Estudo indica que o Parkinson afeta a leitura de emoções na fala e mostra que o lado do cérebro atingido influencia resposta ao tratamento
atualizado
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Conhecido principalmente pelos tremores e alterações motoras, o Parkinson também pode comprometer a capacidade de reconhecer emoções expressas na voz. Essa dificuldade está relacionada ao lado do cérebro inicialmente afetado pela doença e pode influenciar inclusive a resposta aos tratamentos.
Os impactos do Parkinson no reconhecimento de emoções na voz foram estudados em um artigo pulicado na Neurodegener Diseases. A investigação avaliou o papel da assimetria dos sintomas de lados opostos do cérebro nessa dificuldade, a partir das respostas de 45 pacientes: 15 com diagnóstico recente, 15 em fase avançada e 15 voluntários saudáveis.
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Os resultados apontaram redução do desempenho de reconhecimento emocional vocal entre aqueles com predominância de sintomas motores à esquerda. Mesmo com o tratamento, indivíduos com manifestações nesse lado do corpo tinham maior dificuldade em recuperar seu processamento de emoções na fala.
Isso sugere que o lado de início dos sintomas no Parkinson não afeta apenas a forma em que eles se manifestarão, mas também as respostas aos tratamentos mais comuns. “A dificuldade em reconhecer o tom emocional na voz indica que a doença compromete áreas do cérebro responsáveis pela interpretação de sinais sociais e emocionais”, explica Felicio. Embora o tamanho da amostra no estudo seja pequeno, para os autores da investigação, ela aponta a importância de uma abordagem de tratamento mais individualizada.
Parkinson é uma doença neurológica caracterizada pela degeneração progressiva dos neurônios responsáveis pela produção de dopamina
Esse processo degenerativo das células nervosas pode afetar diferentes partes do cérebro e, como consequência, gerar sintomas como tremores involuntários, perda da coordenação motora e rigidez muscular
Outros sintomas da doença são lentidão, contração muscular, movimentos involuntários e instabilidade da postura
Em casos avançados, a doença também impede a produção de acetilcolina, neurotransmissor que regula a memória, aprendizado e o sono
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), apesar de a doença ser conhecida por acometer pessoas idosas, cerca de 10% a 15% dos pacientes diagnosticados têm menos de 50 anos
Não se sabe ao certo o que causa o Parkinson, mas, quando ocorre em jovens, é comum que tenha relação genética. Neste caso, os sintomas progridem mais lentamente, e há uma maior preservação cognitiva e de expectativa de vida
O Parkinson não tem cura, mas o tratamento pode diminuir a progressão dos sintomas e ajudar na qualidade de vida. Além de remédio, é necessário o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar. Em alguns casos, há possibilidade de cirurgia no cérebro
Os sintomas do Parkinson
O Parkinson é uma doença neurológica causada pela degeneração de células responsáveis pela produção de dopamina. A queda na produção desse neurotransmissor impacta desde as funções emocionais até a coordenação motora, para a qual ela é essencial.
“Além dos sinais motores iniciais, como a rigidez muscular e a lentidão dos movimentos, o quadro é associado também à manifestação de sintomas como depressão, alteração do olfato, mudanças no padrão de sono e constipação”, detalha o neurologista.
A doença afeta especialmente pessoas acima dos 60 anos e é mais frequente em homens, em quem tem histórico na família ou quem teve uma exposição excessiva a produtos químicos como solventes e agrotóxicos.
As dificuldades de fala e escuta analisadas na pesquisa podem servir como indicadores de progressão da doença. “Assim como a maior dependência funcional, a piora na gravidade dos sintomas motores, a presença de demência, disautonomia e sintomas psicóticos, embora não ocorram em todos os casos”, observa o médico.
Mais qualidade de vida
Hoje, há tratamentos que melhoraram a qualidade de vida de quem convive com a doença. Um deles é a Estimulação Cerebral Profunda, mais conhecida pela sigla em inglês DBS (Deep Brain Stimulation). O procedimento envolve a implantação de dois eletrodos em regiões específicas do cérebro, um de cada lado, que emite uma descarga elétrica diretamente nas células doentes. Tem grande eficácia no controle da lentidão e dos tremores.
“A cirurgia de estimulação cerebral profunda é um tratamento que está disponível no Sistema Único de Saúde, mas com suas limitações, sendo mais fácil encontrar as medicações de controle, que estão disponíveis em quase sua totalidade no rol da saúde pública”, observa Felicio. “Na rede privada, é possível fazer essa cirurgia com relativa facilidade”.
Outra opção é a terapia de infusão dopaminérgica, em que o remédio é aplicado por meio de uma infusão. A técnica é vista como uma saída para indivíduos que apresentam flutuações de sintomas, entre períodos chamados de on e off. Liberada nos Estados Unidos em 2024, ainda não foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Mais recente, o High-Intensity Focused Ultrasound (HIFU) é um ultrassom de alta intensidade, indicado para controlar tremores tanto do Parkinson quanto de casos de tremor essencial. Ao contrário do DBS, é menos invasivo: por meio de um capacete e com auxílio de exames de imagem, é possível direcionar ondas de ultrassom no tálamo, região cerebral responsável pelos tremores. A melhora dos sintomas é estimada em 70%. O HIFU chegou ao Brasil em 2025 e é oferecido no país apenas pelo Einstein.
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