O acesso ao curso de Medicina expõe desigualdades sociais, emocionais e econômicas que atravessam a vida de milhares de jovens. No episódio do podcast Quero Estudar Medicina, o estudante Diego Nogueira de Souza e o psicólogo Eduardo Barbosa revelam, a partir de vivências pessoais e profissionais, os bastidores da preparação para o vestibular e a realidade de quem chega ao ensino superior vindo de contextos de vulnerabilidade.
A conversa aborda um dos termos mais buscados no Google Trends: “como fazer Medicina sendo pobre”. A pergunta, direta e recorrente, sintetiza desafios invisíveis para quem não enfrenta barreiras financeiras, emocionais e sociais ao longo da jornada.
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Estudar sem saber das ferramentas é caminhar sem objetivo
Para ele, descobrir mecanismos como Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e Prouni foi determinante. “Quando a gente não conhece essas ferramentas, estuda sem objetivo. Descobrir que existiam caminhos possíveis me deu norte”, relata.
“Eu nunca tive o propósito de ser médico como muita gente. Não sabia o que era Enem, vestibular ou processo seletivo. Só pensava em terminar a escola e trabalhar”, lembra. Após concluir o ensino médio, seu primeiro emprego foi no telemarketing, experiência que descreve como “caótica”, mas enriquecedora pela diversidade de histórias que encontrou ali.
A virada começou quando conseguiu uma bolsa parcial em Enfermagem pelo Prouni. Foi no estágio que viu de perto a rotina dos médicos e descobriu sua vocação. “Quando vi a atuação dos médicos, tive uma virada de chave. Pensei: se for para ser alguma coisa, quero ser isso.”
Com apoio da mãe, que se comprometeu a sustentá-lo por um ano para que estudasse em tempo integral, reorganizou a vida. Em 2023, dedicava de oito a dez horas diárias aos estudos. No fim daquele ano, precisou voltar a trabalhar enquanto se preparava para as provas. A aprovação veio em 2024, com bolsa integral para Medicina.
O psicólogo Eduardo Barbosa destaca que muitos estudantes de baixa renda chegam ao ensino médio sem acesso a informações básicas sobre o sistema de ingresso ao ensino superior. Para ele, democratizar esse conhecimento deveria ser parte central da educação pública.
Assista ao episódio completo:
O choque social após a aprovação
Se o vestibular é difícil, o pós-aprovação pode ser ainda mais desafiador. “O choque social foi absurdo. A Medicina é um curso elitizado. Muitas pessoas têm tudo. Às vezes você não tem quase nada”, relata Diego.
Ele descreve a sensação de transitar diariamente entre “dois mundos”: a universidade repleta de alunos de alta renda e a realidade periférica de onde veio. O resultado, segundo ele, é uma forte sensação de despersonificação: “Você não se sente pertencente ao lugar de onde veio, nem ao lugar em que está. Isso causa muita ansiedade, muita revolta.”
A necessidade de apoio psicológico tornou-se urgente. Diego encontrou acolhimento no projeto Angatu, da Universidade Anhembi Morumbi, em São José dos Campos, onde faz acompanhamento terapêutico. “Todos os bolsistas que conheci sentem coisas parecidas. Raiva, tristeza, sensação de não pertencimento. É uma dor real, muito forte”, afirma.
A virada emocional veio quando começou a compartilhar sua história com colegas de maior renda — algo que antes evitava por vergonha. “Quando me abri, percebi que minha história também precisava ser ouvida. Fui acolhido. Fiz amizades que nunca imaginei.” Hoje, Diego diz sentir-se pertencente à universidade. “Foi um processo árduo, mas valeu a pena.”
A pressão por resultados, especialmente em cursos de alta concorrência, pode comprometer a saúde mental. Diego desenvolveu rituais simples de autocuidado, como revisar o próprio dia antes de dormir e celebrar pequenas conquistas.
“Não precisa ser algo grande. Se eu consegui tomar água e cuidar do meu corpo, já é algo. Se a gente não comemora nada, tudo vira só uma lista de tarefas.”
Ele encerra com um conselho direto para quem está na fase de preparação: “A coisa mais importante é se organizar. Tenham tempo para estudar, mas também para descansar. Se incentivem. Pode ser sua mãe, um objeto com significado ou o seu próprio sonho. Com organização e propósito, a gente consegue tudo”, conclui.