‘Pode chorar’, ‘PF paralela’ e ‘alegação patética’: os bate-bocas entre ministros do STF durante sessão sobre Moraes
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‘Pode chorar’, ‘PF paralela’ e ‘alegação patética’: os bate-bocas entre ministros do STF durante sessão sobre Moraes

Julgamento foi adiado por pedido de vista e só deve ser retomado após as eleições

16/09/2026 05h00 Atualizado 16/09/2026 05h00

A sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) de terça-feira foi marcada por uma série de bate-bocas e trocas de acusações entre os ministros da Corte. A reunião foi convocada para analisar a conduta do ministro Alexandre de Moraes, que aparece como interlocutor de mensagens de Daniel Vorcaro, protagonista do escândalo de fraude financeira do banco Master.

Em meio a troca de insultos e interrupções de fala, o Supremo não analisou a conduta de Moraes e o ministro Flávio Dino fez um pedido de vista, que pode paralisar o caso por até 90 dias.

A crise dentro do STF se agravou há duas semanas, quando André Mendonça levantou sigilo de relatório da Polícia Federal com mensagens em que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, pede ajuda a Moraes, mas também busca a intervenção do magistrado junto ao chefe da Procuradoria-Geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para escapar do cerco das investigações.

Veja os confrontos entre ministros durante julgamento do STF

Gilmar se queixa de citação a Gonet

Em um dos momentos de troca de acusação, o ministro Gilmar Mendes saiu em defesa de Gonet, o que motivou uma discussão com André Mendonça:

— É impressionante que uma pessoa da estatura do senhor Paulo Gonet sofra esse tipo de ilação. Isso, sim, é leviandade. Um sujeito investido de um sentimento policialesco junto com os seus delegados. É impressionante a desfaçatez desse sujeito.

Em reação, Mendonça disse que a “desfaçatez” é de Gilmar e completou:

— Me respeite, me respeite. Isso aqui não é brincadeira.

Gilmar então responde de volta a Mendonça:

— Pode chorar, pode chorar.

Por sua vez, Mendonça disse:

— Não estou chorando não. Aqui não tem choro não. Respeite.

O grupo mais próximo de Moraes dentro da Corte tem sido representado pelos ministros Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Flávio Dino. Por sua vez, Mendonça tem contado com o apoio de Luiz Fux e o aceno do ministro Nunes Marques em alguns casos.

A crise no STF ganhou novo impulso também há duas semanas com um pedido apresentado por Moraes para que o colega seja investigado pelo que classificou como “indícios de crimes” cometidos na condução de inquéritos sob sua relatoria, em especial o relativo ao escândalo do Banco Master. No pedido, Moraes cita um relatório, sem assinatura de autoria, elaborado pela PF.

Moraes e Mendonça brigam por relatório da PF

— O que há na verdade ali é um documento ilegal e o próprio documento fala que não tem valor probatório – acusou Mendonça.

Em resposta, Moraes declarou que a fala do colega é “patética”.

— Os relatórios de inteligência são oficiais. Não houve monitoramento algum, com todo respeito, chega a ser patética essa alegação.

Mendonça então reagiu e disse que “o próprio documento fala” que não tem valor probatório.

Moraes respondeu de volta e disse que “o ministro André Mendonça tem razão, não é prova, é meio de obtenção de prova”. Ao que Mendonça falou: “Nem isso é”.

— Basta chamar os policiais, que várias e várias vezes o ministro André indagou e solicitou que me colocasse na investigação — disse Moraes em seguida.

Mendonça então reagiu e lamentou: “Meu Deus do céu”.

‘PF paralela’

Em um dos momentos mais duros, André Mendonça afirmou existir uma “PF paralela” e disse que ministros do Supremo são monitorados.

Moraes reagiu questionando “quem tem medo da Polícia Federal?” e acusou o colega de ter pressionado a corporação para incluir seu nome em uma colaboração premiada.

Gilmar e Mendonça trocam críticas por condução de delações

Em outro momento, foi a vez de Gilmar Mendes protagonizar um embate com Mendonça.

— Essa confusão já vinha, lembro do debate que tive na (segunda) Turma (do STF) sobre delação em que o ministro André dizia que estava recebendo advogados para conduzir as delações — disse o decano da Corte.

— Eu nunca disse não, ministro Gilmar. Não ponha palavras na minha boca — respondeu Mendonça.

