Chega esta semana aos cinemas o espanhol Sirat, uma das pedras no sapato de O Agente Secreto na disputa pelo Oscar de filme internacional.
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Nessa busca, a tensão só aumenta. Há sequências terríveis, como a morte de uma criança, e outras, tensas, que lembram o clima de Salário do Medo, thriller clássico de George-Henri Clouzot. Vamos ver como o filme de Oliver Laxe impressiona (ou não) o público brasileiro. Na sessão em que o vi - na Sala São Paulo, abertura da Mostra de 2025 - foi bem recebido. Mas nos comentários pós-sessão, já dividia opiniões.
Leia aqui a crítica:
Como contraponto, jogando na chave da delicadeza, temos A História do Som, de Oliver Hermanus. Dois jovens musicólogos, vividos por Paul Mescal e Josh O'Connor, começam um relacionamento enquanto buscam pesquisas in loco as raízes da música country norte-americano. Desejo e música, em doses parcimoniosas e registro cool, mas nunca fashion. O espectador intui a sinceridade do projeto e a respeita. Talvez não se envolva tanto, mas pode sentir uma espécie de emoção discreta e nem por isso desprezível. Pelo contrário.
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Registro delicado também, mas em chave muitíssimo mais modesta, o brasileiro É Tempo de Amoras, de Anahí Borges, traz a grande atriz Rosamaria Murtinho, uma presença rara em nossas telas. Ela é a idosa Pasqualina que, sem família, recolhe-se a uma casa de repouso. Em paralelo, a garotinha Pety (Analu Reis), anseia pela avó que ela não tem. O acaso as une em seus desejos complementares. A história parece bastante simples, comovedoramente ingênua, mesmo no âmbito da fotografia e da trilha musical, que reafirmam a busca da emoção básica, isenta de contradições ou maiores complexidades. Elenco Ok, a começar por Rosamaria, estendendo-se pelas crianças. Algo nos atrai em uma obra tão despojada. Talvez a nostalgia dessas mesmas emoções e angústias básicas, que parecem diluídas neste mundo louco do presente, mais propenso ao embate que ao encontro. Elas estão lá: a memória do passado, a angústia da velhice e da morte, a ternura que, se não redime tudo, suaviza a nossa passagem por este vale de lágrimas. A que público se destina esse tipo de filme nos dias de hoje? Não sei responder.
E, no entanto, é uma pergunta premente para o cinema brasileiro, como destaca o artigo de Rodrigo Saturnino Braga publicado no prestigiado portal Filme B. Nele, Saturnino afirma que é enganoso o suposto círculo virtuoso do cinema brasileiro em razão do sucesso internacional de crítica, premiação e público de dois filmes - Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho. São exceções e não a regra numa realidade cinematográfica que produz muitos filmes sem que estes cheguem de fato ao público. Os números produzem mais arrepios que qualquer filme de terror.