O universo de doenças raras é amplo, pois se estima que existam entre 7 mil e 8 mil doenças raras descritas no mundo¹,². No Brasil, uma doença é considerada rara quando afeta até 65 pessoas a cada 100 mil habitantes³. Cerca de 70% a 80% dessas condições têm origem genética²,⁴.
As causas são diversas. Há doenças raras de origem infecciosa, imunológica, oncológica ou metabólica. Mas muitas delas estão relacionadas a alterações no material genético. Isso significa que, em muitos casos, a explicação para sintomas persistentes, progressivos ou difíceis de compreender pode estar no DNA, a molécula que carrega as instruções para o funcionamento do organismo.
Para entender melhor, é preciso saber que o DNA humano contém aproximadamente 3 bilhões de “letras”, organizadas em uma sequência específica que orienta a produção das proteínas responsáveis por praticamente todas as funções do corpo⁵. “Um erro nessa sequência – a troca de uma letra por outra, uma letra a mais ou a menos – pode levar a uma mensagem equivocada que resulta na falha em um processo, que pode ter consequências danosas para o indivíduo”, explica Roberto Giugliani, médico geneticista da Dasa Genômica.
Doença genética não é sinônimo de herança familiar
Quando se diz que uma doença rara é genética, isso significa que ela tem origem em uma alteração no DNA. “Isso, por si só, não informa como essa alteração surgiu nem se ela pode ser transmitida para outras pessoas da família”, explica Deivid Calebe de Souza, médico geneticista da Oncoclínicas e responsável técnico do Serviço de Referência em Doenças Rraras do Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, PR.
Algumas alterações estão presentes desde a concepção e podem ser herdadas dos pais. Outras surgem após a concepção, afetando apenas parte das células do corpo, as chamadas alterações somáticas, e não são transmitidas aos descendentes. O câncer, por exemplo, ajuda a ilustrar essa diferença: todo câncer tem origem genética, pois resulta de alterações no DNA das células. No entanto, apenas cerca de 5% a 10% dos casos têm causa hereditária⁶.
Por que o diagnóstico costuma demorar?
Uma alteração genética pode comprometer a função de uma proteína ou de uma via biológica essencial ao organismo. Como o corpo humano tem cerca de 20 mil genes codificadores de proteínas⁵, o impacto é variável. Dependendo do gene envolvido, os sintomas podem afetar crescimento, desenvolvimento neurológico, metabolismo ou sistema imunológico, ou aumentar o risco de determinadas doenças.
Muitas doenças genéticas raras se manifestam com sintomas inespecíficos, que também aparecem em condições mais comuns⁸. Além disso, por serem raras, são pouco frequentes na prática clínica cotidiana, o que contribui para atrasos na suspeita diagnóstica.
Teste genético e acesso no Brasil
O teste genético é indicado quando a avaliação clínica sugere uma condição genética e exames convencionais não conseguem explicar o quadro⁷,⁹. Em algumas doenças, ele é a única ferramenta capaz de confirmar o diagnóstico.
Um exemplo é a atrofia muscular espinhal (AME), uma das principais causas genéticas de mortalidade infantil, que atualmente conta com terapias capazes de modificar o curso da doença, especialmente quando o diagnóstico é feito precocemente¹⁰. Como existem milhares de síndromes genéticas descritas¹¹, não há um único exame capaz de identificar todas as causas possíveis. A escolha do teste adequado e a interpretação correta dos resultados exigem avaliação especializada.
No Brasil, a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras³ estruturou centros de referência no Sistema Único de Saúde (SUS) para diagnóstico e acompanhamento desses pacientes⁹. O avanço do sequenciamento genético também reduziu custos e ampliou o acesso aos exames moleculares nos últimos anos⁴.