Dino diz que Fux aparece em mensagens com Vorcaro e ministro nega

Os ministros Flávio Dino e Luiz Fux também protagonizaram outra briga. A confusão começou quando Dino citou diálogos de Vorcaro com outros membros da Corte. Dino havia se queixado com o presidente do STF, Edson Fachin, sobre a sessão extraordinária em curso à qual ele chamou de "desastrada".

— Acho que Vossa Excelência não se deu conta disso, porque Vossa Excelência, além de marcar esta sessão desastrada, ainda marcou uma na próxima semana. E nas próximas semanas, Vossa Excelência está condenado a marcar dezenas de sessões iguais a essa. (...) As mensagens do ministro Fux, as mensagens do ministro Kassio, as mensagens relativas ao ministro André, nós vamos parar onde? — disse Dino.

Fux, então, rebateu que não havia diálogos de Vorcaro com ele. Dino reagiu, dizendo que "tinha, sim". E a discussão avançou.

— Não tem não, senhor — repetiu Fux, e enfatizou: — Pode ter alguém falando de mim, comigo não. Nunca vi esse cidadão na minha vida, nunca tive relação com ele. Vossa Excelência não lance, só se estiver se baseando nesses inquéritos que surgem do nada. Não tem, ministro, não tem.

Afastamento de Andrei Rodrigues

A atuação da Polícia Federal foi outro dos principais pontos de confronto. André Mendonça havia determinado o afastamento do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, durante a investigação. A medida foi criticada por Gilmar Mendes, que classificou o afastamento do diretor-geral como um “vexame” e “falta de noção”.

— Qualquer cidadão que tenha o mínimo de noção do que significa a Polícia Federal não faria o afastamento de um diretor-geral. É como afastar o diretor da Nasa ou tirar o comandante do Exército. Não se faz — afirmou Gilmar.

O ministro disse ainda que uma decisão dessa natureza demonstraria falta de compreensão sobre o funcionamento da corporação. A decisão de Mendonça foi seguida por uma reação de Flávio Dino, que determinou a reintegração dos dois dirigentes.

Diante das decisões conflitantes, Fachin suspendeu ambas, manteve a cúpula da PF nos cargos e levou a disputa ao plenário. Gilmar também acusou Mendonça de agir com motivação política e eleitoral na divulgação do relatório da PF que trata das mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes.

— É evidente e até as pedras sabem que há um inequívoco viés eleitoral na forma como o tema foi conduzido nos autos dessa PET (petição). Escolha de data, 7 de Setembro, todo esse cenário envolvendo essa Corte em campanha eleitoral — disse o decano.

Em resposta, Mendonça afirmou que Gilmar está sendo "leviano".

— Não aponte o dedo para mim. Não está falando com qualquer um. Respeite este tribunal — disse Mendonça.

Em tréplica, Gilmar concluiu dizendo ao colega que "quem não se dá respeito, não merece respeito".

A escalada de divergências levou Fachin a fazer um apelo aos integrantes da Corte logo no início da sessão. O presidente afirmou que divergências jurídicas são legítimas, mas que o confronto pessoal não pode orientar a atuação do tribunal.

— A divergência é legítima. O confronto pessoal, não. E a decisão pertence ao plenário, não a um ministro individualmente. São premissas simples, mas em momentos de tensão institucional é necessário dizer o que deve orientar a nossa atuação — afirmou Fachin.

O presidente também pediu equilíbrio e defendeu que os ministros se concentrassem nos fatos e nas questões processuais antes de discutir o mérito.

— Não se julgam pessoas. Julgam-se fatos e questões jurídicas. Não se antecipa o mérito antes de resolvida a validade processual — disse.

Ao final de sua manifestação, Fachin afirmou que o Supremo precisa preservar sua autoridade institucional diante da crise. — Não temos o direito de entregar às gerações futuras um Supremo Tribunal Federal menor do que aquele que recebemos — afirmou.

Da mesma forma, no final da sessão, a ministra Cármen Lúcia disse se sentir envergonhada pelos conflitos dentro da Corte.

— Eu me sinto um pouco até envergonhada, presidente, de, em momento em que o Brasil está a menos de 20 dias da eleição, estarmos todos voltados a questões do Supremo, que são questões processuais em parte, com muita expressão e com questões graves mesmo, mas nós não garantimos o rigor e a serenidade que no meu papel de cidadã e juíza eu deveria ter ajudado a promover.

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