Bastidores da queda: Confiante até o fim, Maduro ignorou alertas e subestimou ameaças de Trump nos dias antes de sua captura
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Bastidores da queda: Confiante até o fim, Maduro ignorou alertas e subestimou ameaças de Trump nos dias antes de sua captura

Líder venezuelano superestimou sua força e interpretou mal sua troca de palavras com o presidente americano

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    GERADO EM: 26/02/2026 - 18:10

    Subestima dos EUA leva à captura de Maduro e altera cenário na Venezuela

    Nicolás Maduro, ex-presidente da Venezuela, subestimou a ameaça dos EUA, levando à sua captura em 2025. Apesar do aumento da presença militar americana e avisos de renúncia, Maduro manteve-se convencido de que poderia negociar sua permanência no poder. No entanto, sua interpretação errônea das intenções de Trump culminou em um ataque americano, alterando o cenário político venezuelano e a diplomacia na América Latina.

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    Uma armada de navios de guerra e caças americanos pairava ameaçadoramente ao largo das águas da Venezuela, e o Pentágono já havia elaborado planos para capturar ou matar o líder do país. Mas, ao final de 2025, o então presidente Nicolás Maduro pareceu surpreendentemente relaxado, comemorando a véspera de Ano Novo com um pequeno grupo de familiares e amigos em sua casa em Caracas, a capital, de acordo com várias pessoas próximas a ele, incluindo um convidado da festa.

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  • Os Estados Unidos ameaçaram atacar a Venezuela caso Maduro não renunciasse. Mesmo assim, pessoas próximas a ele afirmaram que ele reiteradamente declarou que o governo de Donald Trump não ousaria atacar Caracas.

    Maduro sabia que havia espiões trabalhando contra ele e temia ser traído por pessoas de dentro de suas fileiras. Mesmo assim, no final de dezembro, ele disse a amigos e aliados que ainda tinha tempo para negociar um acordo para permanecer no poder ou deixar o cargo quando quisesse, afirmaram eles.

    Para o círculo próximo de Maduro, uma incursão americana parecia improvável, disseram pessoas próximas a ele. Quando explosões atingiram a base militar de Fuerte Tiuna, em Caracas, em 3 de janeiro, alguns em seu círculo pensaram que se tratava de um golpe de Estado, e não de um ataque americano.

    Foi um erro de cálculo notável por parte de Maduro, um autocrata que havia enganado os oponentes repetidas vezes durante seus 13 anos de governo, mantendo-se no poder por meio de derrotas eleitorais, protestos em massa, conspirações armadas e tentativas de assassinato.

    Segundo pessoas familiarizadas com a conversa, Maduro já havia sido informado de que deveria renunciar por um bilionário brasileiro que se reuniu com o secretário de Estado Marco Rubio. Mas Maduro ignorou o aviso, sem perceber a urgência da situação.

    Sua interpretação equivocada das intenções do governo Trump teve consequências profundas: resultou no primeiro ataque estrangeiro em solo venezuelano em mais de um século, levou Maduro e sua esposa à prisão no Brooklyn e mudou o curso da História de seu país.

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  • Este relato das últimas semanas da Presidência de Maduro baseia-se em entrevistas com uma dúzia de seus principais assessores, amigos e aliados. A maioria falou com ele nos dias que antecederam o ataque americano, e vários entraram em contato poucas horas antes.

    Os relatos foram confirmados por entrevistas com pessoas próximas a Trump e outras figuras importantes, incluindo Delcy Rodríguez, sucessora de Maduro, que firmou uma aliança forçada com os Estados Unidos. Elas não estavam autorizadas a falar publicamente.

    Contas não acertadas

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    Ao longo do impasse com a Casa Branca, Maduro permaneceu consumido pela rebeldia e pela arrogância, um homem que superestimou seus próprios poderes e subestimou a determinação de seus oponentes, disseram alguns de seus colaboradores próximos. Como o autocrata em decadência no romance "O General em Seu Labirinto", de Gabriel García Márquez, Maduro, de 63 anos, viu seu poder escorregar enquanto não conseguia lidar com a crescente crise econômica e política que se abateu sobre ele.

    — Depois de anos no poder, você tende a superestimar suas capacidades — disse Juan Barreto, ex-funcionário do governo e antigo aliado de Maduro. — Você acaba ouvindo apenas quem quer te agradar.

