Ucrânia acusa EUA de ajudar a Rússia enquanto sofre restrições ao Starlink e ataques que deixam 600 mil sem luz
Kiev denunciou falta de alertas sobre mísseis russos e afirmou, horas depois, que empresa de Musk restabeleceu serviço, embora com velocidade limitada. Novas ofensivas desafiam trégua anunciada por Trump
Por O Globo e agências internacionais — Kiev
14/10/2026 15h30 Atualizado 14/10/2026 16h59
A Ucrânia acusou os Estados Unidos nesta quarta-feira de ajudar a Rússia ao não alertar sobre a aproximação de mísseis e prejudicar sua capacidade de resposta militar por meio de alterações no sistema Starlink, utilizado pelas forças ucranianas no campo de batalha. Após uma nova ofensiva russa deixar pelo menos seis pessoas mortas, 25 feridas e outras 600 mil sem energia elétrica na madrugada, o presidente Volodymyr Zelensky classificou a ausência de alertas sobre os ataques como “completamente injusta” e acusou Moscou de desrespeitar deliberadamente o suposto “cessar-fogo energético” anunciado pelo líder americano, Donald Trump. Algumas horas mais tarde, o governo ucraniano afirmou que o acesso "melhorou", embora tenha observado que a empresa de Elon Musk ainda limita a velocidade com que os drones podem viajar enquanto conectados ao serviço.
- Contexto: Ataque russo atinge usina elétrica e deixa dois mortos em Kiev, e Zelensky reclama de falta de alertas de aliados
- Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp
- Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países
Uma autoridade de alto escalão em Kiev confirmou que os EUA haviam ameaçado, nos últimos dias, interromper o fornecimento de informações de inteligência sobre o lançamento de mísseis russos, utilizadas pela Ucrânia para impedir ataques. Trump negou ter feito essa ameaça, mas fontes da área de Defesa também sugeriram que Washington estaria por trás da redução de velocidade relatada em alguns terminais de internet Starlink, que ajudam as Forças Armadas ucranianas.
— É óbvio que eles [os Estados Unidos] estão ajudando a Rússia por algum motivo — afirmou a autoridade de alto escalão à AFP.
O assessor de Zelensky, Sergiy Beskrestnov, afirmou que os ataques e as restrições à Starlink eram mais do que uma coincidência, uma vez que a rede era “a solução mais eficaz” para proteger a Ucrânia contra drones de ataque russos com propulsão a jato, capazes de voar a velocidades de até 600 quilômetros por hora. Em publicação no Telegram, ele escreveu, sem citar os EUA: “Com suas ações, nossos parceiros estão nos privando de uma das poucas oportunidades que temos de defender o país”.
"A SpaceX continua a manter o limite de 161 km/h. Ao longo do dia, as velocidades reais foram significativamente menores. No entanto, até o momento, observamos que, em velocidades de até 160 km/h, a qualidade da conexão melhorou", disse o Ministério da Defesa da Ucrânia algumas horas depois, após as denúncias.
Musk, por sua vez, afirmou que qualquer interrupção relatada pela Ucrânia em seu sistema de comunicações é de responsabilidade do governo dos EUA, e não de sua empresa. "Os sistemas Starshield são propriedade do governo dos EUA e controlados por ele. Quaisquer limites de velocidade ou uso são decididos pelos militares dos EUA e, em última instância, pelo presidente", disse Musk no X, sua rede social.
Conexão perdida
Fontes da Defesa ucraniana afirmaram que a SpaceX, empresa do bilionário do setor de tecnologia, “restringiu unilateralmente o funcionamento dos terminais Starshield [...] sem aviso prévio”, prejudicando a conectividade dos drones ucranianos. Musk e a SpaceX não se manifestaram. No entanto, no fim de semana, o bilionário manifestou apoio a Trump, que provocou indignação de aliados ao anunciar um acordo de fornecimento de diesel com Moscou, alvo de pesadas sanções, e anunciou um “cessar-fogo energético”.
- Entenda: Trump anuncia cessar-fogo energético entre Rússia e Ucrânia; Zelensky diz desconhecer acordo
Em Londres, Zelensky pediu nesta quarta-feira que o serviço da Starlink seja restabelecido, acrescentando que conta com a “colaboração dos EUA”. Durante sua fala à imprensa, feita antes de uma reunião com o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, Zelensky reconheceu que houve “muitas surpresas de diferentes naturezas” e “com as quais não se pode contar quando existe uma verdadeira colaboração”. O ucraniano alertou, ainda, para consequências caso os ataques russos continuem e o sistema da Starlink permaneça sem funcionar:
— Haverá mortos, é claro. Espero sinceramente que se trate de um erro, talvez um problema técnico grave. Não sei, mas pedimos que seja restabelecido — disse ele ao jornalista Piers Morgan, que havia perguntado qual mensagem ele gostaria de transmitir a Musk.
Em Moscou, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que a Rússia estava atenta a qualquer sinal de mudança no apoio de Washington à Ucrânia, embora tenha ressaltado que “ainda é cedo” para tirar conclusões mais amplas. No fim de semana, Trump também atacou duramente Zelensky, chegando a sugerir que o ucraniano deveria ser substituído na Presidência caso não interrompesse os ataques ucranianos de longo alcance contra a estrutura energética russa.
