Hillary Clinton acusa republicanos de blindarem Trump em caso Epstein, mas se vê mais uma vez como 'defensora' do marido
Em depoimento a comissão da Câmara, ex-secretária de Estado afirma que não se encontrou com o financista, mas Bill Clinton, mantinha laços próximos com ele
Por O Globo e agências internacionais — Chappaqua, EUA
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GERADO EM: 26/02/2026 - 15:37
Hillary Clinton acusa republicanos de protegerem Trump no caso Epstein
Hillary Clinton, em depoimento à Câmara dos EUA, acusou republicanos de protegerem Trump no caso Epstein. Ela negou conhecer Epstein ou suas atividades criminosas, mas enfrentou questionamentos sobre os laços de Bill Clinton com o financista. Hillary criticou a investigação como "teatro político", enquanto o nome de Trump aparece frequentemente nos arquivos de Epstein, levantando suspeitas sobre seu envolvimento.
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Depois de uma longa batalha, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton prestou depoimento nesta quinta-feira a uma comissão da Câmara dos Deputados dos EUA em investigação sobre o financista Jeffrey Epstein, responsável por liderar uma rede de abuso de menores e que, mesmo morto em 2019, está no centro de um escândalo no país. Ao longo de seis horas e meia, Hillary afirmou que não conheceu Epstein, que não sabia de suas atividades criminosas, e acusou os republicanos de tentarem encobrir a relação entre Donald Trump e o milionário. Contudo, os laços do ex-presidente Bill Clinton com Epstein a levaram mais uma vez ao papel de responder pelo seu marido, um lugar incômodo que ela frequenta há décadas.
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“Vocês me obrigaram a depor, plenamente cientes de que não possuo nenhum conhecimento que possa auxiliar a investigação, com o objetivo de desviar a atenção das ações do presidente Trump e encobri-las”, disse Hillary em suas declarações iniciais, chamando a investigação de “teatro político”. “Se esta Comissão está realmente empenhada em descobrir a verdade sobre os crimes de tráfico de Epstein, não se basearia em depoimentos sensacionalistas para obter respostas do nosso atual presidente sobre seu envolvimento; questionaria-o diretamente, sob juramento, sobre as dezenas de milhares de vezes em que seu nome aparece nos arquivos de Epstein.”
Levantamentos apontam que o nome de Donald Trump aparece 38 mil vezes nos arquivos de Epstein, e ambos tinham uma relação próxima no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Há referências sobre possíveis encontros entre o então empresário com jovens apresentadas por Epstein, e que seriam vítimas de sua rede de abusos.
A Casa Branca nega as alegações, mas o Departamento de Justiça — responsável pela divulgação dos documentos — investiga se o depoimento de uma mulher ao FBI que, em 2019, acusou Trump de abuso sexual quando ela era menor de idade foi deliberadamente mantido em sigilo, além de outras menções pouco elogiosas ao presidente.
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Sob juramento, Hillary Clinton disse que “não tinha ideia” das atividades de Epstein e seus sócios, e que “não se lembra” de ter encontrado pessoalmente com o financista. O depoimento está sendo tomado na cidade onde vivem os Clintons no estado de Nova York, a portas fechadas, e as declarações iniciais foram compartilhadas em suas redes sociais. A fala foi gravada em vídeo, mas caberá à comissão decidir sobre sua divulgação. A jornalistas, o presidente da Comissão de Supervisão, o republicano James Comer, afirmou que isso poderá acontecer até sexta-feira.
“Essa falha institucional visa proteger um partido político e um funcionário público, em vez de buscar a verdade e a justiça para as vítimas e sobreviventes, bem como para o público que também quer chegar ao fundo dessa questão”, continuou Hillary. “Meu coração está partido pelas sobreviventes. E estou furiosa em nome deles.”
Em um dos raros detalhes que vieram a público, a deputada republicana Nancy Mace perguntou sobre seus sentimentos ao falar sobre a relação entre Clinton e Epstein, e ao ver fotos de seu marido recebendo uma massagem nas costas de uma mulher jovem, presentes no inquérito contra o financista. Segundo a rede CNN, Hillary respondeu que não estava ali para falar de seus sentimentos.