    Durante seu primeiro mandato, Trump tentou, sem sucesso, depor o ditador venezuelano, impondo sanções à indústria petrolífera do país e reconhecendo um líder da oposição como presidente. Quando Trump retornou à Casa Branca em janeiro passado, ele considerava a Venezuela um assunto inacabado, segundo autoridades americanas.

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  • Trump começou a alertar sobre uma "invasão" de uma gangue venezuelana letal que operava sob as ordens de Maduro, embora as agências de inteligência americanas tivessem concluído que isso não era verdade. Seu governo endureceu as sanções e, em seguida, começou a explodir barcos no Caribe, alegando que estava visando traficantes de drogas.

    A Venezuela estava sitiada.

    Trump e Maduro tiveram a oportunidade de resolver o conflito em 21 de novembro, dia em que os dois líderes tiveram sua única conversa direta conhecida. Trump conversou cordialmente com Maduro por telefone durante 5 a 10 minutos, segundo quatro pessoas familiarizadas com a ligação.

    — Você tem uma voz forte — disse Trump a Maduro em tom descontraído, segundo fontes.

    Maduro respondeu em tom de brincadeira, dizendo por meio de um tradutor que Trump ficaria ainda mais impressionado se o visse pessoalmente, devidamente banhado e vestido, disseram três pessoas.

    Trump convidou Maduro para Washington, uma proposta que o presidente venezuelano recusou educadamente, temendo uma armadilha, disseram as fontes. Maduro, em vez disso, propôs um encontro em um local neutro fora dos Estados Unidos, o que Trump também recusou.

    A ligação terminou sem acordos concretos ou ameaças, disseram as três pessoas. Mas os dois líderes saíram com conclusões drasticamente diferentes, desencadeando uma série de mal-entendidos que culminaram no espetacular ataque dos EUA.

    Maduro acreditava que seu discurso informal havia conquistado um presidente americano conhecido por seu estilo de comunicação descontraído, disseram pessoas familiarizadas com a ligação. O líder venezuelano, disseram elas, pensava ter ganhado tempo para negociar um acordo, reforçando sua crença de que o aumento da presença militar americana no Caribe era uma tática de pressão para forçar um acordo.

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  • Trump pensava diferente, disse um funcionário americano familiarizado com a ligação. O presidente fez a ligação esperando que Maduro apresentasse um plano específico para deixar o cargo, disse o funcionário. Mas a indiferença de Maduro sinalizou a Trump que o líder venezuelano não o estava levando a sério, contribuindo para a decisão de Trump de usar a força.

    Ultimatos ignorados

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    Poucos dias depois, Maduro recebeu um aviso: ele precisava sair, imediatamente. A mensagem foi transmitida pessoalmente por Joesley Batista, um bilionário brasileiro com negócios nos Estados Unidos e na Venezuela, que havia se reunido recentemente com Rubio, de acordo com três pessoas familiarizadas com as conversas.

    Rubio deixou claro que os Estados Unidos queriam que o líder venezuelano fechasse um acordo e deixasse o país. Mas, ao ouvir isso, Maduro interpretou como um ultimato, reagiu com irritação à ideia de deixar o cargo e rejeitou a ameaça, disseram as fontes.

    Batista e o advogado de Maduro recusaram-se a comentar, e o Ministério da Informação da Venezuela não respondeu a perguntas detalhadas. Um alto funcionário americano afirmou que Maduro teve várias oportunidades para chegar a um acordo e renunciar.

    Em vez de ceder, Maduro foi às ruas para demonstrar controle. Ele passou a fazer aparições quase diárias e não programadas em eventos públicos, dançando, cantando e entoando slogans em um inglês exagerado.

    "Por favor, por favor, por favor: sim, paz, não guerra", repetia a voz gravada de Maduro enquanto ele se movimentava ao ritmo de uma música eletrônica no palácio presidencial em 21 de novembro, dia de sua ligação com Trump.

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  • Quando Trump viu um vídeo de Maduro dançando algum tempo depois da ligação telefônica, o presidente americano ficou visivelmente irritado, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto. Trump interpretou as palhaçadas do líder venezuelano como uma zombaria, o que inclinou ainda mais a balança para uma incursão militar, acrescentou a pessoa.

    A pressão dos EUA agravou as divisões internas que já assolavam o governo de Maduro, disseram algumas pessoas próximas a ele.

