão social e alianças resilientes. A Rússia não alcançou seus objetivos nem está vencendo a guerra. A Ucrânia resiste porque não perdeu a capacidade de se organizar. Nenhum dos lados conseguiu impor um dano militar irreversível. A guerra entra em seu quinto ano ainda aberta. O desfecho dependerá menos do terreno conquistado e mais da disposição política de sustentar custos. Ou de abandoná-los.