Há décadas não se via tamanho poder de fogo americano concentrado no Oriente Médio. E nem tamanha incerteza sobre o que esse poder deve alcançar. Dois porta-aviões e um reforço substancial de aeronaves e sistemas antimísseis – um arsenal que permite tanto ataques aéreos quanto apoio defensivo prolongado – sugerem mais que um gesto simbólico. Claramente Washington está em condições de promover ataques massivos. A grande incógnita é qual seria o objetivo.
O prazo imposto pela Casa Branca, de cerca de dez dias, é curto, e as posições são estruturalmente incompatíveis. A exigência de enriquecimento zero de urânio por parte do Irã, para interromper de vez o programa nuclear cujo objetivo, todos sabem, é obter a bomba, toca o núcleo da legitimidade estratégica do regime. Do seu ponto de vista, aceitar tal condição equivaleria a admitir derrota sob coerção externa – algo politicamente tóxico num sistema que se define pela “resistência”. A tendência iraniana é de diluição e procrastinação. Na perspectiva americana, contudo, aceitar um arranjo ambíguo depois de mobilizar tamanha força militar corroeria a credibilidade do governo. Tudo isso reduz as probabilidades de um acordo substantivo dentro do prazo.
O regime dos aiatolás está mais fraco do que esteve em anos, talvez mais do que nunca. Sua rede de milícias por procuração foi severamente degradada nos confrontos com Israel, a economia cambaleia e os protestos recentes expõem uma irritação profunda e difusa. Essa fragilidade pode reduzir o risco de uma guerra prolongada – mas também pode ampliá-lo. Regimes acuados nem sempre agem com prudência; às vezes apostam alto quando percebem que o tempo joga contra eles. Tanto pior quando se trata de uma teocracia que se crê investida de uma missão revolucionária divina.
É nesse ponto que o dilema americano se torna evidente. Qual é o objetivo do presidente Donald Trump? Punir a repressão? Forçar um acordo nuclear amplo? Neutralizar o arsenal balístico? Ou algo mais ambicioso, como alterar o regime? Cada meta exigiria meios e compromissos distintos. Sem definição política clara, a força militar, que deveria ser um instrumento estratégico, passa a ser uma aposta. Guerras iniciadas sem um fim definido raramente terminam nos termos imaginados.
A ideia de um “ataque controlado” carrega outra limitação. Bombardeios cirúrgicos podem destruir instalações, mas dificilmente alteram decisões estratégicas enraizadas. Ataques limitados tendem a produzir concessões – que serão, por definição, limitadas. Ataques amplos arriscariam envolver os EUA num conflito com duração e desfecho imprevisíveis. A superioridade aérea é um fato; sua capacidade de produzir transformação política é apenas uma suposição.
O risco maior nasce não exatamente do poder de agressão americano e de retaliação iraniano, mas da combinação entre a fragilidade estratégica de Teerã e a indefinição de Washington. Um regime sob pressão pode reagir de forma desproporcional. Uma potência que mobiliza vastos meios sem declarar claramente seu propósito amplia a margem para mal-entendidos e erros de cálculo. Entre a coerção eficaz e a escalada involuntária, há uma linha volátil.
Como observou o chanceler de Napoleão, Talleyrand, “pode-se fazer muitas coisas com baionetas, exceto sentar sobre elas”. Prazos curtos e pressões domésticas comprimem o espaço para o cálculo frio. O que será decisivo nos próximos dias não é a quantidade de aeronaves disponíveis, e sim a definição do objetivo político que orienta seu uso. A história recente do Oriente Médio sugere cautela: destruir alvos é tarefa militar; resolver dilemas estratégicos é um desafio muito diferente.