    As divergências tiveram origem na decisão de Maduro de ignorar os resultados das eleições de 2024, que ele perdeu de forma decisiva, o que o privou de qualquer legitimidade restante e aprofundou seu isolamento internacional.

    Agora, as ameaças dos Estados Unidos tornaram Maduro ainda mais dependente dos linha-dura de seu partido socialista. Essa facção entrincheirada, liderada pelo ministro do Interior, Diosdado Cabello, defendia maior repressão interna para se manter no poder e maior controle estatal sobre a economia.

    Ao mesmo tempo, Maduro estava ficando desconfiado de sua vice-presidente mais pragmática, Delcy, disseram algumas pessoas próximas a ele. Ela estava apertando o controle sobre as finanças públicas, marginalizando rivais e pressionando por maiores investimentos estrangeiros. Ela acabou ocupando simultaneamente os cargos de vice-presidente, ministra do petróleo e ministra da Fazenda.

    Segundo algumas fontes, Maduro considerou demiti-la, mas sabia que precisava da experiência administrativa dela para manter a economia sitiada à tona, acrescentaram.

    Maduro também se sentia pressionado por suas alianças internacionais, particularmente pelo ônus econômico de fornecer ajuda a Cuba, disseram algumas pessoas. A importadora estatal de energia de Cuba recebeu cerca de US$ 2 bilhões (R$ 10,7 bilhões) em petróleo venezuelano nos primeiros 11 meses do ano passado, em acordos que não previam repasses financeiros para o governo de Maduro, de acordo com dados internos da petrolífera estatal venezuelana.

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  • Maduro entendia que seus laços com Havana, um dos principais adversários de Trump, complicavam seus próprios esforços para encontrar um acordo com Washington, disseram as fontes. Mas ele não estava disposto a interromper as entregas de petróleo, considerando-as uma questão de honra e lealdade ao fundador do partido governista, Hugo Chávez, um protegido de Fidel Castro.

    Essa aliança vem se desfazendo desde o ataque dos EUA, com o sucessor de Maduro cancelando as entregas de petróleo a Cuba, demitindo aliados cubanos de altos cargos e encerrando os voos comerciais para a ilha.

    Poder a qualquer custo

    Poder a qualquer custo

    Todas as pessoas entrevistadas para este artigo concordam que Maduro nunca considerou seriamente renunciar, apesar das ameaças dos EUA, dos conselhos de intermediários como a Turquia e o Catar e, por fim, dos apelos sutis de alguns de seus próprios funcionários e familiares.

    Alguns dizem que Maduro manteve o compromisso de preservar o legado revolucionário de Chávez. Com o tempo, outras pessoas afirmaram que Maduro passou a enxergar esse legado de forma muito restrita: manter seu Partido Socialista no poder a qualquer custo.

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    Outros dizem que a ideia de deixar para trás parentes e amigos que trabalharam com ele por décadas pesou muito para Maduro. Ele considerava o exílio uma forma de traição, disseram essas pessoas.

    Ainda assim, outros insistem que Maduro simplesmente avaliou mal os riscos que Trump estava disposto a correr para removê-lo do poder.

    Segundo pessoas próximas a ele, Maduro estava preparado para uma intensificação da campanha militar do governo Trump e entendia que o impasse poderia lhe custar a vida. Mas ele acreditava que o resultado mais provável seria um ataque americano a instalações petrolíferas venezuelanas ou a locais ligados ao tráfico de drogas.

    Segundo fontes, ele jamais imaginou que Trump lançaria um ataque de grande escala contra Caracas, muito menos que envolveria a frota de 150 aeronaves na operação americana de 3 de janeiro.

    Maduro estava confiante de que suas Forças Armadas, equipadas com armamentos chineses e russos avaliados em bilhões de dólares, poderiam infligir baixas letais, tornando um ataque politicamente inaceitável para Trump.

    O presidente venezuelano continuava confiante na lealdade de sua equipe de segurança e círculo íntimo, mas estava cada vez mais preocupado com os esforços americanos para se infiltrar no governo e nas Forças Armadas. Um amigo próximo lembrou que Maduro lhe ligou no final de dezembro dizendo que temia ser traído e pediu que ele não atendesse ligações nem respondesse mensagens de números desconhecidos, pois havia espiões trabalhando contra ele.

