Em vitória para Trump, Suprema Corte dos EUA autoriza uso de banco de dados federal para triagem de eleitores
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Em vitória para Trump, Suprema Corte dos EUA autoriza uso de banco de dados federal para triagem de eleitores

Sistema reúne informações sobre cidadania, Previdência Social e outros dados de milhões de americanos; críticos alertam para risco de exclusão indevida de eleitores

25/09/2026 15h59 Atualizado 25/09/2026 16h01

A Suprema Corte dos Estados Unidos autorizou nesta sexta-feira o governo do presidente Donald Trump a implementar um amplo sistema federal que reúne informações sobre cidadania, números da Previdência Social e outros dados sensíveis de milhões de americanos. A ferramenta poderá ser usada por autoridades estaduais e locais para verificar os registros eleitorais e identificar pessoas que não estariam aptas a votar.

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  • A decisão ocorre semanas antes das eleições de meio de mandato, em novembro, e representa uma vitória para Trump, que tem pressionado o governo a buscar evidências de votação por não cidadãos. Casos desse tipo são raros, e críticos temem que o uso do sistema possa levar estados a excluir dos registros pessoas que têm direito a votar. Em consultas anteriores, a ferramenta classificou erroneamente cidadãos americanos como não cidadãos.

    A maioria da Suprema Corte concluiu que uma decisão de instância inferior que havia impedido o governo Trump de disponibilizar o sistema aos estados era inadequada porque dificultava “os esforços do governo federal para auxiliar órgãos estaduais e locais na administração adequada das eleições de meio de mandato”.

    A decisão de emergência não foi assinada e não informou a contagem dos votos, mas os três juízes liberais da Corte apresentaram voto divergente. Em uma manifestação de 12 páginas, a juíza Ketanji Brown Jackson afirmou que a medida cria condições para que alguns estados cancelem os registros eleitorais de pelo menos alguns cidadãos naturalizados recentemente ou exijam que eles apresentem provas de cidadania antes de votar.

    “O dano causado ao impor obstáculos ou retirar o direito de voto até mesmo de alguns poucos eleitores legalmente habilitados supera o dano inexistente sofrido pelo governo quando ele é impedido de tomar uma medida para a qual provavelmente não tem autoridade”, escreveu Jackson, acompanhada pelas juízas Sonia Sotomayor e Elena Kagan.

    Plano antigo

    A criação de uma lista nacional de cidadania é um objetivo antigo de Trump. Em março de 2025, o presidente assinou um decreto determinando que várias agências federais, entre elas o Departamento de Segurança Interna e a Administração da Previdência Social, reunissem seus registros em uma ferramenta online que pudesse ser usada por autoridades estaduais e locais para verificar a cidadania e o status migratório de eleitores registrados.

    A legislação americana proíbe não cidadãos de votar em eleições federais. Trump afirma há anos, sem apresentar provas, que um grande número de não cidadãos conseguiu se registrar e votar ilegalmente. O governo argumenta que a centralização das informações em um único banco de dados permitirá às autoridades realizar as verificações de maneira mais eficiente.

    A ordem de Trump levou o Departamento de Segurança Interna a reformular o Systematic Alien Verification for Entitlements (SAVE), sistema usado para verificar a cidadania e o status migratório de pessoas que solicitavam determinados benefícios e licenças. A versão ampliada da ferramenta passou a incorporar informações da Previdência Social e outros registros.

    A mudança provocou uma série de contestações judiciais, entre elas uma ação apresentada por grupos de defesa dos direitos eleitorais. Organizações de defesa da privacidade e associações de direitos dos imigrantes também questionaram a iniciativa, argumentando que concentrar tantas informações em um único sistema dá ao governo poder excessivo para atingir opositores da administração e pode criar uma vulnerabilidade para a segurança nacional.

    ‘Corrida pelo decreto’

    Em junho, uma juíza federal em Washington impediu o governo Trump de permitir que os estados utilizassem a ferramenta para verificar seus registros eleitorais. A juíza Sparkle L. Sooknanan, indicada pelo ex-presidente Joe Biden, afirmou que, “na corrida para cumprir um decreto destinado a reformular as eleições federais”, as agências “combinaram e reaproveitaram de maneira desordenada as informações privadas de milhões de americanos, incluindo dados de cidadania que sabiam não serem confiáveis”.

    A disputa judicial também expôs divergências entre autoridades estaduais e locais sobre a utilização do sistema. O procurador-geral do Texas, o republicano Ken Paxton, apresentou uma manifestação à Suprema Corte afirmando que o estado havia conseguido usar a ferramenta para verificar mais de 18 milhões de eleitores de maneira gratuita e eficiente.

    Autoridades texanas disseram que o sistema identificou cerca de 2,7 mil pessoas como possíveis não cidadãos. Uma revisão manual desses registros constatou, porém, que 578 haviam sido identificados incorretamente e eram cidadãos americanos. Em 15 de setembro, autoridades do Texas anunciaram que encaminhariam 117 nomes ao gabinete do procurador-geral para “investigação de possível votação por não cidadãos”.

    ‘Americanos em risco’

    Enquanto isso, autoridades do condado de Travis, um reduto democrata no Texas, adotaram uma posição diferente e pediram à Suprema Corte que mantivesse a ferramenta suspensa durante as eleições de meio de mandato. Celia Israel, responsável pela administração tributária do condado, e Dyana Limon-Mercado, secretária do condado, ambas democratas, citaram “sérias preocupações” com a precisão do sistema.

    Segundo elas, a ferramenta havia “introduzido dados falhos e continuará a fazê-lo, fazendo com que eleitores aptos sejam erroneamente excluídos dos cadastros”. Ainda não está claro qual será a adesão de autoridades eleitorais estaduais e locais ao sistema federal depois da decisão da Suprema Corte.

    Uma coalizão de organizações que havia contestado a ampliação da ferramenta, incluindo a Liga das Mulheres Eleitoras e o Centro de Informações sobre Privacidade Eletrônica, classificou a decisão desta sexta como “profundamente decepcionante”. Em nota, os grupos disseram que a medida colocou “milhões de americanos em risco de serem ilegalmente alvo do banco de dados pouco confiável do governo para exclusão de eleitores”.

    A decisão ocorre depois de a Suprema Corte impor, neste mês, um revés ao governo Trump em outra disputa relacionada às eleições. Na ocasião, a maioria dos juízes bloqueou o plano do governo de exigir que o Serviço Postal dos EUA fizesse uma triagem das cédulas enviadas pelo correio. Trump criticou a Corte após a decisão, e, nas redes, acusou o tribunal de emitir “decisões chocantemente ruins e de tamanha magnitude que não será facilmente possível para nosso país se recuperar ou se recompor”.

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