A relação do uso da terra com eventos climáticos e recursos naturais passa por importante transformação, e a oportunidade de o agronegócio brasileiro liderar essa agenda é evidente. Poucos segmentos empresariais estão mais expostos e, ao mesmo tempo, preparados para essa empreitada.
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Há, no entanto, poucos sinais de que o setor esteja disposto a assumir esse papel. Provavelmente a sua dimensão e o peso da sua heterogeneidade sejam muito grandes para que uma articulação eficiente se dê neste sentido. Este é um belo dilema, uma vez que, dentro dessa heterogeneidade, certamente encontramos, no Brasil, empresas com escalas, presenças territoriais, visões de negócios, estratégias e práticas que as habilitem a agir de forma isolada ou pré-competitiva nesse desafio de liderança global.
Está acontecendo uma ampla discussão sobre um novo equilíbrio entre economias dominantes e emergentes. A pauta das diversas seguranças –territorial, energética, mineral e alimentar – tem orientado os conflitos bélicos e as reações nacionalistas vigentes. O aumento da demanda global por alimentos, derivado do crescimento populacional e da classe média em países como China e Índia, reforça ainda mais esse componente.
O contexto, obviamente, não é trivial. O ambiente climático, político e de negócios é acima de tudo incerto. A imprevisibilidade climática já é cientificamente evidenciada. Uma entre poucas certezas é que eventos climáticos extremos terão incidência e dimensões aumentadas. A outra certeza é que grande parte das soluções para as demandas das seguranças citadas tem fortes vínculos com o uso da terra e o acesso a recursos naturais.
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Dessa forma, a oportunidade de liderança da agenda climática e de recursos naturais recai naturalmente no setor agroindustrial. E, nesse contexto, é evidente que o papel do Brasil e das empresas que coordenam esses sistemas pode ser determinante. Além das óbvias vantagens comparativas, no campo do soft power, o Brasil tem vasta experiência em lidar com incertezas. Nos adaptamos a políticas públicas erráticas, a crises econômicas cíclicas, a um ambiente legislativo movediço e a um processo democrático peculiar.
As discussões sobre incertezas trazem elementos que reforçam a posição do Brasil e, particularmente, da agroindústria nacional, como potencial líder global dessa agenda. Somos uma sociedade diversa e se, por um lado, a heterogeneidade do agronegócio brasileiro mistura joio e trigo, por outro oferece um espectro de experiências amplo e diverso, condição básica para lidar com um contexto em que, mais que probabilidades, o que se apresenta são possibilidades.
Em um cenário onde quase tudo pode acontecer, quanto maior o espectro de conhecimentos, de experiências e de culturas, maior se torna a chance de que soluções improváveis passem a ser as mais eficientes, às vezes encobertas por situações dominantes, mas que eventualmente não sejam as mais adequadas em novos contextos.
Sem querer defender a falta de disciplina e adesão ao ambiente institucional, o fato é que brasileiros são, em geral, bastante flexíveis. “A lei, ora a lei...’’, frase atribuída a Getúlio Vargas, é um exemplo. Em ambientes de alta imprevisibilidade, agir fora de parâmetros pré-definidos pode ser uma vantagem. Flexibilidade, expansividade, criatividade, tolerância a riscos e uma certa relação com o ócio criativo – Domenico De Masi que o diga – são características culturais importantes e que, se combinadas com a determinação e a capacidade empreendedora do agronegócio brasileiro, podem ser determinantes em momentos de transformação. “Não se pode mitigar incertezas, mas navegar com elas”, disse um eminente participante de um fórum da Chatham House, em Londres, sobre governança e incertezas.
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A proposta de que a liderança da agenda climática e da natureza seja protagonizada pelo agronegócio pode parecer estranha. Mas dois elementos chave reforçam essa tese. O primeiro é a inequívoca participação dos produtores rurais na conservação de recursos naturais do país. O cumprimento do Código Florestal delegou aos proprietários de terra privadas em torno de 45% das áreas de conservação florestal do país (cerca de 215 milhões de hectares). Embora o setor ainda não tenha assumido o evidente valor desse capital natural, há sinais fortes de que a monetização desse patrimônio virá do reconhecimento dos serviços ecossistêmicos – hídrico, climático, biodiversidade etc. – a ele associado. O agronegócio brasileiro é o maior detentor de capital natural privado do planeta. Deveriam ser os detentores deste capital os maiores interessados em evidenciá-lo economicamente.
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O segundo elemento de sustentação da proposta da liderança agroempresarial da agenda climática e da natureza é um tema delicado. Tangencia a decrescente credibilidade das organizações ambientalistas em regiões onde o valor da natureza é determinante para o planeta: a Amazônia, por exemplo.
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A maior parte da população local não adere, não defende e, pelo contrário, manifesta de diversas formas seu distanciamento das pautas e ações defendidas pelas ONGs ambientalistas. O voto em políticos e partidos com agendas antiambientalistas é apenas um exemplo. A pressão para que essas organizações se engajem em soluções pragmáticas e estruturantes vem de grande parte da sociedade e de doadores, que cada vez mais contestam o conceito de projetismo, comumente voltado para soluções que não geram sustentabilidade econômica no longo prazo.
O ativismo acusatório tem sido questionado com evidências da fragilidade de fundamentos concretos e comprováveis, com frequência se misturando com a desastrosa onda de fake news digitais. O quadro, no entanto, não é tão desolador. É preciso admitir que parte das organizações com foco ambiental está reconhecendo a necessidade de inclusão social em suas agendas, com maior engajamento e escuta dos desejos e necessidades vitais das populações que vivem nessas regiões.
O fato é que a agenda climática e de recursos naturais passou a ser econômica. Sem juízo de valor sobre essa condição, é evidente que o agronegócio brasileiro tem todos os elementos para liderar a pauta climática e da natureza no âmbito global.
Apesar de, como setor, ter uma reputação de destruidor da natureza, concretamente detém sob sua responsabilidade de uma imensidão de capital natural, é um dos principais agentes globais da segurança alimentar, se situa em um país onde a inteligência da natureza* se manifesta fortemente como, por exemplo, no domínio de práticas agrícolas de eficiência ímpar (vale sempre ressaltar a importância da Embrapa), se estabelece em áreas de riscos climáticos e necessidade de estratégias de adaptação evidentes, se consolidou graças a uma força empreendedora e criativa indiscutíveis, é altamente flexível em suas estratégias, navega em ambientes diversos, não se inibe diante de incertezas e convive com uma sociedade civil contundente.
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É evidente que a legitimidade global desta liderança passa pelo compromisso setorial, ou de parte dele, de se distanciar pública e completamente de práticas ilegais relacionadas ao uso da terra. Há disposição para tanto?
*O conceito da inteligência da natureza como complemento à inteligência artificial, tão em voga, e à inteligência humana, tão questionada, foi proposto pelo professor Pedro Brancalion, da Esalq/USP.