Uma tempestade severa desabou sobre a Zona da Mata mineira. Em Juiz de Fora, a cidade mais afetada pela chuva, foram 220 milímetros de precipitação em 12 horas, segundo as medições do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). É muita água para tão pouco tempo: para todo o mês de fevereiro, eram esperados 170 milímetros de chuva. A combinação de tempestade volumosa e ocupação de encostas faz o Brasil, mais uma vez, assistir a uma tragédia: cidades mineiras contam seus mortos, que já passam de cinco dezenas.
Há quem chame os episódios reiterados de fortes chuvas, deslizamentos de terra, soterramentos de casas e mortes de brasileiros de “desastre ambiental”. Trata-se de um erro: é da natureza uma chuva causar transtornos, derrubar árvores, inundar ruas, cortar a energia elétrica, interromper o abastecimento de água e disseminar doenças contagiosas. Mas é inaceitável culpar a chuva pela morte de tanta gente. Isso porque a chuva cai em diversos pontos da cidade ou na cidade inteira, mas as mortes não ocorrem em todos os lugares.
A tragédia brasileira tem endereço certo: são as áreas de risco, já mapeadas pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Só em Juiz de Fora, cerca de 130 mil dos 540 mil habitantes estão nessas localidades. Ou seja, o poder público sabia muito bem onde ficava cada uma das casas que agora vieram abaixo. Nelas, os moradores choram seus mortos.
Declarações de autoridades empurrando as responsabilidades ou politizando o sofrimento do povo mineiro em ano eleitoral não ajudam em nada. É claro que a prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão (PT), e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva precisam explicar os atrasos nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para a prevenção de desastres. Assim como o governador Romeu Zema (Novo) precisa explicar o corte de mais de 90% nos investimentos em medidas de redução dos impactos das chuvas.
Mas a crise agora exige serenidade e, sobretudo, colaboração federativa. De Zema, espera-se que coordene os trabalhos, com presença constante: ou seja, não pode delegar suas obrigações ao vice, Mateus Simões (PSD), seu candidato à sucessão; da prefeita Margarida, que admita a falha da política habitacional de Juiz de Fora, onde mais de 20% dos moradores estão em áreas de risco; e do governo Lula, todo o apoio aos governos locais e à população.
Há muito trabalho a ser feito, agora e mais à frente. E, como afirmou ao Estadão o coordenador do Cemaden, José Marengo, os governos precisam consultar a ciência, que parecem ignorar, e recobrar a memória, que parecem ter perdido. Nenhuma autoridade pública pode alegar falta de conhecimento dos efeitos das mudanças do clima nem dizer que não dispõe de dados para subsidiar o desenho de políticas públicas de urbanismo e ocupação do solo: o Brasil tem centros de excelência na produção de informações climáticas. Negligenciar a ciência não é uma boa decisão, pois os desastres se repetem: Petrópolis (2011), São Sebastião (2023) e Juiz de Fora (2026).