Análise | Trump embarca em aposta de Netanyahu contra o aiatolá para estrangular acesso chinês a energia
A chuva de mísseis que cai neste sábado, 28, sobre o Oriente Médio é o capítulo mais recente do conflito detonado entre Israel e Irã pelos atentados terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023.
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Antes do 7 de outubro, os principais esforços diplomáticos sobre a questão do Oriente Médio residiam na reaproximação entre Israel e as monarquias sunitas do Golfo. Os Acordos de Abraão, gestados ainda na primeira gestão de Trump, fizeram com que Tel-Aviv normalizasse laços com alguns vizinhos da Península Arábica, como os Emirados e o Bahrein.
Até então, as principais relações entre Israel e seus vizinhos datavam de acordos fechados com o Egito, na devolução do Sinai, ainda na década de 70, e com a Jordânia, após os Acordos de Oslo, em 1994.
Irã x Arábia Saudita e Israel
Com a chegada de Joe Biden à Casa Branca, o Departamento de Estado trabalhava com a ampliação dos Acordos de Abraão — um dos legados positivos da administração anterior. A Arábia Saudita, dizia-se à época, poderia aderir, e, atrás dela, outros países de fé islâmica, alguns com grande potencial comercial, como é o caso da Indonésia.
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O entrave, claro, era a questão palestina.
Do outro lado do xadrez no Oriente Médio, o Irã vinha fortalecendo o chamado “eixo da resistência”. Essa tendência começou com colapso do regime de Saddam Hussein no Iraque, mas ganhou força com o enfraquecimento dos regimes sunitas seculares na região a partir da Primavera Árabe.
Formado por grupos e países em maior ou menor grau alinhados a órbita de poder xiita, esse eixo reunia o Hezbollah, no Líbano, os houthis, no Iêmen, a Síria de Bashar Assad, milícias xiitas iraquianos, e o Hamas.
O 7 de outubro praticamente inviabilizou qualquer normalização diplomática entre israelenses e sauditas. Ficaria pesado demais politicamente para Mohamed Bin Salman, mesmo que seus sonhos de modernizar o reino sejam sérios, apoiar a retaliação israelense ao Hamas.
O maior beneficiado desse distanciamento era o Irã, a quem não interessa, em nenhuma hipótese, uma aproximação, mesmo que limitada, entre Tel-Aviv e a maior potência sunita árabe do Oriente Médio.
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Israel parte para o ataque
O segundo ato dessa disputa foi a reação israelense aos atentados. Não só o premiê Binyamin Netanyahu comandou uma guerra devastadora em Gaza como também ampliou a ofensiva contra o eixo da resistência.
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Hamas, Hezbollah, houthis e milícias xiitas na Síria e no Iraque foram alvos de ataques cada vez mais violentos. O grupo terrorista palestino perdeu durante a guerra toda sua cadeia de comando, seus batalhões foram dizimados, assim como parte da população civil de Gaza. No Líbano, a cúpula do Hezbollah também caiu em uma operação fulminante do Mossad.
Com seus dois principais inimigos, ao norte e ao sul, enfraquecidos, Netanyahu contou com um golpe de sorte: a revolução sunita síria, apoiada pela Turquia, triunfou, e Bashar Assad, um dos grandes amigos de Ali Khamenei na região, foi se esconder embaixo das saias de Vladimir Putin no frio de Moscou.
Restava o Irã.
Os primeiros ataques, em 2024, eram pontuais: líderes da Guarda Revolucionária morreram em um bombardeio à embaixada iraniana na Síria. Em outubro, ambos trocariam uma salva coreografada de bombardeios, graças à pressão diplomática do governo Biden.
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A vitória de Trump em novembro deu a Netanyahu tudo que ele queria: um aliado tão disposto a correr riscos para obter ganhos quanto ele.
O sonho de Bibi sempre foi a queda do regime dos aiatolás, que ele e a maioria dos israelenses vê como um risco existencial ao país.
Durante o primeiro ano do governo Trump, o premiê conseguiu a duras penas convencer os americanos que o programa nuclear iraniano estava no limiar de chegar à bomba atômica.
Israel então atacou o Irã com mais força em junho. Desta vez, os iranianos responderam para valer. Netanyahu teve que contar com a ajuda do aparato antimíssil americano para amenizar os danos provocados pelos mísseis balísticos de Khamenei. Estudos indicam que 85% deles foram barrados, mas alguns provocaram danos.
A guerra dos 12 dias só acabou quando Trump concordou em usar a “mãe de todas bombas” para atacar as centrais nucleares de Fordo. O presidente americano disse que, com isso, o programa nuclear tinha sido obliterado.
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Seis meses depois, em dezembro, Netanyahu estava tentando convencer Trump a atacar o Irã novamente.
Se, em junho, Trump tinha sérias dúvidas sobre a adesão à campanha israelense, desta vez, ambos concordaram em atuar juntos desde o primeiro momento.
Por quê?
Os protestos de janeiro podem ter indicado que o regime estaria seriamente abalado e poderia cair.
Trump gosta de lucros, mas detesta prejuízos. Seu sonho é que toda campanha militar seja igual à que levou à captura de Nicolás Maduro: limpa, eficaz e sem baixas.
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Dificilmente isso vai acontecer nesse novo confronto no Irã. No próprio pronunciamento desta madrugada, Trump disse ser possível que existam baixas do lado americano.
Mas a perspectiva de ganhos para o presidente são grandes o suficiente para ele minimizar os riscos.
Desde o século 19, energia é poder. Quem detém acessos facilitados aos mercados de energia necessários para movimentar seu parque industrial, manda no jogo.
Hoje essa lógica permanece a mesma, mas quem demanda mais energia atualmente são as big techs que desenvolvem projetos de inteligência artificial.
Por isso, com a queda do ditador chavista, o regime fantoche de Delcy Rodríguez na Venezuela deu a Trump a chave do petróleo venezuelano e o afastou da China.
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Uma troca de guarda no Irã, caso os americanos consigam emplacar um governo com quem possam fazer negócios, forneceria à Casa Branca acesso facilitado ao oitavo maior produtor de energia do planeta, que, hoje, também é um parceiro fundamental dos chineses.