Trump, que enfrenta eleições legislativas de meio de mandato decisivas no próximo mês, culpou os ataques ucranianos contra refinarias de petróleo russas pela redução da oferta de combustíveis e pelo aumento dos preços nos postos de abastecimento. Especialistas, porém, afirmam que a verdadeira causa são os ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irã, iniciados em fevereiro, que levaram Teerã a bloquear o Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte de petróleo e gás.
‘Ataque maciço’
Mais cedo, o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, relatou na madrugada um “ataque maciço com mísseis balísticos” contra a capital, que atingiu instalações energéticas e provocou interrupções no fornecimento de eletricidade em toda a cidade. Um prédio residencial também foi atingido, e moradores enfrentaram cortes de água e energia. Segundo o premier ucraniano, Serhii Koretskyi, três usinas municipais e instalações ferroviárias estatais em cinco regiões do país foram atacadas.
A Força Aérea ucraniana informou que a Rússia lançou 39 mísseis balísticos e de cruzeiro e 128 drones durante a madrugada. Desse total, quatro mísseis e 115 drones foram abatidos. O Ministério da Defesa russo confirmou a realização de um “ataque maciço” e afirmou que suas forças atingiram seis usinas termelétricas e uma subestação que abasteciam Kiev e seus arredores, além da região de Kharkiv. Moscou disse, no entanto, que os alvos incluíam instalações de comunicação e energia utilizadas pelas Forças Armadas ucranianas.
Zelensky acusou Moscou de atacar deliberadamente as instalações energéticas que deveriam estar protegidas pelo entendimento anunciado por Washington. No X, ele escreveu que “a Rússia teve como alvo justamente a infraestrutura abrangida pelo cessar-fogo anunciado pelo presidente americano”, e “o ataque foi inteiramente deliberado e demonstrativo em sua escala”. O presidente disse, ainda, que Moscou “nunca demonstrou antes um desrespeito tão ostensivo pelos EUA” e “não considera fortes as declarações do presidente americano”.
Desde o anúncio da trégua feito por Trump, Zelensky afirmou repetidamente que a Ucrânia está disposta a suspender ataques contra refinarias de petróleo e outras instalações energéticas russas, desde que Moscou adote a mesma medida. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, por sua vez, declarou que Kiev não merece a trégua, argumentando que a suspensão das hostilidades permitiria que a Europa abastecesse a Ucrânia com novos armamentos.
Enquanto Trump e seu governo intensificam a pressão sobre a Ucrânia para que interrompa os ataques contra refinarias russas, alegando prejuízos aos consumidores americanos, eles permanecem em silêncio diante dos recentes ataques russos contra empresas dos EUA instaladas em território ucraniano. Nos últimos meses, Moscou intensificou suas ofensivas contra instalações ligadas a empresas americanas no país.
— Nunca vimos nada parecido — disse à CNN Andy Hunter, presidente da Câmara Americana de Comércio na Ucrânia, destacando que mísseis e drones russos danificaram instalações de algumas das marcas mais conhecidas dos EUA, como Coca-Cola, PepsiCo e McDonald’s. — Isso transmite a mensagem de que estão mirando empresas americanas. Não estamos vendo nenhuma reação da Casa Branca.
Falhas nos alertas
Os bombardeios desta quarta-feira marcaram a segunda noite consecutiva de ataques russos com mísseis contra Kiev. Nas duas ocasiões, projéteis balísticos atingiram alvos na capital antes que as sirenes de alerta aéreo fossem acionadas. A Ucrânia depende de sistemas de satélites americanos para rastrear lançamentos russos, emitir avisos à população e tentar interceptar os mísseis antes que atinjam seus alvos.
Zelensky disse ter informado ao premier canadense, Mark Carney, que a Ucrânia não recebeu “nenhum aviso prévio de nossos parceiros” sobre os lançamentos de mísseis balísticos russos, pela segunda vez nesta semana. O ucraniano não apresentou detalhes sobre a falha. Na terça-feira, ele já havia denunciado a ausência de um alerta antecipado durante o que classificou como um ataque “particularmente vil” contra a capital.
Também mais cedo, o assessor militar de Zelensky, Serhii Beskrestnov, conhecido pelo codinome Flash, afirmou que a Starlink implementou, durante a madrugada, um limite de velocidade de 160 km/h nos terminais, afetando o chamado StarShield, pacote de serviços militares da empresa. Em uma publicação no Facebook, ele escreveu:
“Nossas forças de defesa não receberam nenhum aviso sobre essa restrição, o que levou à interrupção de diversas missões. Está claro que essa medida não pode ser uma coincidência”.
Do lado russo, o Ministério da Defesa afirmou ter abatido 902 drones ucranianos durante a madrugada em diferentes regiões do país, incluindo Moscou e a Crimeia, península ucraniana anexada pela Rússia em 2014. O Sberbank, maior banco russo e controlado pelo Estado, informou que seu centro de processamento de dados em Balakovo, na região de Saratov, foi alvo de um ataque com drones. Segundo o primeiro vice-presidente da instituição, Alexander Vedyakhin, todos os sistemas e serviços continuavam funcionando normalmente.
(Com Bloomberg e AFP)