Após mais de 25 anos de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) foi aprovado nesta sexta-feira (9) pelo Conselho da EU. Com a previsão de ser assinado no dia 17 em Assunção, Paraguai, o tratado estabelece as bases da maior zona de livre comércio do mundo, envolvendo cerca de 700 milhões de pessoas.
Embora celebrado por governos e setores industriais, o acordo ainda enfrenta resistência de agricultores europeus e ambientalistas, que criticam possíveis impactos sobre o clima e a concorrência agrícola. A implementação será gradual e os efeitos práticos devem ser sentidos ao longo de vários anos.
Após a assinatura formal, o acordo ainda precisará ser aprovado pelo Parlamento Europeu. Partes que extrapolam a política comercial, como acordos técnicos, exigirão ratificação nos parlamentos nacionais da UE, o que pode alongar o cronograma e abrir espaço para disputas.
Confira os principais pontos do acordo:
1. Eliminação de tarifas alfandegárias
Redução gradual de tarifas sobre a maior parte dos bens e serviços;Mercosul: zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos;União Europeia: eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.2. Ganhos imediatos para a indústria
Tarifa zero desde o início para diversos produtos industriais.Setores beneficiados:
Máquinas e equipamentos;Automóveis e autopeças;Produtos químicos;Aeronaves e equipamentos de transporte.3. Acesso ampliado ao mercado europeu
Empresas do Mercosul ganham preferência em um mercado de alto poder aquisitivo;UE tem PIB estimado em US$ 22 trilhões;Comércio tende a ser mais previsível e com menos barreiras técnicas.4. Cotas para produtos agrícolas sensíveis
Produtos como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol terão cotas de importação;Acima dessas cotas, é cobrada tarifa;Cotas crescem ao longo do tempo, com tarifas reduzidas, em vez de liberar entrada sem restrições;Mecanismo busca evitar impactos abruptos sobre agricultores europeus;Na UE, as cotas equivalem a 3% dos bens ou 5% do valor importado do Brasil;No mercado brasileiro, chegam a 9% dos bens ou 8% do valor.5. Salvaguardas agrícolas
UE poderá reintroduzir tarifas temporariamente se:
Importações crescerem acima de limites definidos;Preços ficarem muito abaixo do mercado europeu;Medida vale para cadeias consideradas sensíveis.6. Compromissos ambientais obrigatórios
Produtos beneficiados pelo acordo não poderão estar ligados a desmatamento ilegal;Cláusulas ambientais são vinculantes;Possibilidade de suspensão do acordo em caso de violação do Acordo de Paris.7. Regras sanitárias continuam rigorosas
UE não flexibiliza padrões sanitários e fitossanitários.Produtos importados seguirão regras rígidas de segurança alimentar.8. Comércio de serviços e investimentos
Redução de discriminação regulatória a investidores estrangeiros. Avanços em setores como:
Serviços financeiros;Telecomunicações;Transporte;Serviços empresariais.9. Compras públicas
Empresas do Mercosul poderão disputar licitações públicas na UE;Regras mais transparentes e previsíveis.10. Proteção à propriedade intelectual
Reconhecimento de cerca de 350 indicações geográficas europeias;11. Pequenas e médias empresas (PMEs)
Capítulo específico para PMEs;Medidas de facilitação aduaneira e acesso à informação;Redução de custos e burocracia para pequenos exportadores.12. Impacto para o Brasil
Potencial de aumento das exportações, especialmente do agro e da indústria;Maior integração a cadeias globais de valor;Possível atração de investimentos estrangeiros no médio e longo prazo.13. Próximos passos
Assinatura prevista para 17 de janeiro, no Paraguai;Aprovação pelo Parlamento Europeu;Ratificação nos Congressos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai;Entrada em vigor apenas após conclusão de todos os trâmites;Acordos que extrapolam política comercial precisam ser aprovados pelos parlamentos de cada país.