Babado pesado. Não é qualquer fofoca de tabloide, não! Crise de verdade no coração da família real, daquelas histórias que chamam a atenção até mesmo na Casa de Windsor, calejada de escândalo. Pela primeira vez em mais de 300 anos de monarquia constitucional, um parente direto do rei é preso numa investigação criminal.
Não é primo distante, não é daqueles lordes excêntricos, é o irmão do rei. É, prenderam o Andrew. E irmão do rei Charles III. No dia em que Andrew completa 66 anos, aí em vez de presentinho, ou então um bolo surpresa, recebeu a polícia, que manteve ele preso por 12 horas. Andrew é investigado por algo muito sério. Ele teria repassado informações estratégicas quando ele exercia função pública. E pra quem ele repassou informações?
Para Jeffrey Epstein, o mesmo dos escândalos sexuais da rede de abusos, do caso que já tinha jogado Andrew no fundo do poço, anos atrás. E aliás, por causa desse caso anterior, Andrew perdeu o direito de usar o título de príncipe, de ser tratado como Sua Alteza Real. Ele é acusado de manter relação com uma menor de idade. Acabou fazendo um acordo milionário na justiça pra encerrar o processo. Fala-se em coisa de 80 milhões de reais, pagos em libras, naturalmente.
Pagou para tentar virar a página, só que agora é diferente. Não é processo civil, não dá pra fazer acordo, é investigação criminal. Se ficar provado que ele cometeu o crime, algo que beira traição, quase espionagem, a coisa pode ficar feia. E aqui vem a parte que chama a atenção. Andrew foi preso pela polícia comum, a mesma que atende briga de vizinho. Não teve operação cinematográfica, não teve corte especial, não teve tribunal exclusivo pra sangue azul.
Foi levado para cela comum, cama simples, vaso sanitário normal. Nada de ala diferenciada pra realeza. Ninguém falou em foro por prerrogativa de função. Porque na época dos fatos ele ocupava um cargo relevante, público, mas isso não mudou o endereço do processo. Ele tinha sido representante especial do Reino Unido para Comércio e Investimento. Foi entre 2001 e 2011.
Um cargo que era importante. Mesmo assim, o caso não foi pra suprema corte, não foi direto pro topo do judiciário. Aliás, se o Ministério Público entender que tem provas suficientes, a denúncia vai pra um juiz comum, como acontece com qualquer cidadão. Aí de volta pra casa, Andrew vai responder em liberdade enquanto o caso anda. Agora o estrago simbólico está feito. A monarquia britânica já sobreviveu a adultérios, amantes, traições, crises conjugais.
O império onde o sol nunca se punha, lembra? Faz tempo isso. Agora é um império onde as nuvens carregadas não vão embora. Só que agora a gente não está falando de fofoca de alcova, é suspeita de que um membro da família real pode ter traído a confiança do Estado. O rei reagiu do jeito certo. Ele disse que a lei deve seguir seu curso.
O primeiro-ministro foi na mesma linha: ninguém está acima da lei. Andrew está numa bela duma enrascada. Pode até ser absolvido, pode nem virar réu, mas uma coisa já ficou clara com o que a gente vê. Em democracia madura, o peso da história pode ser enorme, mas não é maior do que o peso da lei.