Mais de 200 pesquisas perdidas, prejuízo de R$ 100 milhões e investigação da PF: veja tudo sobre o incêndio na UFPE
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Mais de 200 pesquisas perdidas, prejuízo de R$ 100 milhões e investigação da PF: veja tudo sobre o incêndio na UFPE

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Prédio abrigava laboratórios de farmácia, informática e genética, e um núcleo de pesquisa em inovação terapêutica

09/10/2026 03h30 Atualizado 09/10/2026 03h30

Informações e amostras de mais de 200 pesquisas, além de materiais acumulados ao longo de duas décadas, foram destruídas no incêndio que atingiu um edifício da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na Zona Oeste do Recife, na noite de quarta-feira. O prédio abrigava laboratórios de farmácia, informática e genética, e um núcleo de pesquisa em inovação terapêutica. Foram afetados estudos sobre autismo, câncer e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, além de cerca de 80 teses de doutorado e dissertações de mestrado. Segundo a UFPE, o prejuízo estimado foi de R$ 100 milhões. A Polícia Federal vai investigar o incêndio.

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  • Foi o terceiro incêndio que atingiu um prédio da universidade em oito dias. No domingo, houve um no laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, no Centro de Biociências, causado por um curto-circuito em uma aparelho de ar-condicionado. No dia 30 de setembro, uma câmara de alta temperatura provocou chamas que se alastraram num laboratório do Departamento de Física. Como no incidente de quarta-feira, ninguém ficou ferido.

    Os bombeiros concluíram às 5h de ontem o trabalho de rescaldo do prédio. Laboratórios no pavimento inferior conseguiram ser preservados. O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, calculou que de 80 a 100 estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado usavam os laboratórios atingidos e perderam meses ou anos de trabalho.

    — É uma perda irreparável para a universidade, para todos os pesquisadores e pesquisadoras — lamentou.

    Antes de abrigar pesquisas, o edifício funcionava como restaurante universitário e, na pandemia de Covid-19, foi usado para estudos relacionados à doença. Por anos, o endereço sediou a Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) da UFPE.

    O ministro da Educação, Leonardo Barchini, que foi ao Recife constatar os danos, anunciou que vai liberar R$ 28 milhões para a construção de um novo prédio, além da reposição dos equipamentos destruídos. Barchini acrescentou que os pesquisadores poderão continuar seus trabalhos em universidades do Brasil e do exterior que ofereceram ajuda à UFPE.

    — Poderão fazer parte dos seus estudos no exterior, em laboratórios na Alemanha, Estados Unidos, França — declarou Barchini, ao visitar o campus.

    Segundo o ministro, o novo prédio seguirá o modelo de um centro de pesquisas da UFPE no município de Sertânia:

    — É um prédio alto, em torno de 7 mil metros quadrados. Esse prédio aqui tinha 3 mil metros quadrados. Construiremos assim que finalizar a perícia e a investigação. Acredito que em 30 dias a gente possa começar já as obras e o recurso ser liberado para a construção.

    A Polícia Federal começou a investigar as causas do incêndio usando drones e robôs no prédio. O delegado da PF Rodrigo Bastos disse que peritos do Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, irão fazer a análise do desastre.

    — Vamos tentar identificar o que deu início ao incêndio e reconstituir a dinâmica dos fatos no local, nos momentos que antecederam esse evento — detalhou.

    De acordo com o reitor, o prédio era antigo, mas tinha manutenção regular. Segundo a universidade, o fogo se espalhou rapidamente devido ao tipo de produtos armazenados. Mas Gomes ressalvou que os materiais inflamáveis dos laboratórios estavam adequadamente acondicionados e não teriam sido o motivo do fogo.

    Pesquisas incineradas

    O pesquisador da Fiocruz de Pernambuco Luydson Vasconcelos, de 43 anos, mantinha amostras de pesquisas relacionadas à genética de pessoas com câncer de fígado no laboratório danificado pelo fogo. O trabalho do pesquisador, em parceria com professores e alunos da UFPE que mantinham amostras de cerca de 200 pacientes, coletadas nos últimos 10 anos, foi destruído.

    — É uma perda inestimável. Estávamos tentando investigar possíveis fatores que poderiam ajudar os pacientes a desenvolverem marcadores biológicos para cuidar melhor e evitar o câncer. Todos os freezer que tinham as amostras, os reagentes que eram utilizados, foram destruídos — lamentou.

    Vasconcelos também estudava os componentes genéticos de indivíduos com Covid-19 e chikungunya. Os materiais desenvolvidos ao longo dos 15 anos também foram incinerados.

    — É muito difícil recuperar o que levou anos para ser construído. Algumas pessoas de quem a gente coletou o material biológico já morreram, não tem como mais recuperar. O que podemos fazer é recoletar tudo com novos projetos, tentar arrecadar fomento e comprar os equipamentos perdidos. Mas vai demorar anos até chegar no nível do que a gente chegou — previu o pesquisador.

    Nas redes sociais, a pesquisadora Aryane Aguiar publicou um depoimento lembrando os dois anos de mestrado que havia feito no prédio. “Foram perdas de materiais irreparáveis de inúmeros equipamentos e materiais de pesquisa de anos de desenvolvimento. Hoje a ciência perde muito”, afirmou Aguiar.

    Pesquisador do núcleo de inovação terapêutica atingido pelo fogo, Anderson Rodrigues lamentou a destruição do que chamo de sua casa, da iniciação científica até o pós-doutorado. “Sabemos o quanto de esforço, dedicação e trabalho árduo de uma equipe comprometida estão envolvidos na construção de um grande projeto e quantas vidas foram e continuam sendo transformadas por ele”, escreveu em seu perfil nas redes sociais, ao destacar o trabalho dos professores.

    Estudante de design do Centro Acadêmico do Agreste da UFPE, Rafael Avelino, de 21 anos, contou que assim que os estudantes tomaram conhecimento do incêndio, começaram a tentar mensurar as perdas acadêmicas, incluindo em trabalhos de conclusão de curso em e dissertações.

    — Além das amostras, a universidade também perdeu centenas de trabalhos acadêmicos no incêndio relacionados a amostras de câncer, TDAH, Transtorno do Espectro Autista, Covid-19, obesidade e outras temáticas — enumerou.

    * Estagiários sob a supervisão de Alfredo Mergulhão

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