O colunista do Estadão, Oliver Stuenkel, comenta os ataques dos EUA e de Israel e a resposta do Irã no novo capítulo do conflito no Oriente Médio. Crédito: Oliver Stuenkel
Gerando resumo
Ao atacar o Irã e conclamar os iranianos a derrubarem o próprio governo após o fim da operação, o presidente Donald Trump assumiu um risco elevadíssimo, sobretudo porque o Irã não representava uma ameaça iminente aos EUA. Pelo contrário: avaliações recentes da inteligência americana indicavam que o país está militarmente enfraquecido após os bombardeios do ano passado. Diferentemente de ataques pontuais no passado, desta vez trata-se de uma campanha aberta, com risco real de escalada. O próprio Trump admitiu que pode haver baixas americanas — linguagem típica de guerra declarada, mas sem autorização formal do Congresso.
A comparação com a invasão do Iraque em 2003 é inevitável: trata-se do que é conhecido nos EUA como “War of Choice”, uma “guerra escolhida”, não de autodefesa. Em 2003, Washington ao menos tentou obter, em vão, respaldo do Conselho de Segurança da ONU — algo que não fez agora. Trata-se, portanto, de mais uma clara violação da soberania iraniana e do direito internacional. Um argumento central da Casa Branca girou em torno da ameaça nuclear. No entanto, não há evidências de que o Irã tenha retomado um programa ativo de armas atômicas. Autoridades americanas chegaram a afirmar que Teerã não está enriquecendo urânio neste momento.
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Como escreve Stephen Wertheim, do Carnegie Endowment em Washington DC, ao lançar uma ofensiva sem preparar a sociedade americana para um conflito e sem apresentar uma justificativa convincente, o presidente depende de que tudo seja rápido e sem custos para a sociedade americana. Nada garante isso. Se o regime iraniano resistir, a pressão por escalada pode aumentar — inclusive com o envio de tropas terrestres. Se o regime cair e o país mergulhar no caos, Washington poderá enfrentar o dilema de intervir para estabilizar a situação. Em ambos os cenários, o custo tende a crescer rapidamente.
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De fato, a opinião pública americana não está mobilizada para uma guerra. Em 2003, George W. Bush trabalhou ativamente para moldar o debate, buscou apoio legislativo e obteve autorização do Senado. Agora, Trump não construiu consenso com o Congresso nem formou uma ampla coalizão internacional. Ao contrário do Iraque, não há uma aliança dividindo responsabilidades. Londres, por exemplo, recusou o uso de instalações estratégicas sob controle britânico para apoiar a operação. Na prática, o único apoio claro vem de Israel. Se os resultados forem negativos, o ônus político recairá quase exclusivamente sobre a Casa Branca.
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Mesmo com o expressivo deslocamento de forças americanas para a região, há sinais de preocupação dentro do próprio aparato militar. Como relata o jornal britânico Financial Times, o principal general do Pentágono teria alertado o presidente para limitações nos estoques de munições essenciais e para os riscos adicionais decorrentes da ausência de aliados engajados. Isso amplia a incerteza operacional. Além disso, os objetivos da guerra permanecem pouco definidos: derrubar o regime, conter o programa nuclear ou forçar negociações? Conflitos iniciados sem metas claras costumam ser mais difíceis de encerrar.
Os combates já interromperam o tráfego pelo Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Se a crise persistir, os preços podem subir, pressionar a inflação nos Estados Unidos e afetar diretamente a popularidade de Trump. O Irã, afinal, possui grandes reservas de petróleo. Dos cinco países com as maiores reservas comprovadas — Venezuela, Arábia Saudita, Irã, Canadá e Iraque —, a Arábia Saudita é o único que os EUA não invadiram, bombardearam ou ameaçaram anexar ao longo das últimas décadas.
No fundo, Trump parece apostar que um regime enfraquecido pode ruir sob ataque externo e revolta interna. Mas derrubar um governo de noventa milhões de pessoas apenas com poder aéreo é um risco significativo — e a história mostra que guerras escolhidas raramente seguem o roteiro planejado.