— Estamos assistindo a um espetáculo circense incrivelmente pouco sério, onde membros do Congresso e do Partido Republicano estão mais preocupados em tirar fotos da secretária Clinton do que em descobrir a verdade e responsabilizar alguém — disse a deputada democrata Yassamin Ansari, que integra a comissão, em entrevista coletiva. — Não ficamos sabendo de nada novo.
Ao final da sessão, Hillary disse a jornalistas não saber "quantas vezes teve que dizer que não conhecia Jeffrey Epstein”, e que tinha "100% de certeza" de que seu marido não sabia dos crimes do financista.
— E eu acho que a cronologia da ligação dele com Epstein terminou anos, vários anos antes de qualquer coisa sobre as atividades criminosas de Epstein vir à tona — declarou a ex-secretária de Estado, em entrevista coletiva. — Acho justo dizer que a maioria das pessoas que tiveram contato com ele (Epstein) antes de suas confissões de culpa não sabia o que ele estava fazendo. E acho que é exatamente isso que meu marido testemunhará amanhã (sexta-feira).
Bill e Hillary Clinton travaram um duelo político e jurídico com a Comissão de Supervisão da Câmara para evitar responder às perguntas dos deputados, na maioria republicanos. Eles sugeriram fornecer um depoimento por escrito, como ocorreu com outras testemunhas, e cogitaram ignorar a convocação. Contudo, no começo do mês, concordaram em falar, a portas fechadas — o depoimento de Bill Clinton está previsto para esta sexta-feira.
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Dentre os milhões de documentos do caso contra Jeffrey Epstein, que morreu em 2019 antes de ir a julgamento, o nome de Hillary Clinton aparece cerca de 700 vezes, na forma de matérias na imprensa ou comunicações de Epstein com terceiros. O mesmo não se pode dizer de Bill Clinton, que viajou ao menos 16 vezes no avião particular do financista entre 2002 e 2003. Entre os documentos tornados públicos, há fotos de Bill em eventos de Epstein, seja em uma mesa ao lado do vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger, seja em uma banheira de hidromassagem com mulheres de biquíni.
Bill Clinton jamais foi acusado de nenhum crime relacionado a Epstein, mas para os republicanos, ele se tornou o alvo perfeito. Na década passada, quando surgiram as denúncias de abusos cometidos pelo financista, teorias da conspiração apontavam para uma suposta lista de clientes, da qual o ex-presidente democrata faria parte. A tal lista não existe, como comprovou o próprio governo Trump, mas Clinton seguiu na mira. E a pressão do público por condenações e prisões — como ocorreu no Reino Unido, envolvendo até o ex-príncipe Andrew — serve como combustível a mais.
— Obviamente, a comissão quer ver algumas pessoas responsabilizadas — disse Comer ao portal Politico. — Ficamos fascinados com a forma como Epstein conseguiu se cercar de tantas figuras governamentais de alto escalão, não apenas nos Estados Unidos, mas também em outros países, então acho que muitas perguntas surgirão.
Enquanto os republicanos tentam incriminar Bill Clinton, o que seria uma vitória de peso em um ano eleitoral que vê os democratas em vantagem, Hillary se viu mais uma vez em um lugar incômodo: o de responder por acusações contra seu marido, envolvendo situações que não têm a ver com decisões políticas ou atos presidenciais.
Nos anos 1990, a então primeira-dama foi a público defender seu marido em meio a um escândalo sexual envolvendo uma estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky. Depois que a Câmara aprovou seu impeachment, ela estava ao lado do presidente nos jardins da Casa Branca para criticar os pedidos de renúncia.
Mesmo depois de se eleger senadora por Nova York, ou de chefiar o Departamento de Estado, as perguntas sobre Bill jamais deixaram de ser feitas. Em uma autobiografia de 2003, “Vivendo a História”, contou detalhes de seus momentos privados, e disse que “as decisões mais difíceis que fez na vida foram permanecer casada com Bill e concorrer ao Senado por Nova York”.
— Durante quase toda a sua vida de casada, ela teve que responder a perguntas sobre as ações do marido — disse Patti Solis Doyle, ex-assessora de Hillary Clinton, ao New York Times. — Ela o apoiou em todos os momentos. Não há razão para que ela tenha que sofrer essa última humilhação. Ela não tem nada a ver com isso. É revoltante. Ela é um ícone global, uma pioneira para as mulheres. É de partir o coração que ela tenha que passar por isso.