    Apesar da ostentação encenada em eventos públicos, Maduro compreendeu que enfrentava uma nova ameaça. Reduziu os encontros sociais e cancelou aparições públicas planejadas. A maioria de suas transmissões quase diárias em rádios e televisões locais consistia em mensagens pré-gravadas apresentadas como discursos ao vivo.

    Dois dias após conversar com Trump no final de novembro, Maduro quebrou seu costume de dar uma grande festa de aniversário para si mesmo e, em vez disso, fez uma comemoração muito menor com sua família no complexo militar de Fuerte Tiuna.

    Para evitar ser detectado por satélites ou aviões espiões, Maduro passou mais tempo sob a proteção de um pequeno contingente de sua Guarda Presidencial, composta por 1.400 homens, disseram algumas pessoas próximas a ele.

    Mas a decisão, tomada para ocultar sua localização, acabou deixando o líder venezuelano com menos proteção contra um ataque americano, acrescentaram.

    Últimas Chances

    Últimas Chances

    Em 10 de dezembro, os EUA intensificaram drasticamente o conflito ao deter um navio-tanque que transportava petróleo venezuelano, iniciando um bloqueio parcial que paralisou a principal fonte de receita do país.

    O bloqueio paralisou os petroleiros venezuelanos e obrigou as empresas petrolíferas a redirecionar o combustível para instalações de armazenamento limitadas. Algumas empresas começaram a fechar poços. A indústria petrolífera do país esteve à beira do colapso.

    Em reuniões oficiais e conversas informais, Maduro manteve-se calmo, de acordo com pessoas que falaram com ele em dezembro, convicto de que um acordo com os Estados Unidos ainda era possível.

    A decisão dos EUA de rotular Maduro como um "narcoterrorista" que liderava dois cartéis de drogas deixou o presidente venezuelano perplexo, disseram as fontes. Para Maduro, a descrição feita pelo governo Trump de que ele era um chefão que supervisionava pessoalmente o envio de criminosos e drogas aos Estados Unidos para matar americanos era um exagero e devia estar escondendo uma exigência mais pragmática, de acordo com algumas das fontes.

    Até o fim, Maduro se recusou a aceitar que Trump o considerasse pessoalmente o principal problema, disseram as fontes. Em vez disso, ele achava que só precisava encontrar uma vantagem econômica que Trump de fato desejasse.

    Mas, em meados de dezembro, a situação econômica da Venezuela havia se tornado tão precária que Maduro começou a considerar sua própria saída do poder. Ele disse a uma pessoa que poderia oferecer eleições antecipadas, já em 2026, e ceder o cargo a um candidato de outro partido governista.

    Washington, no entanto, insistiu em sua renúncia imediata.

    Em 23 de dezembro, a Casa Branca fez sua oferta final. A pedido de Washington, o governo turco informou a Maduro que os Estados Unidos não o perseguiriam nem confiscariam seus bens caso ele se exilasse, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto. (Um funcionário turco afirmou que a Turquia não foi discutida como um possível destino.)

    Segundo o oficial americano, Maduro rejeitou a oferta, dando início aos preparativos finais para o ataque. A operação estava inicialmente agendada para o último fim de semana de dezembro, mas foi adiada por diversos motivos, incluindo o clima excepcionalmente chuvoso em Caracas.

    Em 30 de dezembro, Delcy se reuniu com Maduro para tentar transmitir a dimensão do iminente colapso econômico precipitado pelo bloqueio dos EUA, de acordo com três pessoas familiarizadas com a reunião. Maduro minimizou suas preocupações, disseram as fontes.

    Naquela altura, a administração Trump já havia identificado Delcy como alguém com quem poderiam potencialmente trabalhar, mas não há indícios de que ela tivesse conhecimento do plano militar do Pentágono.

    Maduro parecia determinado a resistir à pressão americana. Ele previa recorrer a uma luta popular, abandonando a produção de petróleo e cultivando todos os alimentos internamente, se necessário, disse uma das três pessoas.

    Em vez disso, nas primeiras horas de 3 de janeiro, aeronaves militares dos EUA cruzaram as fronteiras da Venezuela, atacaram quatro bases militares, dominaram os guarda-costas de Maduro e o capturaram, juntamente com sua esposa, Cilia Flores, matando mais de 100 cubanos e venezuelanos.

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