Artigo: o labirinto dos afetos dos eleitores indecisos
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Artigo: o labirinto dos afetos dos eleitores indecisos

Tensão entre benefício real e afeto polarizante ainda é tênue, mas pode decidir as eleições

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    GERADO EM: 26/02/2026 - 16:42

    Tensão nas Eleições: Isenção de Imposto de Renda e Dilema Eleitoral no Brasil

    Uma tensão silenciosa, mas potencialmente decisiva, paira sobre as eleições no Brasil. A isenção de imposto de renda, beneficiando milhões, desafia eleitores que desaprovam o governo. O dilema entre ganhos tangíveis e sentimentos polarizados está presente em lares e debates nacionais. Enquanto alguns eleitores focam no presente, outros, esperançosos, olham para o futuro, buscando equilíbrio entre o social e o empresarial.

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    Uma tensão silenciosa se instalou na mesa de muitos lares brasileiros. Ainda é tênue, não chega a levantar faíscas, mas pode vir a decidir as eleições de outubro deste ano. Enquanto a isenção de imposto de renda se tornou tangível para um coletivo de mais de 15 milhões de pessoas, aqueles que não gostam do atual governo começam a sentir na pele a batalha entre o benefício real vs. afeto polarizante.

    A conversa sobre a isenção IR entrou na pauta em cafés da manhã e jantares, tem potencial de inclinar a balança em favor do incumbente. Pesquisas qualitativas feitas em fevereiro deste ano pelo Projeto Plaza Pública revelam que a medida já gera impacto direto: todos conhecem ou têm um parente em casa que foi beneficiado. Está no cotidiano.

    “Meu esposo teve uma melhoria de R$ 700 no contracheque, mesmo assim ele disse que não iria votar no Lula. Não sei se depois ele muda de ideia, é algo que deve ser discutido”, diz uma respondente paulistana que votou em Bolsonaro em 2022.

    Essa mesma tensão tem um desdobramento nas percepções sobre o projeto de lei para o fim da escala 6x1. Enquanto todos concordam que é um benefício social nítido, há discrepâncias sobre quem “paga a conta”. Em relação aos três possíveis atores — empresariado, consumidor ou Estado —, quem se define como progressista aposta no remanejamento por parte dos empresários de escalas ou até na diminuição do lucro (pouco provável). Quem se autodeclara conservador, imagina que a medida vai impactar nos preços diretos para o consumidor.

    Como pano de fundo, temos a crispação entre “o social” e “o empresarial”. Para o público independente mais à direita, enquanto Lula resolve e entrega resultados concretos no social, há dúvidas, para uma parcela desse eleitorado, sobre as ações futuras. É um segmento que aposta na inovação, no olhar para o futuro, em adotar referências de outros países, e quer chegar a um ponto de equilíbrio entre o social e o empresarial. É o desejo de um eleitorado mais jovem, liberal, que abraça o mundo autônomo, que hoje se sente órfão de candidato que empolgue e que quer uma pauta diferente, em conteúdo e tom.

    As variantes de alguns governadores para ocupar esse espaço são ainda uma incógnita. “Preciso entender melhor qual é o objetivo, se têm uma proposta de algo inovador. Até quero escutar o que têm para dizer. Estou até aberta ao que vem dali, por ora é um burburinho, não tem nada na real”, diz uma jovem mineira que votou nulo em 2022, hoje indecisa.

    Trata-se de um dilema não resolvido entre o público independente e de centro-direita e se torna fundamental entender o sentido das emoções desse coletivo. “Essa polarização Lula-Bolsonaro parece um looping infinito”, diz uma votante de Bolsonaro em 2022. Temos um pantone de tons afetivos que excedem o olhar atual da polarização afetiva/calcificação de dois grupos coesos.

    O campo emocional se ordena de forma díspar. Enquanto a classe alta desfruta de uma “euforia” com a situação atual, as classes baixas transitam entre “decepção” e “expectativas”. Quem tem foco no presente está mais desiludido e irritado. Quem tem foco no futuro está mais esperançoso e eufórico.

    Ponto-chave: as emoções da esquerda não lulista estão num ponto intermediário entre os lulistas e independentes, o que permite pensar que polarizar contra a polarização pode ser um campo favorável a quem consiga gerar credibilidade.

    * Eduardo Sincofsky é mestre em Análise da Opinião Pública e psicólogo. Trabalha com pesquisa qualitativa há mais de 30 anos. É diretor do Projeto Plaza Publica, barômetro que mede qualitativamente a agenda do país de maneira periódica.