As doenças raras têm incidência de até 65 pessoas a cada 100 mil habitantes1. Somadas, porém, afetam 300 milhões de pessoas no mundo2. Uma parcela dessas condições envolve o sistema nervoso – central, periférico ou a junção neuromuscular3. São as chamadas doenças raras neurológicas.
“Um sintoma neurológico é qualquer alteração relacionada ao eixo composto pelo sistema nervoso central e periférico”, explica Rodrigo Fock, médico geneticista e líder de Inovação em Genética e Genômica do Instituto Jô Clemente (IJC), de São Paulo. “Pensamos nas manifestações resultantes de falhas na comunicação entre o sistema nervoso e o corpo, comprometendo funções motoras, sensoriais ou cognitivas.”
Entre os exemplos mais conhecidos estão a esclerose lateral amiotrófica (ELA), com incidência estimada de 0,83 casos por 100 mil habitantes no Brasil4; a miastenia gravis (MG), com prevalência global estimada entre 12 e 25 casos por 100 mil habitantes5; e o transtorno do espectro da neuromielite óptica (NMOSD), cuja prevalência varia, em diferentes estudos e populações, entre 0,5 e 10 casos por 100 mil habitantes6. Apesar das diferenças fisiopatológicas, o início dessas e de outras doenças raras neurológicas pode ser semelhante e desafiador, com sinais sutis e difíceis de interpretar.
Sintomas raros ou doenças raras?
Para Fock, é importante fazer uma diferenciação entre sintomas neurológicos raros e doenças neurológicas raras, porque uma coisa não é necessariamente a outra. “É fundamental separar a definição epidemiológica da manifestação clínica. Doença rara é uma definição baseada em prevalência. Já o sintoma neurológico é qualquer alteração relacionada ao sistema nervoso central ou periférico, e podemos ter sintomas comuns associados a doenças raras”, explica.
Na prática clínica, essa sobreposição de sintomas costuma gerar confusão. “Pode haver erros de leitura desses sintomas. Entre os mais comuns está a psicologização, quando se atribui o sintoma a uma causa psicológica ou psicossomática. Uma fraqueza motora pode ser associada à ansiedade ou ao burnout, por exemplo.”
Os sintomas variam conforme a área do sistema nervoso afetada, podendo incluir fraqueza muscular, alterações visuais, crises epilépticas, regressão do desenvolvimento, desequilíbrio, distúrbios de movimento ou alterações cognitivas3. “A grande dificuldade é justamente identificar no início, já que costumam surgir sintomas leves e inespecíficos”, afirma Frederico Haidar Jorge, neurologista responsável pelo Centro de Infusão do Hospital Santa Catarina – Paulista.
Na infância, os sinais podem ser ainda mais discretos. “Na maioria dos casos, os primeiros sinais se manifestam como atraso no desenvolvimento, regressão de habilidades adquiridas, hipotonia persistente ou crises epilépticas de difícil controle”, explica Mariane Wehmuth, neuropediatra e chefe do Serviço de Pediatria do Hospital Universitário Evangélico Mackenzie, em Curitiba (PR).
A jornada do diagnóstico
Como são pouco frequentes, essas doenças nem sempre estão entre as primeiras hipóteses consideradas na consulta médica. Dados da Rede Nacional de Doenças Raras (Raras) mostram que, em média, o diagnóstico no Brasil leva cerca de 5,4 anos após o aparecimento dos primeiros sintomas7.
Mesmo em doenças mais conhecidas, o atraso é significativo. “No caso da ELA, do início dos sintomas ao diagnóstico, comumente demora um ano para o paciente receber uma definição diagnóstica. E já é muito tempo”, afirma Haidar.
Enquanto o diagnóstico e o início do tratamento não vêm, o impacto das doenças tende a ser variável, mas com chances de ser grave, progressivo e diminuir a qualidade de vida. No caso da MG, como descreve Fock, ocorre a chamada “incerteza da força”, em que o paciente não consegue ter a segurança de que conseguirá terminar uma determinada atividade, mesmo as mais simples, como se alimentar sem engasgar. “Sem contar o impacto psicológico e financeiro que comumente atinge toda a família”, diz.
Um dos grandes desafios é que o diagnóstico não depende de um exame único. Pode envolver avaliação clínica detalhada, exame neurológico completo, ressonância magnética, eletroneuromiografia, testes sorológicos e exames genéticos8. “Os mais importantes, disparado, são o exame físico neurológico e uma boa anamnese. Depois dessa avaliação, o médico direcionará os exames específicos”, diz Haidar.
É nesse momento que as inovações médicas ganham destaque. De acordo com Mariane Wehmuth, os testes genéticos têm ganhado papel decisivo no caminho até o diagnóstico. “Painéis multigênicos, sequenciamento de exoma e genoma têm permitido diagnósticos mais precoces e precisos.”
Tratamento: avanços e desafios
Apesar dos desafios, os avanços científicos vêm mudando o cenário. “Na era da medicina de precisão, o desenvolvimento de novos tratamentos focados em terapias gênicas e aprimoramento de moléculas oferecem novas opções”, afirma Fock. “Devemos ver progressos significativos na próxima década.”
Para Haidar, a expectativa é de que o mundo ainda assista a uma revolução terapêutica. “Não sabemos se curativa, nem em quanto tempo. Porém, a cada ano surgem novas perspectivas e estratégias como forma de abrandar o curso dessas doenças. E, em paralelo, sempre devemos cuidar do paciente para além de ter uma cura ou não.”