Do transporte à saúde: entenda como era o esquema com o PCC envolvendo ex-presidente da Câmara e outros políticos em SP
Apuração aponta suspeitas de interferência em licitações, contratos públicos e negociações de empresas do setor em São Paulo e outras cidades
18/09/2026 03h30 Atualizado 18/09/2026 03h30
De acordo com a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo, a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) já tem o controle direto ou indireto de 12 das 22 empresas de ônibus que operam na capital paulista. As investigações levaram, ontem, à Operação Vectura Corrupta, nova etapa da investigação sobre a infiltração do PCC no transporte coletivo e no poder público, com mandados de prisão contra 16 pessoas e 18 de busca e apreensão em sete cidades. Entre os alvos estão o ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil), o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira e Danilo Marco Morgado Silva (PL), ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande e candidato a deputado estadual.
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A apuração aponta suspeitas de interferência em licitações, contratos públicos e negociações de empresas do setor em São Paulo e outras cidades.
Milton Leite é citado no pedido que embasou a operação como responsável pela operação de algumas empresas atribuídas à facção. O documento também menciona declarações de PMs, prestadas na Justiça Militar, segundo as quais ele seria o dono de fato da Transwolff, empresa que lavaria dinheiro para a facção. Leite não foi encontrado em casa, e disse ao GLOBO que está viajando e que se apresentará às autoridades em até 24 horas.
— Nego veementemente qualquer acusação, não sou dono da empresa, só tinha relação porque era próximo lá. Não tenho nada a ver com PCC, nunca encontrei esse pessoal na vida — afirmou.
Leite foi vereador por sete mandatos e presidiu a Câmara quatro vezes. Deixou o Legislativo no ano passado, mas continua presidente do União Brasil em São Paulo e do diretório estadual da Federação União Progressista.
Empresas e poder público
Entre as empresas citadas na investigação estão Transwolff, A2 Transportes, Translider, Transbellaflor, Alfa Rodobus e outras. A Alfa assumiu, em fevereiro, as linhas que pertenciam à UPBus, cuja concessão foi rescindida pela prefeitura após a Operação Fim da Linha, em 2024, apontar seu uso para lavagem de dinheiro do PCC. Segundo a polícia, mensagens extraídas do celular de José Daniel Satilite, apontado como integrante da facção, indicam que a Alfa também estaria sob controle do grupo.
Outro personagem central é Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, preso ontem. Segundo investigadores, ele teria ciência de tratativas entre empresas de ônibus e integrantes do PCC. Embora não fosse interlocutor direto de José Daniel, os dois teriam mantido encontros periódicos para tratar de interesses das empresas. Mensagens mostram José Daniel dizendo ser preciso “iniciar a conversa com o Levi da SP Trans”. Dias depois, ele afirmou: “Já temos a resposta do Levi”.
A defesa de Levi afirmou ter sido surpreendida com a prisão. Disse que ele não tem antecedentes e que, após ter acesso aos autos, adotará medidas para revogar a prisão.
José Daniel e Claudionor Aparecido Sabino Tomaz são apontados como possíveis laranjas em negócios do setor. Segundo a polícia, os dois constavam como sócios da Translider, em Cubatão, mas seriam representantes dos verdadeiros donos. O empresário Paulo Siqueira Korek Farias, ligado à Translider e à A2, teria mantido influência sobre a primeira mesmo após deixar formalmente a sociedade.
A apuração aponta suspeitas de direcionamento de licitações em Cubatão, Leme, São Vicente e Itanhaém. Nesta última, os investigadores identificaram conversas sobre tentativa de garantir a vitória de um grupo, com valores para vantagens indevidas e a facção.
Política e negócios
A apuração identificou ainda um chamado “núcleo político”, que, segundo os investigadores, buscaria ampliar o acesso do PCC a recursos públicos e negócios legais. Entre as estratégias estariam financiamento e apoio a candidaturas.
Danilo Marco Morgado Silva (PL), que disputou a Prefeitura de Praia Grande em 2024 e é candidato a deputado estadual, é investigado por suposto vínculo com integrantes do PCC e por indícios de que sua campanha teria recebido recursos da facção. A defesa de Morgado diz que ainda não teve acesso ao cliente, que foi preso em Praia Grande, e nega irregularidades em campanha e qualquer envolvimento seu com o crime organizado.
José Ronaldo Alves de Sales é apontado como outro elo entre integrantes da facção, o setor de transportes e políticos.
A operação também investiga a chamada “Sintonia dos Gravatas”, grupo do PCC formado por advogados que, segundo a polícia, teriam atuado em benefício da organização criminosa. Entre os investigados estão Cícero José dos Santos Filho, Eduardo Medeiros e Milton Mello Milreu. José Daniel Satilite é apontado como intermediário entre empresários, advogados, políticos e integrantes do PCC.
Segundo a investigação, os envolvidos ainda teriam participado de negociações envolvendo a Fanal Derivados de Petróleo, avaliada em cerca de R$ 40 milhões, além de negócios com drogas e armas.
A polícia aponta uma possível expansão da facção criminosa para a área da saúde. Segundo documento do Tribunal de Justiça de São Paulo, José Daniel teria discutido a criação de uma ONG para atuar no setor. Os investigadores identificaram posteriormente a Associação das Crianças Excepcionais de Nova Iguaçu, entidade do Rio de Janeiro com atuação em municípios paulistas, na qual ele figuraria como conselheiro.
Prefeitura responde
A Prefeitura de São Paulo afirmou que a intervenção na Transwolff, determinada em abril de 2024, foi adotada para proteger o sistema municipal de transporte. Na mesma ocasião, segundo a administração, houve intervenção na UPBus.
Após a operação de ontem, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) determinou a criação de grupo com representantes da Procuradoria-Geral do Município, Controladoria-Geral, SPTrans e Secretaria de Mobilidade para analisar os elementos da investigação e avaliar intervenção na A2 Transportes.
A prefeitura afirmou que atua em conjunto com o Ministério Público e a polícia e poderá adotar medidas administrativas e judiciais para a continuidade do serviço. O GLOBO tentou contato com os demais citados, mas sem retorno.