Opinião | Um e-mail
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Opinião | Um e-mail

Antes de responder, é prudente levantar-se, beber água e olhar pela janela.

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Responder um e-mail é, em tese, uma das atividades mais simples da vida contemporânea. Trata-se de apertar alguns botões, formar palavras reconhecíveis e enviá-las para outro ser humano, que provavelmente nem queira mais recebê-las. Ainda assim, poucas tarefas exigem preparo psicológico tão rigoroso.

O primeiro passo é abrir o e-mail recebido. Esse gesto, quase inocente, já carrega riscos. O conteúdo pode conter perguntas. Perguntas exigem respostas. Respostas implicam responsabilidades futuras. Ao abrir a mensagem, portanto, o indivíduo não está apenas lendo: está assinando um contrato com o desconhecido.

Uma estratégia segura é reler o e-mail várias vezes, em busca de sentidos ocultos. Talvez a pessoa não esteja realmente pedindo o que parece estar requisitando. Muitas mensagens corporativas, por exemplo, funcionam como poemas simbolistas. "Você poderia ver isso para mim?" pode significar desde "quando tiver tempo" até "abandone tudo agora e dedique-se integralmente a esta planilha, caso queira permanecer empregado".

Antes de responder, é prudente levantar-se, beber água e olhar pela janela. Grandes decisões não devem ser tomadas com a garganta seca. Enquanto observa a rua, quem vai responder pode refletir sobre a história do correio eletrônico e sobre como a humanidade viveu milênios sem ele, o que prova que a resposta talvez não deva ser tão urgente assim.

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Ao voltar à cadeira, abre-se a janela de resposta. O cursor piscando é uma acusação luminosa. Ele diz: Ok, estamos esperando aqui." Nesse momento, é recomendável ajustar a postura, alinhar o teclado e planejar a frase inicial. "Olá" é amistoso demais? "Prezado" soa hostil? Talvez seja melhor começar com nada e deixar que o corpo do texto resolva a saudação mais adiante.

Escreve-se uma linha. Apaga-se. Escreve-se outra. A segunda parece agressiva. A terceira, subserviente. A quarta sugere incompetência técnica. É surpreendente como poucas palavras conseguem arruinar carreiras inteiras.

Nesse estágio, a melhor saída é revisar a gramática de uma frase que ainda não existe. Isso dará a sensação de progresso sem o perigo de avançar muito. Também é útil verificar a caixa de entrada de novo, para confirmar se o e-mail ainda está lá. Muitas vezes ele está, o que reforça a gravidade da situação.

Por fim, depois de muitos minutos de intensa preparação estratégica, escreve-se: "Ok, obrigado. Vejo isso."

Envia-se.

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Imediatamente percebe-se que deveria ser escrito: "Obrigado, ok. Vejo isso."

Agora é irreversível: o futuro e a reputação social já estão comprometidos. Resta apenas levantar-se, beber mais água e aguardar a resposta. Que, com sorte, nunca virá.