Após revés em Belém, presidência da COP30 pede propostas globais para formular 'roadmaps' antes da próxima conferência
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Após revés em Belém, presidência da COP30 pede propostas globais para formular 'roadmaps' antes da próxima conferência

Apesar do esforços dos negociadores brasileiros e do apoio de cerca de 80 países, a proposta pelo fim do desmatamento e uso de combustíveis fósseis não foi incluída no documento final do evento

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    GERADO EM: 27/02/2026 - 15:00

    Brasil busca propostas globais para planos de desmatamento e energia limpa na COP30

    A presidência brasileira da COP30 solicita propostas internacionais para desenvolver "roadmaps" sobre o fim do desmatamento e combustíveis fósseis, após não incluir o tema no documento final da conferência em Belém. Com apoio de 80 países, enfrenta resistência de petroestados. As propostas devem ser enviadas até março, buscando apresentação formal na COP31, na Turquia. O Brasil também enfrenta divergências internas na formulação de seu mapa nacional.

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    A presidência brasileira da COP30 publicou nesta sexta-feira um chamado para contribuição de países e organizações da sociedade civil na formulação dos mapas do caminho sobre fim do desmatamento e afastamento de combustíveis fósseis. Os chamados "roadmaps" estavam entre as principais apostas do Planalto para o encontro. Entretanto, apesar dos esforços dos negociadores brasileiros e do apoio de cerca de 80 países, a proposta não foi incluída no documento final do evento. O maior foco de resistência veio dos chamados “petroestados”, como Arábia Saudita, Índia e Rússia.

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  • "Embora essas iniciativas não derivem de um mandato negociado e estejam sendo implementadas sob minha responsabilidade, estou firmemente convencido de que devem ser conduzidas de forma inclusiva, participativa e transparente, e que esses roteiros podem nos ajudar a identificar opções práticas para a implementação das metas que já acordamos", diz o chamado.

    As propostas podem ser remetidas até o dia 31 de março. O Brasil deseja ter os documentos técnicos dos dois mapas do caminho prontos até no máximo outubro — um mês antes da passagem de bastão para a equipe da edição seguinte do evento. O objetivo é apresentar formalmente os roadmaps na COP31, na Turquia, em novembro.

    A carta assinada pelo presidente da COP30, André Corrêa do Lago, pede que os retornos respondam a quatro questões sobre os combustíveis fósseis e o desmatamento:

    • Quais são as principais barreiras para que o mundo se liberte de ambos;
    • Quais são as alavancas políticas, econômicas e financeiras que permitiriam as duas transições;
    • Quais são os exemplos de países, regiões ou setores que avançaram no sentido de um e outro;
    • Como refletir a diversidade dos países e as circunstâncias nacionais no tocante à dependência de fósseis ou ao grau de conservação de suas florestas.

  • Quais são as principais barreiras para que o mundo se liberte de ambos;
  • Quais são as alavancas políticas, econômicas e financeiras que permitiriam as duas transições;
  • Quais são os exemplos de países, regiões ou setores que avançaram no sentido de um e outro;
  • Como refletir a diversidade dos países e as circunstâncias nacionais no tocante à dependência de fósseis ou ao grau de conservação de suas florestas.
  • A rede Observatório do Clima destaca que a consulta aberta por meio da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) representa um movimento "incomum" para a presidência brasileira. Isso porque a iniciativa pela formulação dos "roadmaps" se deu de forma paralela às negociações formais do evento.

    A rede de entidades ambientalistas aponta que o roteiro de combustíveis fósseis em discussão —descrito como "o mais controverso porque conta com oposição ativa de países como Rússia, Arábia Saudita, Iraque e Índia" terá sete capítulos: riscos físicos sistêmicos; riscos econômicos e financeiros; riscos institucionais e sociais; demanda de combustíveis fósseis; oferta de combustíveis fósseis; uma economia em transição; e um capítulo final de recomendações.

    A expectativa é que a Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, que acontece na cidade de Santa Marta, no Caribe colombiano, entre 24 e 28 de abril, possa testar a popularidade da iniciativa.

    "Em Belém, 84 países se declararam a favor de um mapa do caminho para o fim gradual dos fósseis. Esse número precisa no mínimo se manter o mesmo em abril na Colômbia, de preferência crescer, para que na COP31 o assunto se torne incontornável, apesar das oposições de sempre", aponta o Observatório.

    'Roadmap' nacional travado

    'Roadmap' nacional travado

    Prometido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após a frustração com o desfecho da COP30, cujo documento final ignorou o tema da transição energética, o mapa do caminho nacional para o fim dos combustíveis fósseis tem a elaboração travada em meio a divergências entre ministérios. Anunciado em dezembro, o documento deveria estar pronto em 60 dias, prazo que se encerrou no dia 6 de fevereiro sem consenso.

    Por determinação de Lula, as negociações envolvem quatro ministérios: Minas e Energia, Casa Civil, Fazenda e Meio Ambiente. Fontes ouvidas pelo GLOBO apontam que o principal ponto de divergência está na proposta da primeira pasta de concentrar todas as questões relativas à transição no chamado planejamento energético, que fica sob sua alçada. O movimento desagrada tanto Fazenda quanto Meio Ambiente, que lutam para preservar o caráter transversal previsto inicialmente.

    Procurados pelo GLOBO à época, nenhum dos quatro ministérios comentou as divergências. Em nota conjunta publicada no início do mês, apenas informaram apenas que “estão na fase final das tratativas” sobre o tema, após “reuniões técnicas e ministeriais entre as pastas envolvidas”.

    “O conteúdo da proposta será tornado público após a deliberação pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE)”, acrescenta o texto, que na primeira versão mencionava que isso aconteceria “nas próximas semanas” — temporalidade excluída horas depois.

    Nos bastidores, prevalece o entendimento de que a pasta de Minas e Energia e a Casa Civil, comandadas por Alexandre Silveira (PSD) e Rui Costa (PT), respectivamente, são mais alinhadas às fontes tradicionais de energia, em contraponto aos outros dois ministérios envolvidos na elaboração do mapa. Na Fazenda, por exemplo, o titular Fernando Haddad (PT) criou em outubro a Subsecretaria de Transformação Ecológica para, como divulgado à época, coordenar “atos e políticas climáticas e de descarbonização”, pauta prioritária também para a ministra Marina Silva (Rede), do Meio Ambiente.

    A formulação conjunta do documento foi imposta por Lula em despacho publicado no dia 8 de dezembro. O objetivo é a construção de um mapa do caminho para uma transição energética justa e planejada, baseada na redução gradativa da dependência dos combustíveis fósseis e com propostas de mecanismos de financiamento para a implementação desta mudança.

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