Bolívia prende procurador-geral após EUA acusá-lo de receber subornos para facilitar narcotráfico e proteger criminosos
Operação investiga Roger Mariaca por organização criminosa, lavagem de dinheiro e tráfico; 14 pessoas foram presas e cerca de R$ 1,5 milhão, apreendidos
Por O GLOBO, com agências internacionais — La Paz
01/10/2026 16h27 Atualizado 01/10/2026 16h27
A Bolívia prendeu o procurador-geral Roger Mariaca em uma operação na noite de quarta-feira, após os Estados Unidos acusarem o chefe do Ministério Público de receber "subornos para facilitar o narcotráfico e ajudar criminosos violentos a escapar da Justiça". O governo boliviano afirmou, nesta quinta-feira, que Mariaca é investigado por organização criminosa, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas.
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O ministro do Governo (Interior), Marco Antonio Oviedo, afirmou que a polícia desmantelou uma organização criminosa instalada no sistema de Justiça e que a Procuradoria-Geral, sob o comando de Mariaca, teria se tornado uma estrutura "destinada a incentivar e proteger" o narcotráfico.
Ao todo, 14 pessoas foram presas, incluindo quatro procuradores, seis funcionários do Ministério Público e quatro pessoas que, segundo as autoridades, tentavam retirar dinheiro da casa de Mariaca em uma ambulância.
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Alberto Zeballos, procurador do departamento de Santa Cruz e outro funcionário boliviano sancionado por Washington nesta semana, também foi detido.
Dinheiro em uma ambulância
Segundo Oviedo, quatro pessoas foram encontradas durante a madrugada retirando dinheiro em espécie da residência de Mariaca, em Santa Cruz, a bordo de uma ambulância. Policiais encontraram maços de dinheiro em moeda boliviana e americana escondidos nos compartimentos do veículo.
De acordo com o Ministério do Governo, foram apreendidos mais de 3,5 milhões de bolivianos (cerca de R$ 1,5 milhão, na cotação atual), além de US$ 10 mil (R$ 52,2 mil) em espécie. A operação ocorreu enquanto as autoridades realizavam buscas em diferentes instalações do Ministério Público.
A polícia também fez uma operação de busca na sede central da Procuradoria, em Sucre, no sudeste do país, e em escritórios do órgão em Santa Cruz e La Paz, segundo imagens divulgadas pela imprensa local e pela própria instituição.
Os quatro procuradores detidos ficarão sob custódia policial e serão encaminhados à Justiça comum, segundo Oviedo. Diante da prisão de Mariaca, Luis Montaño Morales assumiu interinamente o comando da Procuradoria-Geral. Ele é o procurador superior com mais tempo de serviço na instituição.
Mariaca havia sido nomeado procurador-geral em outubro de 2024 pelo Congresso boliviano, que convocou uma sessão de emergência para esta sexta-feira para analisar o caso.
O advogado de Mariaca, Romel Ipamo, afirmou à imprensa local que a defesa pretende colaborar com as investigações.
— A única coisa que pedimos é que o devido processo seja respeitado — disse.
Pressão de Washington
A prisão ocorreu dois dias depois de os EUA revogarem os vistos de Mariaca e de outras autoridades da Bolívia, além de juízes, funcionários e empresários da Colômbia, Equador e Peru. Washington acusou os alvos de corrupção, vínculos com o narcotráfico ou conspiração contra seus respectivos governos.
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Segundo o governo americano, Mariaca teria recebido subornos para facilitar o tráfico de drogas. O procurador-geral negou as acusações e classificou a revogação de seu visto como um ato de “ingerência” e “pressão política”, relacionado a investigações conduzidas por sua gestão.
Após a prisão, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, elogiou a atuação do governo do presidente boliviano Rodrigo Paz.
“As ações da Bolívia demonstram o tipo de liderança necessário para tornar nosso hemisfério mais seguro, mais forte e mais próspero”, escreveu Rubio no X. “A administração Trump apoia firmemente o presidente Rodrigo Paz e o governo democraticamente eleito da Bolívia ao adotar ações ousadas e decisivas para combater o narcotráfico, a corrupção sistêmica e o crime organizado transnacional na Bolívia”.
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Oviedo afirmou que a operação foi conduzida pelas instituições bolivianas, mas contou com a “cooperação do governo americano por meio de suas agências”. O ministro agradeceu a Washington pela ajuda no combate ao que chamou de “narcoterrorismo”.
A Bolívia busca estreitar os laços com os EUA desde a eleição de Paz. Em março, o país aderiu ao Escudo das Américas, coalizão de segurança e combate ao crime organizado liderada pelo governo do presidente americano, Donald Trump, e que reúne cerca de 15 países.
Além das sanções diplomáticas, Washington vem ampliando sua atuação na região no combate ao narcotráfico. O Pentágono mantém operações contra supostas embarcações utilizadas pelo tráfico no Caribe e no Pacífico, enquanto forças americanas participam de operações no Equador e mantêm uma cooperação de longa data com a Colômbia.
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Em uma cúpula realizada à margem da Assembleia Geral da ONU, os integrantes do Escudo das Américas prometeram adotar “medidas coletivas” contra 24 grupos do crime organizado que Washington classifica oficialmente como “narcoterroristas”.
Investigação e vídeo
A prisão de Mariaca ocorre em meio a uma investigação mais ampla sobre sua atuação à frente do Ministério Público. Durante sua gestão, a polícia boliviana capturou, em março, o narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, que posteriormente foi expulso para os EUA com apoio da agência americana antidrogas, a DEA.
Na quarta-feira, meios de comunicação locais divulgaram um vídeo que supostamente mostra Marset, no dia de sua prisão, ao lado de policiais de elite em sua residência. Nas imagens, ele aparentemente afirma: “Mariaca é meu amigo”. A AFP não conseguiu verificar a autenticidade do vídeo.
Mariaca também havia se tornado alvo de críticas de Washington por sua atuação em investigações que envolviam interesses externos. Entre elas está o caso envolvendo Fernando Cerimedo, estrategista argentino que atuou como assessor de Paz e mantém relações políticas com líderes de direita da região, entre eles o presidente argentino Javier Milei e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
A prisão do procurador-geral ocorre, portanto, em um momento de aproximação entre La Paz e Washington e de intensificação da cooperação entre os dois governos no combate ao crime organizado.
(Com Bloomberg e AFP)